Deuteronômio 25
O Texto
Um punhado de leis que, à primeira vista, nada têm a ver umas com as outras: o número máximo de açoites num tribunal, a proibição de amordaçar o boi que pisa o grão, o dever do cunhado de dar um filho à viúva do irmão, a mulher que agarra o adversário do marido pelas partes, os pesos falsos na bolsa do comerciante, e a ordem de apagar a memória de Amaleque. Seis parágrafos soltos, como se alguém tivesse esvaziado uma gaveta de jurisprudência sobre a mesa. E no entanto há um fio que os costura.
O Núcleo
O fio é a medida. Quarenta açoites, não mais. O boi come enquanto trabalha. A viúva sem filho não fica sem nome nem sem pão. O peso na bolsa é o mesmo para o rico e para o pobre. O que Deus regula aqui não é a moralidade em abstrato, mas o ponto exato onde o forte pode esmagar o fraco sem que ninguém perceba: a sala do tribunal, a eira, a porta da cidade, o mercado. E note a razão dada para limitar o castigo: "para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos". O culpado continua irmão. A justiça que humilha já deixou de ser justiça. Por isso os pesos desiguais recebem a palavra "abominação", o mesmo termo reservado à idolatria: fraudar a balança é negar o Deus que mede tudo com fidelidade.
O Fio Condutor
A lei do cunhado parece uma curiosidade jurídica até você abrir o livro de Rute. Ali está uma viúva estrangeira, um parente mais próximo que recusa a obrigação, e Boaz, que a assume. Rute 4 encena exatamente este capítulo, sandália incluída, e o narrador acrescenta a genealogia: desse casamento nasce Obede, depois Jessé, depois Davi. A lei que existia para que "o seu nome se não apague em Israel" acaba abrindo caminho para o nome que não se apagará nunca. E aí está o padrão: um redentor que toma sobre si uma obrigação que não é vantajosa para ele, que gasta o próprio patrimônio para que outro tenha futuro e para que uma mulher sem esperança tenha casa. Cristo não cumpre esta lei por analogia forçada; ele é o resgatador que ela ensaiava.
O Espelho
Este capítulo mede a sua bolsa. Não a sua opinião sobre justiça, a sua bolsa: os dois pesos que você carrega sem se dar conta. O rigor com que cobra do colega e a indulgência com que se avalia. A hora extra que você exige e a que não paga. O relatório em que o número ficou redondo demais. E mede também a sua língua depois de ganhar uma discussão: você sabe parar nos quarenta, ou continua até o outro ficar envilecido aos seus olhos, até já não parecer irmão? A justiça que Deus quer tem um teto, e o teto é a dignidade da pessoa que você venceu.
Hoje, antes de dormir: escolha uma pessoa com quem você venceu uma discussão recentemente e diga-lhe, por mensagem ou pessoalmente, uma frase reconhecendo algo em que ela tinha razão. Uma frase. Sem "mas".
O Detalhe
"Não atarás a bocca ao boi, quando trilhar." Meio versículo sobre gado, encaixado entre tribunais e casamentos. Paulo o cita duas vezes, e uma delas com uma pergunta quase atrevida: acaso Deus se preocupa com bois? O apóstolo lê a lei e conclui que quem trabalha no evangelho tem direito de viver dele. Isso não anula o boi. O ponto é que a lógica é a mesma em toda a escala da criação: quem produz não é separado do fruto do seu trabalho. O animal que gira sobre a eira, cheirando o grão, com a boca livre, é a imagem mais simples de uma economia em que o trabalho não é extração. Se Deus não consente em amordaçar um boi, imagine o que pensa de um salário atrasado.
A Pergunta
E a mão cortada? "Então cortar-lhe-has a mão: não a poupará o teu olho." Um capítulo inteiro sobre não humilhar o culpado, e no meio dele uma mutilação por um gesto feito em desespero, para salvar o próprio marido. É o único caso de pena corporal permanente em toda a lei de Moisés, e ninguém consegue amaciá-lo de todo. Podemos entender o contexto: a fertilidade era a sobrevivência do clã, e o versículo anterior fala precisamente de perpetuar nomes. Podemos notar que não há registro de aplicação. Mas fica a aspereza, e é honesto deixá-la ficar. A Escritura não nos entrega um Deus domesticado. Às vezes ela nos entrega um texto que não fecha, e a fé consiste em continuar lendo sem fingir que fechou.
Contexto
Estamos na planície de Moabe, nas últimas semanas da vida de Moisés, com a geração que não viu o Egito mas ouviu falar dele a vida inteira. Israel está à beira de deixar de ser um acampamento e tornar-se uma sociedade com tribunais, mercados e heranças. Daí a mistura: são as leis de uma vida sedentária que ainda não começou. A "porta dos anciãos" é o fórum, o lugar público onde a viúva tem voz e pode expor o cunhado; descalçar a sandália e cuspir é o veredicto da vergonha pública numa cultura em que a honra valia mais que dinheiro. E Amaleque, que atacou os exaustos na retaguarda, permanece como o nome do inimigo que não teme a Deus. Séculos depois, no livro de Ester, o inimigo dos judeus ainda será chamado agagita.
Reflexão
Onde, concretamente, você carrega dois pesos: um para julgar os outros e outro para se justificar?
Quem está na sua retaguarda, cansado e afadigado, e depende de que você não siga em frente sem olhar para trás?
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Perguntas frequentes sobre Deuteronomy 25
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