Explicação bíblica

Salmos 90:10

Bíblia

O Texto

Setenta anos, no máximo oitenta se o corpo aguentar. É essa a conta que o salmo faz, sem rodeios e sem consolo barato. E o mais duro não é o número, mas o que se diz sobre aquilo que enchemos esse tempo: "o orgulho d'elles é canceira e enfado", ou seja, aquilo de que mais nos orgulhamos, a carreira construída, a casa paga, o corpo mantido em forma, é no fundo trabalho penoso e cansaço. Depois vem a imagem final, rápida como o que descreve: "cedo se corta e vamos voando". A vida é cortada como erva e o que resta de nós é um voo, uma passagem, um vento que não fica.

O Coração

Este versículo não é pessimismo, é teologia. O salmo já disse quem Deus é: aquele que existe "de eternidade em eternidade", para quem mil anos são como ontem. Colocar a nossa contagem de setenta ou oitenta anos ao lado dessa frase é o ponto: não somos pequenos por acidente, somos criaturas, e criaturas mortais. O salmo recusa a mentira de que o nosso tempo é nosso. E recusa também a ideia de que a brevidade é neutra: o versículo 7 falou de ira, o 8 de pecados escondidos trazidos à luz. A morte não é apenas biologia, é o eco do nosso afastamento de Deus. Só quem admite isso pode fazer o pedido que virá no versículo 12, aprender a contar os dias e receber um coração sábio.

O Fio Condutor

Setenta anos, oitenta com sorte. E então aparece na história alguém que morre com pouco mais de trinta e cuja morte, precisamente ela, se torna o começo de tudo. Jesus não vem cancelar a conta do Salmo 90; ele entra nela. Assume a erva que seca, o corpo que se corta, o voo breve. A diferença é que nele a brevidade deixa de ser castigo e passa a ser caminho. É por isso que Paulo pode dizer que a morte foi tragada pela vitória: não porque paremos de morrer, mas porque a nossa morte já foi atravessada por outro. O salmo termina pedindo que Deus confirme "a obra das nossas mãos", e essa oração só tem sentido se houver alguém capaz de dar permanência ao que é passageiro. O Novo Testamento dá nome a esse alguém.

O Espelho

Você provavelmente já passou de metade. Faça a conta: se tem quarenta anos, restam trinta, talvez quarenta, e uma parte deles será ocupada por um corpo que já não obedece como antes. O salmo não quer que você fique deprimido com isso; quer que você olhe honestamente para aquilo que chama de conquista. Aquele projeto pelo qual você sacrificou noites, aquela reforma da casa, a nota de desempenho, o esforço de parecer mais jovem do que é: o texto chama isso de "canceira e enfado". Não porque trabalhar seja mau, mas porque construímos monumentos com material que seca antes do fim da tarde. E o que dói mais: gastamos os anos a proteger a imagem que teremos de deixar cair de qualquer maneira. O salmo tira o tapete debaixo do orgulho para que sobre apenas Deus como refúgio, o que o versículo 1 já tinha dito antes de tudo.

Hoje, escreva num papel a idade que você tem e, ao lado, o número de anos que faltariam até os setenta. Olhe para esse segundo número em silêncio por um minuto e diga em voz alta: "Senhor, ensina-me a contar os meus dias."

O Detalhe

A palavra hebraica traduzida aqui por "vamos voando" é nappalmente rara e forte; a raiz sugere um voo súbito, como o de um pássaro que se levanta antes de você conseguir apontar para ele. Não é o voo majestoso da águia, é o arranque assustado que deixa o ramo a tremer e nada mais. Repare que o verbo não descreve a alma a subir para o céu; descreve a vida a escapar. É a imagem de alguém que se vira para falar com você e você já não está. O salmo poderia ter escolhido a metáfora da vela que se apaga, mais lenta, mais dramática. Escolheu a mais rápida de todas. E colocou-a no fim do versículo, sem explicação, sem consolo, para que a frase termine tão abruptamente como a coisa que descreve.

Contexto

O título liga este salmo a Moisés, o único no livro dos Salmos com essa atribuição, e o cenário encaixa: um povo no deserto onde uma geração inteira morre antes de entrar na terra prometida. Quarenta anos a enterrar pais, irmãos, vizinhos, com a consciência de que aquelas mortes tinham a ver com a desobediência em Cades-Barneia. Nesse contexto, "somos consumidos pela tua ira" não é linguagem exagerada de poeta; é descrição de acampamento. E setenta anos, na Antiguidade, não era média de vida mas limite de expectativa para quem sobrevivia à infância. Os números do versículo 10 são o teto, não a norma. Quem cantava isto conhecia dezenas de pessoas que nunca chegaram lá.

O Perfil

Os primeiros a orar este salmo eram gente sem seguro de saúde, sem hospital, sem aposentadoria, para quem a morte de uma criança era experiência comum e não tragédia excepcional. Eles não precisavam ser convencidos da brevidade da vida; precisavam de linguagem para a levar diante de Deus sem cinismo e sem revolta. E aqui está a diferença mais aguda em relação a nós: eles não tinham ainda uma esperança clara de ressurreição. Cantavam esta contagem sabendo que o horizonte terminava na sepultura, e mesmo assim chamavam Deus de refúgio de geração em geração. Isso é coragem que nos falta. Nós, que sabemos mais, muitas vezes cremos menos, porque preenchemos o silêncio com distrações em vez de o preenchermos com oração.

Reflexão

O que na sua vida você defenderia com mais energia se alguém a chamasse de "canceira e enfado", e por que essa reação é tão forte?

Se você soubesse com certeza que lhe restam dez anos, o que mudaria amanhã de manhã, e o que o impede de mudar hoje?

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Perguntas frequentes sobre Psalms 90:10

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Salmos 90:10?
Setenta anos, no máximo oitenta se o corpo aguentar. É essa a conta que o salmo faz, sem rodeios e sem consolo barato. E o mais duro não é o número, mas o que se diz sobre aquilo que enchemos esse tempo: "o orgulho d'elles é canceira e enfado", ou seja, aquilo de que mais nos orgulhamos, a carreira construída, a casa paga, o corpo mantido em forma, é no fundo trabalho penoso e cansaço.
Sobre o que fala Salmos 90:10?
Setenta anos, oitenta com sorte. E então aparece na história alguém que morre com pouco mais de trinta e cuja morte, precisamente ela, se torna o começo de tudo. Jesus não vem cancelar a conta do Salmo 90; ele entra nela. Assume a erva que seca, o corpo que se corta, o voo breve. A diferença é que nele a brevidade deixa de ser castigo e passa a ser caminho.
Qual é o contexto histórico de Salmos 90:10?
Hoje, escreva num papel a idade que você tem e, ao lado, o número de anos que faltariam até os setenta. Olhe para esse segundo número em silêncio por um minuto e diga em voz alta: "Senhor, ensina-me a contar os meus dias."
O que Salmos 90:10 nos ensina sobre o caráter de Deus?
O título liga este salmo a Moisés, o único no livro dos Salmos com essa atribuição, e o cenário encaixa: um povo no deserto onde uma geração inteira morre antes de entrar na terra prometida. Quarenta anos a enterrar pais, irmãos, vizinhos, com a consciência de que aquelas mortes tinham a ver com a desobediência em Cades-Barneia.
Como Salmos 90:10 continua relevante hoje?
O que na sua vida você defenderia com mais energia se alguém a chamasse de "canceira e enfado", e por que essa reação é tão forte?

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