Êxodo 20:1
O Texto
Uma única linha, antes de tudo o que virá: "Então fallou Deus todas estas palavras, dizendo". Nenhum trovão ainda descrito, nenhum mandamento ainda pronunciado. Apenas a constatação de que Deus abriu a boca e falou, e que aquilo que se segue não é resumo, nem versão editada, nem interpretação de Moisés. São todas as palavras, ditas por Deus mesmo, a um povo inteiro reunido ao pé de uma montanha. O narrador não descreve o timbre da voz nem o efeito imediato; isso vem depois, no versículo dezoito. Aqui ele só quer que saibamos de quem é a voz.
O Coração
Repare no que este versículo faz com a lei: ela deixa de ser um sistema e passa a ser uma fala. Alguém diz alguma coisa a alguém. Antes de qualquer proibição existe um sujeito que fala e um povo que ouve, e é essa relação que sustenta tudo o que vem depois. Por isso o primeiro conteúdo não é uma exigência, mas uma apresentação: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egypto". A obediência nasce de uma história já acontecida, não de uma ameaça futura. Deus não impõe condições para libertar; ele liberta e depois diz quem é. Quem inverte essa ordem transforma o evangelho em contrato.
O Fio Condutor
A palavra hebraica aqui é davar, que significa ao mesmo tempo palavra e acontecimento. As dez palavras do Sinai são dez acontecimentos de Deus na história de Israel. E toda a Escritura caminha na direção de um momento em que Deus não fala mais apenas palavras, mas fala uma Palavra que tem rosto, mãos e voz humana. Hebreus abre exatamente com esse contraste: Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras, e por último falou no Filho. João diz que essa Palavra se fez carne e habitou entre nós. O Sinai não é substituído; é levado ao seu destino. O Deus que fala do meio do fogo é o mesmo que fala sentado à beira de um poço em Samaria.
O Espelho
Existe uma forma cansada de religião que quer os mandamentos sem o Deus que os pronuncia: regras confiáveis, previsíveis, administráveis. É mais fácil cumprir uma lista do que conviver com alguém. Você pode organizar sua semana, seu dinheiro e sua sexualidade segundo padrões cristãos e mesmo assim nunca ter ouvido ninguém falar com você. E existe o oposto, igualmente cansado: querer o Deus que fala sem nada do que ele diz, uma presença morna que nunca contraria seus planos de carreira ou seus ressentimentos familiares. Este versículo fecha as duas saídas. O que você tem diante de si é uma pessoa que fala, e falar é sempre um ato de aproximação e de risco.
O Detalhe
"Todas estas palavras." O hebraico não diz mandamentos; diz palavras, e a tradição judaica sempre chamou este texto de as Dez Palavras, não os Dez Mandamentos. A diferença não é cosmética. Mandamento sugere um item destacável, que se pode cumprir isoladamente e riscar da lista. Palavra sugere discurso contínuo, um todo em que cada frase depende das outras. Por isso "todas": não se escolhe entre elas, não se negocia uma pela outra. E o pequeno "dizendo" no fim do versículo é o gesto de quem se volta para o rosto do interlocutor. Deus não promulga; Deus se dirige. A gramática já contém a graça.
Contexto
Três meses depois de saírem do Egito, num deserto de pedra, diante de uma montanha que fumega. O povo é uma multidão de ex-escravos que até pouco tempo antes não tinha direito à própria voz. No mundo deles, leis eram dadas por reis a súditos por intermédio de funcionários; ninguém jamais ouvia o soberano diretamente. Havia códigos legais na Mesopotâmia, alguns antigos e sofisticados, mas todos publicados em nome do rei. Aqui não há intermediário no momento da fala. Deus dirige-se ao povo inteiro, homens, mulheres, servos, estrangeiros dentro das portas. Para gente que fora propriedade de outro homem, ser interpelada diretamente pelo Deus do universo era, por si só, uma declaração de dignidade.
A Pergunta
Se Deus falou todas estas palavras com tanta clareza, por que o povo, poucos versículos depois, implora: "Falla tu comnosco, e ouviremos: e não falle Deus comnosco, para que não morramos"? A voz que liberta é a mesma que apavora. O texto não resolve isso com uma explicação psicológica. Moisés apenas diz que Deus veio para prová-los, e então sobe sozinho para a escuridão onde Deus estava. Fica-nos o desconforto: a proximidade de Deus não é automaticamente confortável, e nossa vontade de ouvi-lo é menor do que dizemos nas orações. O Novo Testamento não anula esse temor, apenas dá a ele um lugar: alguém entrou na escuridão em nosso lugar e voltou de lá com o rosto descoberto.
Reflexão
Quando você lê os mandamentos, ouve uma lista de exigências ou a voz de alguém que já o tirou de alguma casa de servidão? O que muda concretamente na sua semana se for a segunda coisa?
Em que parte da sua vida você preferiria que Deus falasse por intermédio de outro, e não diretamente com você?
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Perguntas frequentes sobre Exodus 20:1
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