1 Coríntios 6:19
O Texto
Paulo não afirma, pergunta: "Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espirito Sancto, que habita em vós, o qual tendes de Deus, e que não sois de vós mesmos?" Três coisas cabem nessa única frase: o corpo é santuário, o Espírito é dom recebido, e a pessoa não se pertence. É a sexta vez neste capítulo que ele começa com "não sabeis". Como quem cutuca alguém que dormiu com os olhos abertos.
O Cerne
Repare que Paulo não diz que o corpo tem um templo dentro, nem que a alma é o templo e o corpo apenas seu invólucro. O corpo é o templo. A palavra grega aqui é naos, que não designa o complexo do templo com seus pátios e comércio, mas o santuário interior, o lugar onde a glória descia. Isto é escandaloso. O Deus que Salomão confessou não caber nos céus dos céus escolheu habitar em carne mortal, em corpos que suam, adoecem e envelhecem. E a conclusão que Paulo tira não é "cuide-se", mas "não sois de vós mesmos". A presença de Deus muda a titularidade. Onde Deus habita, ninguém mais é senhor.
O Fio Condutor
Há uma linha longa aqui, e vale segui-la devagar. Deus habitou numa tenda no deserto, depois num templo de pedra, depois em Jesus, que disse do próprio corpo que era o templo a ser destruído e reerguido em três dias. E agora, diz Paulo, em vocês. A cada passo o santuário se torna mais frágil e mais vivo: de pedra a carne, de um lugar a muitos. Não é uma metáfora piedosa, é o desdobramento de um movimento que atravessa toda a Escritura, o desejo persistente de Deus de morar entre os seus. O versículo anterior fala em fugir; este explica de onde se foge e para onde. Fugimos porque há Alguém dentro.
O Espelho
"Não sois de vós mesmos." Leia isso de novo pensando na sua semana. No corpo que você trata como máquina, exigindo desempenho às três da manhã. No corpo que você despreza diante do espelho porque envelheceu ou nunca teve a forma certa. No corpo que você usa como moeda, para agradar, para conseguir, para preencher. Corinto tinha a lógica do consumo: o corpo é meu, faço dele o que quiser, "todas as coisas me são licitas". Nós temos a mesma lógica com vocabulário atualizado. E Paulo responde não com uma proibição, mas com uma constatação desconcertante: já não é seu. Alguém mora aí. Fica a pergunta silenciosa: o que muda na maneira como você entra no chuveiro, come, dorme, toca outra pessoa, se isto for verdade e não apenas correto?
A Pergunta
Se o Espírito habita neste corpo, por que ele continua tão frágil, tão sujeito à doença e ao pecado? Templos, afinal, deviam ser lugares limpos. Paulo escreve isso a pessoas que ele acabou de listar como adúlteros, ladrões, bêbados, gente que "haveis sido lavados", mas que ainda se processava mutuamente por dinheiro. O templo, portanto, não é o corpo perfeito. É o corpo habitado. Isso não resolve o desconforto, e talvez não deva. Há algo aqui que não se explica: por que Deus escolhe morar em ruínas em obras? O texto não responde. Deixa apenas a afirmação nua, e a promessa do versículo 14 de que este mesmo corpo será ressuscitado. O santuário ainda não está pronto. Deus mudou-se antes da reforma terminar.
O Perfil
Corinto era uma cidade portuária, refundada por Roma, cheia de libertos e gente nova em busca de ascensão. O templo de Afrodite dominava a paisagem, e a prostituição cultual era parte da vida normal, não um vício marginal. Quando um coríntio ouvia "templo", pensava em edifício de mármore, sacerdotes, sacrifícios, um lugar aonde se vai. Ouvir que o templo era o próprio corpo, aquele corpo de escravo, de trabalhador do porto, de mulher sem status, devia soar entre absurdo e libertador. Não precisavam subir ao Acrocorinto para encontrar a divindade. E ao mesmo tempo não podiam mais separar religião de comportamento: não havia como deixar o corpo do lado de fora do santuário.
O Personagem Principal
O protagonista deste versículo não é Paulo nem o coríntio: é o Espírito Santo, e o verbo que Paulo lhe dá é habitar. Não visitar, não inspecionar, não pairar. Habitar é o verbo de quem desfaz as malas. O Espírito não aparece aqui como poder ou como emoção, mas como hóspede permanente que veio de fora, "o qual tendes de Deus", dom e não conquista. E é essa presença silenciosa, que raramente se anuncia, que fundamenta tudo o que Paulo pede. Deus não governa nosso corpo à distância, por decreto. Ele governa por proximidade, morando dentro. É uma forma estranha de autoridade: a mais íntima e, por isso, a mais difícil de ignorar.
Reflexão
Se você acordasse amanhã plenamente convencido de que Deus habita no seu corpo, o que faria de diferente antes do meio-dia?
Onde, na sua vida, você ainda age como proprietário daquilo que Paulo diz não lhe pertencer?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Os coríntios diziam: se comer é indiferente, o corpo também é. Paulo corta o argumento pela raiz: "o corpo não é para a impureza, e sim para o Senhor, e o Senhor, para o corpo". Repare na mão dupla. Teu corpo pertence a Ele, mas Ele também se entrega a ti. O que fazes com esse corpo não é assunto pequeno para Deus.
Ora, Deus não somente ressuscitou o Senhor, mas também nos ressuscitará a nós pelo seu poder." Paulo diz isso no meio de uma conversa sobre o corpo. Esse corpo que você às vezes despreza, ou usa de qualquer jeito, Deus pretende ressuscitar. Ele não vai jogar fora o que planeja levantar. O que você tem feito com aquilo que Deus considera tão valioso?
Mas vós mesmos é que fazeis a injustiça e roubais, e isto a irmãos." Paulo não está falando de estranhos. O prejuízo tinha nome, rosto e assento na mesma igreja. Dói admitir, mas às vezes o irmão que mais me feriu foi o irmão que eu feri primeiro. Com quem você tem uma conta aberta hoje?
Não sabeis que havemos de julgar os anjos?" Paulo não escreve isso para inflar ninguém. Ele escreve a irmãos que se arrastavam ao tribunal por causa de dinheiro e orgulho ferido. Você foi chamado para algo tão grande, e está gastando suas forças nisso? Talvez a ferida não seja o maior problema. Talvez seja o esquecimento de quem você já é.
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