Apollos: eu plantei, Apollos regou, mas Deus deu o crescimento
Quem é Apollos
Apollos é um homem que viveu no tempo dos apóstolos, numa era situada "por volta de 4 a.C. a d.C. 33" (era situada na cronologia de Ussher (1650)). Seu nome ocupa dez versículos em sete passagens, da primeira menção em Acts 18:24 até a última em Titus. Sete dessas menções estão em 1 Corinthians, duas em Acts e uma em Titus, e o trecho seguido mais longo sobre ele tem apenas três versículos (1 Corinthians 3:4-6). É pouco texto para um nome tão conhecido, o que torna ainda mais importante ler exatamente o que está escrito, sem completar o que falta.
A apresentação em Epheso
A primeira vez que o texto o nomeia, descreve-o assim: "E chegou a Epheso um certo judeo chamado Apollo, natural d'Alexandria, varão eloquente e poderoso nas Escripturas" (Acts 18:24). Quatro dados, e nada além disso nesse versículo: judeu, natural d'Alexandria, eloquente, poderoso naquilo que está escrito. O elogio não recai sobre sua posição ou sua linhagem, mas sobre sua palavra e seu domínio do que foi escrito. Ele é mencionado outra vez em Acts 19:1.
Um nome usado numa disputa que não era dele
A maior parte do que sabemos vem de uma carta em que seu nome foi transformado em bandeira de partido. Paulo relata: "E digo isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apollos, e eu de Cephas, e eu de Christo" (1 Corinthians 1:12). Adiante, volta ao mesmo ponto: "Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apollos: porventura não sois carnaes? Pois quem é Paulo, e quem é Apollos, senão ministros pelos quaes crêstes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei; Apollos regou; mas Deus deu o crescimento" (1 Corinthians 3:4-6).
Vale observar o que Paulo faz e o que não faz. Ele não defende Apollos contra o grupo rival, nem rebaixa Apollos para desfazer a facção. Ele coloca os dois na mesma medida: ministros, e cada um conforme o que o Senhor deu. Plantar e regar são trabalhos verdadeiros, mas nenhum dos dois produz o crescimento. Esse é de Deus.
O mesmo nome reaparece numa lista que inverte a lógica dos partidos: "Seja Paulo, seja Apollos, seja Cephas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso" (1 Corinthians 3:22). Diziam pertencer a Apollos; a resposta é que Apollos pertence a eles, e não o contrário.
Em seguida, Paulo explica por que escolheu justamente esses dois nomes: "E eu, irmãos, appliquei estas coisas, por similhança, a mim e a Apollos, por amor de vós; para que em nós aprendaes a não ir além do que está escripto, para que não vos ensoberbeçaes a favor de um contra outro" (1 Corinthians 4:6). Apollos entra como exemplo, e o alvo do ensino é o orgulho de quem lê.
Um pedido recusado, por ora
A menção mais pessoal vem perto do fim da carta: "E, ácerca do irmão Apollos, roguei-lhe muito que fosse ter comvosco com os irmãos, mas, na verdade, não teve vontade de ir agora; irá, porém, quando se lhe offereça boa occasião" (1 Corinthians 16:12). A franqueza é notável. Paulo rogou muito; Apollos não teve vontade de ir naquele momento. Não há acusação, não há motivo declarado, e Paulo transmite a recusa sem suavizá-la e sem condená-la. A última passagem que o nomeia é Titus 3:13.
O que lhe é imputado, e o que não é
O material reunido não registra nenhum pecado atribuído a Apollos. As divisões são cobradas de quem as fazia, chamados carnais por causa delas (1 Corinthians 3:4), e não do homem cujo nome foi levantado como estandarte. O único ponto de atrito registrado está em 1 Corinthians 16:12, e ali o texto diz somente que ele não teve vontade de ir naquele momento, apesar do muito rogar de Paulo. Registrar isso é honestidade do próprio texto: irmãos úteis e reconhecidos podem divergir quanto ao tempo e à ocasião, e o registro não esconde a divergência.
O que não sabemos
Seus pais não são nomeados. Nenhum filho é mencionado. Nenhuma tribo ou povo lhe é atribuído, além do que Acts 18:24 informa, que era judeu, natural d'Alexandria. Como chegou a ser eloquente, quem o ensinou, quanto tempo viveu, nada disso é dito. O silêncio faz parte do retrato, e preenchê-lo seria trocar o texto por suposição.
A linha até Christo
As passagens listadas traçam essa linha com sobriedade. Em 1 Corinthians 1:12, o nome de Christo aparece como mais um rótulo de facção, o que já denuncia o absurdo da divisão: nenhum desses nomes está no mesmo plano dos outros. Em 1 Corinthians 3:5, Paulo e Apollos são definidos como "ministros pelos quaes crêstes", ou seja, meios pelos quais a fé chegou, não o objeto dessa fé. E o veredito vem no versículo seguinte: "Eu plantei; Apollos regou; mas Deus deu o crescimento" (1 Corinthians 3:6). Um homem eloquente e poderoso nas Escripturas (Acts 18:24) é, nesse quadro, alguém que rega. O crescimento tem outra origem, e é essa origem que sustenta a igreja quando os nomes dos que plantam e regam já não estiverem em disputa.