1 Tessalonicenses 4:17
O Texto
Primeiro os mortos, depois os vivos. Paulo já disse que "os que morreram em Christo resuscitarão primeiro" (v. 16), e agora chega a vez dos que ainda respiram: "Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com elles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares." Um movimento para cima, um encontro no ar, e então uma frase que não descreve mais nenhum movimento: "e assim estaremos sempre com o Senhor."
Note o que o versículo não faz. Não explica como. Não diz quanto tempo dura a subida, o que acontece com a terra, o que vem depois do encontro. Ele nomeia três coisas: um arrebatamento, uma companhia, uma permanência. E cala sobre o resto.
O Núcleo
O peso da frase não está nas nuvens, está no advérbio: sempre. Tudo o que Paulo desenha, o alarido, a voz do arcanjo, a trombeta, o ar, existe para desembocar num estado que já não muda. Somos criaturas que só conhecem a presença em doses; sentimos Deus e depois deixamos de senti-lo, oramos com fogo numa manhã e com pedra na seguinte. Aqui esse ritmo intermitente termina. Não porque nos tornemos mais espirituais, mas porque o Senhor desce.
E há um segundo peso: "juntamente com elles". A salvação de Paulo não é a alma solitária a subir para a luz. É uma multidão reconstituída, com aqueles que enterrámos a caminhar ao nosso lado. Se a morte separou, este versículo diz que a separação era provisória. Não temporária no sentido leve; provisória no sentido de que Deus não a aceitou como palavra final.
O Fio Condutor
As nuvens não são cenário atmosférico, são vocabulário bíblico. Sempre que Deus se aproxima de forma visível no Antigo Testamento, a nuvem aparece: no monte, sobre a tenda, enchendo o templo. E em Daniel 7 há alguém "como um filho do homem" que vem com as nuvens do céu para receber um reino que não passa. Paulo, ao colocar os crentes "nas nuvens", coloca-os no lugar onde até então só Deus e o Filho do homem estavam. Isto é o fio: o Deus que descia em nuvem para habitar no meio de um povo agora leva esse povo para dentro da sua própria nuvem. A encarnação desceu até nós; aqui a trajetória completa-se ao contrário. E note que nada disto é conquista humana. Cristo morreu e ressuscitou (v. 14), e é essa ordem, morte e ressurreição, que arrasta consigo tudo o que este versículo promete.
O Espelho
Há uma pergunta que raramente dizemos em voz alta: quando morre alguém que amamos, para onde vai? Fazemos o funeral, dizemos as palavras certas, e depois, sozinhos no carro, sentimos o silêncio. Este versículo não nos dá uma descrição do além. Dá-nos uma companhia: "juntamente com elles". Isso talvez irrite quem quer detalhes. Mas repare no que fica exposto em nós: queremos informação onde Deus nos oferece presença. E há outra coisa que o texto expõe. Se o meu destino é estar sempre com o Senhor, então este corpo que envelhece, este trabalho que me consome, esta agenda cheia, não são a moldura definitiva da minha vida. Nem por isso são desprezíveis; o próprio Paulo manda trabalhar com as próprias mãos (v. 11). Mas deixam de ser tudo.
Hoje: escreva num papel o nome de alguém que morreu na fé e diga em voz alta, olhando para esse nome, a última frase do versículo: "e assim estaremos sempre com o Senhor."
O Perfil
Os tessalonicenses eram cristãos de poucos meses, saídos do politeísmo, num porto movimentado onde a religião oficial celebrava o imperador como salvador. Alguns dos seus irmãos já tinham morrido, e isso abalou-os: teriam perdido o lugar na vinda do Senhor? Nas lápides da região liam-se fórmulas de resignação, despedidas sem futuro. Paulo escreve-lhes numa cultura em que o luto era ruidoso, encenado, e profundamente sem horizonte, "como tambem os demais, que não teem esperança" (v. 13). Quando ouviram "juntamente com elles", não ouviram uma curiosidade sobre o fim dos tempos. Ouviram que os nomes dos seus mortos continuavam na lista. Para gente que enterrava sem esperança, isto era escandalosamente concreto.
O Detalhe
A palavra traduzida por "encontrar" é, no grego, apántēsis, e não é um termo religioso. Era o que uma cidade fazia quando um rei ou general se aproximava: os cidadãos saíam pelas portas, iam ao seu encontro fora dos muros e acompanhavam-no na entrada. Não se juntavam a ele para fugir da cidade; recebiam-no para o introduzir nela. Isso muda a imagem que muitos de nós temos deste versículo. O movimento para cima não é uma evacuação, é uma receção. Somos a comitiva, não os refugiados. E o texto não diz para onde vai a comitiva depois, o que é precisamente o silêncio que devemos respeitar. Sabemos com quem vamos. Sobre o destino, o versículo apenas insiste: com o Senhor, e sempre.
Contexto
Estamos por volta do ano 50, poucos meses depois de Paulo ter sido expulso de Tessalônica. A comunidade nasceu depressa e ficou sozinha depressa. Timóteo voltou com notícias, e é a essas notícias que Paulo responde: pressões de fora, dúvidas de dentro, e o desconcerto causado pelas primeiras mortes. Tessalônica era capital de província, cidade com orgulho cívico e lealdade a Roma bem visível; falar de outro Senhor que "descerá do céu" com trombeta e cortejo era usar a linguagem das visitas imperiais e aplicá-la a um crucificado. Politicamente arriscado, pastoralmente decisivo. E o objetivo de Paulo não é satisfazer curiosidade sobre o futuro, mas o que ele diz no versículo seguinte: "consolae-vos uns aos outros com estas palavras."
Reflexão
Onde é que eu peço a Deus explicações quando ele me está a oferecer presença, e o que mudaria se aceitasse a troca?
Se este versículo é para ser dito de uns aos outros, quem é a pessoa que precisa de o ouvir da minha boca esta semana, e o que me tem impedido de o dizer?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Os tessalonicenses temiam que seus mortos ficassem para trás, perdendo a festa. Paulo responde: "de modo algum precederemos os que dormem". Ninguém chega atrasado. Aquele túmulo que você visita não é o fim da fila. Deus não esqueceu o nome que você chora. Ele guarda cada um para o mesmo dia.
Obrigado, Senhor, pelo trabalho das minhas mãos, que me sustenta e me ensina a "de nada" ter "necessidade". Grato porque cuidas do meu pão de cada dia e me dás a graça de andar "com decoro para com os de fora", com honestidade que fala de Ti sem palavras.
Obrigado, Senhor, pelo valor da vida simples, por eu poder "viver tranquilamente, cuidar do que é meu e trabalhar com as próprias mãos". Obrigado pelo trabalho de cada dia, pelo pão que vem dele e pela paz de não precisar aparecer para ter valor diante de Ti.
No tocante ao amor fraternal, não há necessidade de que eu vos escreva, porque vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros." Paulo tinha tanto a corrigir naquela igreja, mas aqui ele baixa a caneta. O amor deles não nasceu de um sermão, nasceu de Deus por dentro. E você, o que já aprendeu com Ele que ainda não pratica?
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