2 Reis 6
O Texto
Um machado emprestado escorrega do cabo e afunda no Jordão; Eliseu joga um pau na água e o ferro flutua. Em seguida o profeta trai, repetidamente, os planos secretos do rei da Síria, é cercado em Dotã por um exército, e vê o monte cheio de cavalos e carros de fogo; cega os soldados, conduz-os a Samaria e manda que lhes sirvam um banquete. No fim do capítulo, porém, Samaria está sitiada, há fome, duas mulheres cozinham um filho, e o rei de Israel jura arrancar a cabeça de Eliseu.
O Cerne
O capítulo organiza-se em torno de olhos que se abrem e se fecham. O moço vê apenas cavalos e carros sírios; Eliseu vê o monte cheio de fogo. Os sírios veem o caminho errado; depois acordam no meio de Samaria. O rei de Israel, por fim, vê corretamente a desgraça mas lê-a mal: "Eis que este mal vem do Senhor, que mais pois esperaria do Senhor?" O que Deus faz aqui não é resolver problemas, é mudar a percepção. A realidade decisiva não é a que se mede com os sentidos, e essa realidade não é consoladora por ser invisível; é consoladora por ser Deus. Mas notem: o mesmo Deus que enche o monte de fogo deixa Samaria passar fome.
O Fio Condutor
Eliseu recupera o que está perdido e afundado, intercede para que olhos se abram, cega inimigos sem os matar e depois os alimenta à mesa. É difícil não ouvir nisso o timbre de Jesus: o que veio buscar o perdido, abrir olhos, mandar guardar a espada e sentar inimigos à mesa. O padrão não é alegoria forçada, é a lógica persistente do Deus de Israel, que vence sem exterminar. E o fim do capítulo mantém o fio honesto: a vitória em Dotã não impede o cerco em Samaria. Também no Evangelho a glória vista no monte não cancela a fome, o cerco, a cruz. A libertação é real e ainda não é final.
O Espelho
Repare no grito do discípulo: "Ai, meu senhor! porque era emprestado." Não é poesia, é vergonha de dívida. Ele perdeu algo que não era seu e não tem como repor. Quem já quebrou a ferramenta de um colega, gastou dinheiro que pertencia à família, ou falhou numa responsabilidade confiada por outro, conhece aquele frio no estômago. E o profeta não faz sermão sobre descuido; pergunta apenas onde caiu. Deus se interessa pelo lugar exato da sua queda, não pela sua justificação. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta a Deus o lugar exato onde algo lhe caiu das mãos: o nome da pessoa, o valor, a data. Sem explicar, sem se defender. Apenas aponte o lugar.
O Detalhe
"Não os ferirás." Essa ordem é mais estranha do que parece. Eliseu havia acabado de entregar um exército inteiro, indefeso, dentro da capital inimiga. O rei quase baba de entusiasmo: "Feril-os-hei, feril-os-hei, meu pae?" E o profeta responde com um argumento jurídico, não sentimental: você não mata prisioneiros tomados pela sua espada, então muito menos estes, que não foram tomados pela sua espada. A misericórdia aqui não nasce de ternura, nasce de reconhecer a quem pertence a vitória. E funciona: "não entraram mais tropas de syros na terra d'Israel." Um banquete fez o que campanhas militares não tinham feito.
O Intertexto
Três ecos iluminam o capítulo. Primeiro, o pedaço de madeira lançado na água lembra Moisés em Mara, onde um pedaço de pau torna doce a água amarga; o Deus de Israel age por meios ridiculamente pequenos. Segundo, a cegueira que cai sobre os sírios repete, quase literalmente, a cegueira dos homens de Sodoma à porta de Ló, com uma diferença decisiva: em Gênesis a cegueira precede a destruição, aqui precede um jantar. Terceiro, e mais perturbador, as mulheres que comem o próprio filho não são uma invenção do narrador. Deuteronômio 28 prevê exatamente isso como maldição da aliança quebrada, durante o cerco. O capítulo coloca lado a lado o fogo invisível e a maldição cumprida, e não nos deixa escolher só uma.
A Pergunta
Por que o profeta que vê carros de fogo não impede a fome? A resposta devocional fácil seria dizer que Deus tinha um propósito maior. O texto não diz isso. Diz que o rei, vestido de cilício por baixo da roupa, portanto não indiferente a Deus, conclui que esperar do Senhor é inútil. É a conclusão errada, mas não é irracional. Eliseu tampouco nega a origem do mal; ele apenas continua sentado em casa com os anciãos, esperando. Aqui o texto nos deixa suspensos até o capítulo seguinte. Talvez seja isso que a fé muitas vezes é: não ver o fogo, saber que ele esteve lá uma vez, e permanecer sentado mais uma noite.
Reflexão
Onde, concretamente, você está vendo apenas os cavalos e carros do inimigo, e o que mudaria se o monte estivesse cheio?
Quem é o inimigo que você preferiria ferir a sentar à mesa, e o que o impede de pôr diante dele pão e água?
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Então, se turbou o coração do rei da Síria por causa disto", e ele começou a procurar traidor entre os seus. Nunca lhe passou pela cabeça que o problema não estava na mesa dele, mas no céu. Quantas vezes você também desconfia das pessoas ao redor quando, na verdade, é Deus quem está desmanchando seus planos em silêncio?
Repare no que ela reclama. Não do horror de cozinhar um filho, mas de a outra ter escondido o dela: "Dá cá o teu filho, para que hoje o comamos, e amanhã comeremos o meu filho." A fome cegou de tal modo que o pecado virou contrato, e o crime virou questão de justiça. Que fome tem calado a tua consciência hoje?
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