Explicação bíblica

Salmos 35

Bíblia
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O Texto

Um homem encurralado pede que Deus entre em campo por ele: "Pega do escudo e da rodela, e levanta-te em minha ajuda." Não é uma metáfora suave. O salmista imagina Deus armado, de lança em punho, bloqueando a estrada por onde vêm os perseguidores. No meio dessa gritaria de guerra, porém, ele pede algo estranhamente íntimo: "dize á minha alma: Eu sou a tua salvação." Depois vem a acusação: testemunhas falsas, gente que ele havia chorado como se fosse irmão, que jejuou e vestiu saco por eles quando adoeceram, e que agora se ajunta para rasgá-lo. O salmo oscila três vezes entre lamento e promessa de louvor, e termina não com vingança consumada, mas com uma língua que fala da justiça de Deus o dia inteiro.

O Cerne

O que este salmo diz sobre Deus é desconfortável e libertador ao mesmo tempo: Deus não é neutro. Ele toma partido. "Senhor, quem é como tu, que livras o pobre d'aquelle que é mais forte do que elle?" Essa é a definição de Deus que o salmista encontra no fundo do poço, e não é uma definição abstrata; é a diferença de força entre duas pessoas, e Deus se coloca do lado mais fraco. Aqui está o coração da justiça bíblica: não um equilíbrio cego, mas uma inclinação deliberada. E note o que o salmista faz com sua raiva. Ele não pega a lança; entrega-a. Todo o desejo de retaliação é depositado nas mãos de Deus e ali fica, transformado em oração e não em ação. Isso é, silenciosamente, uma renúncia à vingança.

O Fio Condutor

Duas expressões deste salmo atravessam os séculos e chegam à boca de Jesus. "Sem causa" e "sem razão" aparecem quatro vezes aqui: a rede foi escondida sem causa, a cova cavada sem razão, o ódio não tem motivo. Em João 15, na véspera da prisão, Jesus diz aos discípulos que o mundo o odiou para que se cumprisse a palavra escrita na lei deles: aborreceram-me sem causa. Ele cita exatamente esta linguagem. Isso muda a maneira de ler o salmo. O homem que chorou pelos que agora o devoram, que vestiu saco quando eles adoeceram, que fez o bem e recebeu o mal, não é apenas Davi ou algum justo anônimo do antigo Israel. É a figura que caminha em direção ao Getsêmani. E ali, curiosamente, a lança que o salmista entregou a Deus permanece guardada.

O Espelho

Você provavelmente já esteve dos dois lados. Do lado de quem foi descrito numa reunião com palavras que não reconhece, ou de quem descobriu que o irmão da igreja para quem levou sopa está agora contando sua história com detalhes torcidos. A dor específica deste salmo não é a agressão do inimigo declarado; é a traição de quem recebeu cuidado. Mas leia o versículo 26 devagar: "os que se alegram com o meu mal". Existe em nós um prazer discreto quando o colega ambicioso tropeça, quando o casamento daquele que nos humilhou começa a rachar. Não celebramos em voz alta; apenas sentimos um alívio morno. O salmo nomeia isso como pecado grave, digno de vergonha. Antes de rezar este texto contra alguém, vale perguntar de que lado da mesa estamos sentados.

O Protagonista

O personagem mais estranho deste salmo é Deus, e é estranho porque parece ausente. "Senhor, até quando verás isto?" e, mais adiante, "Desperta e acorda para o meu julgamento". O salmista acusa Deus de dormir enquanto ele é rasgado. Ao mesmo tempo confessa: "Tu, Senhor, o tens visto, não te cales." Deus vê e não fala. É esse silêncio que o salmo não resolve nem explica; apenas suporta. E o pedido mais tocante de todo o texto não é a lança nem o escudo, mas quatro palavras sussurradas para dentro: "dize á minha alma: Eu sou a tua salvação." Antes da vitória, antes da vindicação pública, ele quer uma voz. Não uma intervenção, uma frase. Talvez seja isso o que mais desejamos e o que menos sabemos pedir.

O Intertexto

Paulo, em Romanos 12, ordena que não nos vinguemos, deixando lugar à ira de Deus, porque a vingança pertence ao Senhor. Isso parece contradizer as maldições deste salmo, mas na verdade as explica. O salmista faz precisamente o que Paulo manda: recusa-se a agir e devolve o caso ao tribunal de Deus. A diferença entre orar por destruição e executá-la é a diferença entre fé e assassinato. O outro eco vem do próprio salmo: os versículos 13 e 14, onde o perseguido descreve seu luto pelos inimigos doentes, "como quem chora por sua mãe". É o gesto mais cristão do Antigo Testamento, feito antes de qualquer mandamento sobre amar inimigos, e feito por alguém que não recebeu nada em troca.

A Pergunta

Posso rezar o versículo 6? "Seja o seu caminho tenebroso e escorregadio, e o anjo do Senhor os persiga." Se respondo que sim com facilidade, provavelmente não pensei em quem tenho em mente. Se respondo que não, apago da Bíblia uma oração que Deus preservou por três mil anos e deixo os oprimidos sem linguagem para sua dor. A saída barata seria dizer que oramos assim contra o pecado, não contra pessoas. O salmo não permite isso; ele fala de bocas abertas, de olhos que acenam, de gente concreta. Talvez o mais honesto seja reconhecer que esta oração pertence primeiro aos que estão realmente na cova, não aos que apenas se sentiram ofendidos. E reconhecer que, mesmo nela, a última palavra não é destruição, mas uma língua que fala da justiça de Deus o dia inteiro. O salmo termina em louvor, não em cadáveres. Por quê? O texto não diz. Fica a pergunta.

Reflexão

Existe alguém cujo fracasso me traria um alívio secreto? O que este salmo diz sobre esse alívio?

Se Deus dissesse hoje à sua alma "Eu sou a tua salvação", sem mudar nada na sua situação, isso seria suficiente? Por que sim ou por que não?

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Perguntas frequentes sobre Psalms 35

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Salmos 35?
Um homem encurralado pede que Deus entre em campo por ele: "Pega do escudo e da rodela, e levanta-te em minha ajuda." Não é uma metáfora suave. O salmista imagina Deus armado, de lança em punho, bloqueando a estrada por onde vêm os perseguidores. No meio dessa gritaria de guerra, porém, ele pede algo estranhamente íntimo: "dize á minha alma: Eu sou a tua salvação.
Sobre o que fala Salmos 35?
O que este salmo diz sobre Deus é desconfortável e libertador ao mesmo tempo: Deus não é neutro. Ele toma partido. "Senhor, quem é como tu, que livras o pobre d'aquelle que é mais forte do que elle?" Essa é a definição de Deus que o salmista encontra no fundo do poço, e não é uma definição abstrata; é a diferença de força entre duas pessoas, e Deus se coloca do lado mais fraco.
Qual é o contexto histórico de Salmos 35?
Duas expressões deste salmo atravessam os séculos e chegam à boca de Jesus. "Sem causa" e "sem razão" aparecem quatro vezes aqui: a rede foi escondida sem causa, a cova cavada sem razão, o ódio não tem motivo. Em João 15, na véspera da prisão, Jesus diz aos discípulos que o mundo o odiou para que se cumprisse a palavra escrita na lei deles: aborreceram-me sem causa.
O que Salmos 35 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Você provavelmente já esteve dos dois lados. Do lado de quem foi descrito numa reunião com palavras que não reconhece, ou de quem descobriu que o irmão da igreja para quem levou sopa está agora contando sua história com detalhes torcidos. A dor específica deste salmo não é a agressão do inimigo declarado; é a traição de quem recebeu cuidado.
Como Salmos 35 continua relevante hoje?
O personagem mais estranho deste salmo é Deus, e é estranho porque parece ausente. "Senhor, até quando verás isto?" e, mais adiante, "Desperta e acorda para o meu julgamento". O salmista acusa Deus de dormir enquanto ele é rasgado. Ao mesmo tempo confessa: "Tu, Senhor, o tens visto, não te cales.
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Oração Editorial em versículo 12

Pai, doeu receber mal de quem eu tentei amar bem. Tem horas que me sinto vazio por dentro, sem ninguém por perto. Guarda meu coração de virar pedra. Ajuda-me a continuar fazendo o bem, mesmo quando ninguém agradece, porque contigo eu não fico só.

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