Eclesiastes 4
O Texto
O Pregador vira-se e olha para o que normalmente evitamos olhar: as lágrimas dos oprimidos, e o fato brutal de que a força está do lado de quem oprime. Dali ele passa ao motor secreto de quase todo o nosso esforço, a inveja do próximo, e ao homem rico que trabalha sem fim sem jamais perguntar para quem. O capítulo fecha com dois quadros: a solidão que não tem quem a levante, e o rei velho que já não aceita conselho, substituído por um jovem pobre que também será esquecido.
O Cerne
Note o que o texto repete duas vezes, como quem bate na mesma tecla porque ninguém ouviu: "não tinham consolador". Eclesiastes não diz que Deus não existe; diz que, debaixo do sol, o consolo não aparece onde deveria aparecer. Essa é a honestidade teológica mais difícil da Bíblia. O Pregador não fabrica um final feliz para o oprimido, não explica a opressão, não a justifica como pedagogia divina. Ele registra. E ao registrar, afirma algo enorme: Deus não precisa que mintamos sobre o mundo para continuar sendo Deus. A fé que só se sustenta se fecharmos os olhos para as lágrimas não é fé bíblica. É anestesia.
O Fio Condutor
Aquele vazio deixado em aberto, "não teem consolador", percorre toda a Escritura como uma ferida que espera cura. É a mesma palavra que ressoa quando Jesus promete aos discípulos outro Consolador, o Espírito que viria ficar. Não se trata de um truque de ligação entre versículos: trata-se de Deus respondendo precisamente à lacuna que Eclesiastes teve a coragem de nomear. E note onde o Consolador aparece, não sobre os poderosos, mas sobre um grupo pequeno, assustado, sem força nenhuma do seu lado. O Pregador olhou e disse: a força está com os opressores. O evangelho não nega isso. Apenas acrescenta que o Consolador escolheu o outro lado da sala.
O Espelho
Leia de novo o versículo 4: "todo o trabalho, e toda a destreza em obras, attrahe ao homem a inveja do seu proximo". Não é só que os outros invejem você. É que a sua própria excelência nasce, mais vezes do que você admite, da comparação. Por que você aceitou aquele cargo. Por que a casa precisa estar daquele jeito quando chegam visitas. Por que o currículo dos seus filhos importa tanto. Há um versículo adiante que deveria doer: "nem diz: Para quem trabalho eu, e privo a minha alma do bem?". O homem do versículo 8 não é um vilão. É alguém que nunca parou tempo suficiente para fazer essa pergunta, e quando parou já não havia ninguém esperando em casa. O punho fechado em dobro, cheio de conquista e aflição, contra a mão aberta com descanso.
Hoje, antes de dormir: escreva num papel o nome da pessoa que mais sofreu com o seu excesso de trabalho nos últimos dois anos, e mande uma mensagem a ela dizendo apenas que você percebeu. Sem justificativa, sem promessa.
O Protagonista
Quem fala aqui é um homem que teve tudo e por isso perdeu o direito de ser ingênuo. O Pregador é alguém que chegou ao topo e descobriu que o topo tem vista para cemitérios. Daí a frase mais escandalosa do capítulo: ele louva os mortos mais do que os vivos, e os que nunca nasceram mais do que ambos. Não é depressão poética; é o veredito de quem contou os custos. E, no entanto, repare: ele continua olhando. "Depois me virei, e attentei". "Outra vez me tornei a virar, e vi." Ele podia ter desviado o rosto, como fazemos ao passar pelo sinal onde está a criança pedindo. Escolheu olhar. Há uma espécie de coragem espiritual em quem não se protege da realidade.
O Detalhe
"O cordão de tres dobras não se quebra tão depressa." Repare no cuidado dessa frase. Ele não diz que não se quebra. Diz que não se quebra tão depressa. O Pregador não está vendendo amizade como solução para a vaidade; ele está sendo exato. Três fios trançados resistem mais do que três fios soltos, e isso é tudo o que ele promete. Casamentos se desfazem, amizades esfriam, irmãos brigam na partilha. Mas, enquanto o cordão segura, segura. É assim que a sabedoria bíblica funciona, não como garantia, mas como prudência diante de um mundo que não oferece garantias. Quem exige mais do que isso da sua rede de afetos acaba destruindo-a com o peso da exigência.
A Pergunta
Então o Pregador está dizendo que seria melhor nunca ter nascido? Ele diz, e não podemos suavizar. O versículo 3 está no cânon, protegido pelo mesmo Espírito que inspirou os Salmos de louvor. A Escritura abriga esse tipo de frase porque abriga esse tipo de gente, e talvez você seja um deles numa determinada noite. O texto não a corrige nem a retrata. O que o livro inteiro acaba fazendo é outra coisa: devolver ao leitor as pequenas bondades concretas, o pão, o trabalho, o companheiro que levanta quem cai, não como resposta ao argumento, mas como teimosia de quem continua vivendo sem ter vencido a discussão. Isso não é alívio barato. É o único alívio que este capítulo permite.
Reflexão
Se eu respondesse honestamente à pergunta "para quem trabalho eu", que nome apareceria, e esse nome sabe disso?
Em que momento desta semana desviei o olhar de uma lágrima que o Pregador teria encarado?
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Perguntas frequentes sobre Ecclesiastes 4
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Obrigado, Senhor, pelos amigos que ficam quando a luta aperta, pelas mãos que me seguram de pé e pela tua presença que entrelaça tudo. O cordão de três dobras não se quebra tão depressa, e eu sinto isso cada vez que não estou sozinho.
Repare que ele diz duas vezes a mesma coisa: "não tinham consolador". Não é descuido, é o peso que não sai da garganta. O Pregador viu as lágrimas, contou a força do opressor e voltou ao mesmo vazio. E você, que hoje enxergou a dor de alguém, vai apenas observar ou vai ser o consolador que faltava?
Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que já não se deixa admoestar." Repare no que arruína o rei: não foi perder o trono, foi parar de ouvir. Anos de experiência podem virar surdez. Quem foi a última pessoa que te corrigiu, e o que você fez com aquilo?
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