Tamar, filha de David: a irmã violentada na casa do rei
Quem é Tamar
Tamar é filha de David e de Maacah, e viveu no tempo do reino unido, era situada por volta de 1095 a.C. a 975 a.C. (era situada na cronologia de Ussher, 1650). O registro que temos dela cabe em treze versículos, distribuídos por dois livros apenas: 2 Samuel 13 e 1 Chronicles 3:9. É irmã de Absalão e de Amnon, e irmã de uma longa lista de filhos de David. Convém notar, antes de tudo, que este nome também designa um povo, uma tribo e uma terra, de modo que a maioria das ocorrências do nome nas páginas sagradas não fala desta mulher.
A beleza que atraiu o olhar de Amnon
O relato começa sem rodeios: "E aconteceu depois d'isto que, tendo Absalão, filho de David, uma irmã formosa, cujo nome era Tamar, Amnon, filho de David, amou-a. E angustiou-se Amnon, até adoecer, por Tamar, sua irmã, porque era virgem: e parecia aos olhos de Amnon difficultoso fazer-lhe coisa alguma" (2 Samuel 13:1-2). O texto já classifica o desejo antes de qualquer ação: Amnon quer alguma coisa que lhe parece difícil de fazer com a própria irmã.
O plano vem de fora. Jonadab, notando o definhar do filho do rei, pergunta a causa e recebe a confissão: "Amo a Tamar, irmã de Absalão, meu irmão". A resposta é uma receita de engano: "Deita-te na tua cama, e finge-te doente; e, quando teu pae te vier visitar, dize-lhe: Peço-te que minha irmã Tamar venha, e me dê de comer pão, e apreste a comida diante dos meus olhos, para que eu a veja e coma da sua mão" (2 Samuel 13:4-8). Amnon executa o plano, e o rei entra na armadilha sem perceber: "Mandou então David a casa, a Tamar, dizendo: Vae a casa de Amnon, teu irmão, e faze-lhe alguma comida" (2 Samuel 13:4-8).
Tamar obedece. "E foi Tamar a casa de Amnon, seu irmão (elle porém estava deitado), e tomou massa, e a amassou, e fez bolos diante dos seus olhos, e cozeu os bolos" (2 Samuel 13:4-8). Ela é serva diligente de um irmão doente que não está doente. Repare no detalhe repetido: tudo acontece "diante dos meus olhos", diante dos olhos dele. A refeição é pretexto para o olhar.
Então a ordem se estreita: "Traze a comida á camara, e comerei da tua mão. E tomou Tamar os bolos que fizera, e os trouxe a Amnon, seu irmão, á camara" (2 Samuel 13:10). É a última linha em que Tamar se move como pessoa livre.
O crime e o silêncio imposto
O que aconteceu naquela câmara recebe depois o seu nome próprio, e o nome é violência: Absalão "aborrecia a Amnon, por ter forçado a Tamar sua irmã" (2 Samuel 13:22). Não há atenuante no texto, nem chamada de amor. É força.
O luto de Tamar é público e físico: "Então Tamar tomou cinza sobre a sua cabeça, e a roupa de muitas côres que trazia rasgou: e poz as mãos sobre a cabeça, e foi-se andando e clamando" (2 Samuel 13:19-20). A primeira palavra que a encontra não é justiça, mas um pedido de silêncio: "E Absalão, seu irmão, lhe disse: Esteve Amnon, teu irmão, comtigo? Ora pois, irmã minha, cala-te; é teu irmão. Não se angustie o teu coração por isto. Assim ficou Tamar, e esteve solitaria em casa d'Absalão seu irmão" (2 Samuel 13:19-20). O clamor dela termina numa casa fechada. Jonadab, que armara o conselho, volta a falar do caso adiante (2 Samuel 13:32).
As faltas que o texto não esconde
O relato não registra pecado algum de Tamar. Registra os pecados que a cercaram. Jonadab arquitetou a mentira (2 Samuel 13:4-8). Amnon fingiu doença diante do próprio pai e forçou a irmã (2 Samuel 13:4-8; 2 Samuel 13:22). David, sem discernir nada, mandou a filha à casa do filho (2 Samuel 13:4-8). Absalão, sabendo do que Amnon fizera, mandou a irmã calar-se e depois não falou com Amnon "nem mal nem bem", guardando ódio em lugar de buscar justiça para ela (2 Samuel 13:19-20; 2 Samuel 13:22). A única figura da cena sem culpa registrada é também a única que acaba solitária.
O que não sabemos
A última vez que o seu nome aparece é numa nota genealógica: "Todos estes foram filhos de David, afóra os filhos das concubinas, e Tamar, irmã d'elles" (1 Chronicles 3:9). Ela permanece na lista da casa real, nomeada, não apagada. Fora disso, o texto cala. Nenhum filho lhe é atribuído. Não sabemos quanto tempo viveu, nem o que lhe sucedeu depois da casa de Absalão, nem se alguém lhe fez justiça em vida.
O que fica registrado é isto: uma filha do rei, formosa, obediente, enganada, forçada e mandada calar. O texto não suaviza nada disso, e quem o lê também não deveria.

