Êxodo 31
O Texto
Deus chama Bezaleel pelo nome, da tribo de Judá, e o enche do seu Espírito com "sabedoria, e de entendimento, e de sciencia, em todo o artificio" para trabalhar ouro, prata, cobre, pedra e madeira. A ele se junta Aoliabe, e a todos os que são "sabio de coração" Deus concede habilidade para construir o tabernáculo com todos os seus utensílios, as vestes sacerdotais, o óleo e o incenso. Em seguida, o Senhor interrompe as instruções de construção com uma ordem severa sobre o sábado, e o capítulo termina com as duas tábuas de pedra, "escriptas pelo dedo de Deus".
O Cerne
A primeira pessoa na Bíblia de quem se diz que Deus a encheu do seu Espírito não é um profeta nem um rei, mas um artesão. Isso deveria demolir a hierarquia silenciosa que a maioria de nós carrega, aquela que coloca o trabalho "espiritual" no topo e o trabalho com as mãos algures abaixo. Deus não só aprova o talento de Bezaleel, ele o produz. A competência técnica, o olho para a proporção, a paciência de engastar uma pedra sem a partir: tudo isso é descrito aqui como dom do Espírito. E note-se o alvo: essa habilidade não é para autoexpressão. É "para que façam tudo o que te tenho ordenado". O dom é real, e é mandatado. Liberdade criativa dentro de uma planta que não é sua.
O Fio Condutor
Bezaleel é de Judá, a tribo de onde virá Davi e, por fim, o Messias. Aoliabe é de Dã, uma das tribos menores, filho de uma escrava. Já aqui, na construção do lugar onde Deus habita, trabalham lado a lado o filho da tribo real e o filho da tribo periférica. O padrão atravessa toda a Escritura: Deus constrói a sua morada com material humano misturado, capacitado pelo Espírito, não recrutado por prestígio. E o próprio tabernáculo aponta para diante, para aquele que armou a sua tenda entre nós e cujo corpo se tornou o templo verdadeiro. Bezaleel constrói uma sombra com ouro e madeira de acácia; Cristo é a coisa em si.
O Espelho
Aqui está a parte incómoda. Deus dá os dons e, no versículo seguinte, manda parar. Seis dias de trabalho, depois basta. E não é uma sugestão: "aquelle que o profanar certamente morrerá". O texto liga deliberadamente o chamado ao trabalho e a proibição de o idolatrar. Os construtores do tabernáculo estavam a fazer a obra mais sagrada imaginável, e nem essa obra justificava trabalhar ao sétimo dia. Pense no seu calendário. No e-mail que responde às onze da noite porque "é uma exceção". No voluntariado na igreja que come o domingo inteiro. A pergunta que este capítulo faz é simples e desagradável: consegue parar? Se não consegue, o problema não é a agenda, é a convicção secreta de que o mundo desmorona sem si.
O Intertexto
O versículo 17 fundamenta o sábado na criação: "em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, e ao setimo dia descançou, e restaurou-se". Descansar não é recuperar de exaustão; é imitar Deus. Mas Deuteronómio 5 dá outra razão para o mesmo mandamento: vocês foram escravos no Egito. As duas razões juntas explicam a dureza da sanção. Quem não para, vive como se ainda estivesse debaixo de um faraó. E quando Jesus declara que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado, não anula esta lei; devolve-lhe o sentido, contra os que a tinham transformado em mais uma forma de trabalho forçado.
A Personagem Principal
Deus é quem fala do princípio ao fim; Moisés apenas ouve. E o que impressiona é a especificidade. Ele chama "por nome": Bezaleel, filho de Uri, filho de Ur. Não "arranjem alguém competente". Este Deus conhece o currículo de um artesão e a linhagem da sua família. Depois, o mesmo Deus que distribui talentos coloca um limite absoluto sobre o seu uso. Não é um patrão que quer extrair o máximo; é um Pai que sabe que o dom pode devorar quem o recebeu. E o capítulo termina com o dedo de Deus a escrever em pedra, uma imagem quase física de proximidade. Ele não delega a lei a um escriba. Escreve ele mesmo.
Contexto
Estamos no Sinai, no fim das sete falas que compõem as instruções do tabernáculo, meses depois do Egito. Um povo de escravos recém-libertos, cuja experiência de trabalho era tijolos sem palha e capatazes com chicote, recebe agora duas coisas ao mesmo tempo: uma vocação criativa e um dia em que ninguém, nem o mais dotado, tem de produzir. No mundo antigo, o descanso semanal universal era inaudito; os templos eram construídos por corveia. Aqui, o santuário do Deus vivo será erguido por homens que param um dia em cada sete. E logo a seguir, no capítulo 32, esse mesmo povo funde ouro num bezerro. O contraste não é acidental: o mesmo material, a mesma habilidade, um alvo diferente.
Onde é que o seu trabalho, mesmo o trabalho bom e útil, se tornou a prova de que você é necessário?
Se Deus deu a Bezaleel a habilidade das suas mãos, que talento seu tem sido tratado como propriedade privada em vez de encargo recebido?
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Perguntas frequentes sobre Exodus 31
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