Gênesis 12:4
O Texto
Deus falou, e Abrão foi. É isso. Depois de três versículos de promessa imensa, de nações e bênçãos e famílias da terra inteira, o texto registra a resposta humana em meia linha: "Assim partiu Abrão, como o Senhor lhe tinha dito, e foi Lot com elle." Nenhuma pergunta, nenhuma objeção, nenhuma oração registrada. Apenas um homem de setenta e cinco anos que desmonta a vida em Harã e caminha para um endereço que ainda não recebeu.
O Cerne
O silêncio de Abrão é o coração deste versículo. Não sabemos o que ele sentiu. O narrador, que em outros lugares nos conta que Deus se arrependeu, que Caim ficou irado, que Noé se embriagou, aqui recusa qualquer acesso ao interior do homem. Só temos o verbo: partiu. E temos a medida desse verbo: "como o Senhor lhe tinha dito". A fé, nesta primeira aparição bíblica em forma madura, não é descrita como emoção nem como certeza intelectual. É descrita como correspondência entre uma palavra dita e um corpo que se move. Deus fala; alguém se levanta. O restante permanece escondido, e talvez o texto queira que permaneça, para que não confundamos fé com sentimento de fé.
O Fio Condutor
Toda a história da salvação depende deste passo. A promessa de que "em ti serão bemditas todas as familias da terra" só começa a operar quando o pé de Abrão deixa Harã. Deus poderia ter agido sem ninguém; escolheu agir através de alguém que se põe a caminho. E há aqui um padrão que atravessa a Escritura inteira até chegar a Cristo: o Filho que também sai da casa do Pai, sem garantias visíveis, obedecendo a uma palavra. A diferença é que Abrão sai para receber uma terra, e Jesus sai para perdê-la, para não ter onde reclinar a cabeça. A bênção prometida a Abrão chega ao mundo por um descendente que não recebeu terra alguma, apenas um madeiro.
O Espelho
Setenta e cinco anos. A idade em que já se sabe onde ficam as coisas, quem são os vizinhos, quanto rende o rebanho. Se você tem quarenta, cinquenta, sessenta, conhece a força dessa gravidade: a hipoteca, a escola das crianças, o cargo que custou anos, a rede de amigos que não se refaz. O chamado de Deus raramente chega quando não temos nada a perder. Chega quando temos. E a pergunta que este versículo faz não é se você sente vontade de obedecer, mas se existe alguma palavra de Deus que já lhe foi dita e que você ainda não começou a cumprir. Não a palavra dramática de um chamado missionário. A palavra pequena e concreta que você conhece bem e adia com competência.
Contexto
Harã não era um vilarejo perdido. Era um entroncamento comercial no norte da Mesopotâmia, centro do culto à lua, próspero, seguro. E era, sobretudo, o lugar onde o clã tinha parado. O pai de Abrão, Terá, havia saído de Ur com destino a Canaã e não chegou: instalou-se em Harã e ali morreu. O chamado de Deus retoma, portanto, uma viagem interrompida por uma geração inteira. Deixar a terra, a parentela e a casa do pai significava, naquele mundo, abrir mão de proteção jurídica, de herança, de identidade. Fora do clã, um homem não era ninguém. Abrão troca a única segurança que existia por uma voz.
O Detalhe
"E foi Lot com elle." Quatro palavras que o leitor apressado atropela. Deus mandou deixar a parentela; Abrão leva o sobrinho. Não é dito que foi erro, e o texto não julga. Mas Ló será o motivo da primeira separação dolorosa, da escolha pelas planícies de Sodoma, de uma guerra e de um resgate. A obediência de Abrão é real e é incompleta ao mesmo tempo, e a Escritura não se apressa a resolver essa tensão. Talvez porque nenhuma obediência nossa saia limpa de casa. Levamos conosco afetos, lealdades, bagagens que não foram pedidas e que também não conseguimos abandonar. Deus trabalha com esse tipo de gente. É a única de que dispõe.
O Intertexto
O autor de Hebreus, ao descrever este momento, acrescenta o que Gênesis omite: Abrão saiu sem saber para onde ia. É uma leitura fiel do silêncio do texto. A promessa dizia "a terra que eu te mostrarei", futuro, ainda não revelado. E vale colocar ao lado disto o versículo seguinte, onde Abrão parte "para irem á terra de Canaan; e vieram á terra de Canaan": a chegada é narrada com a mesma economia da partida, como se todo o percurso, os meses de caravana, o cansaço, as dúvidas noturnas, coubessem numa vírgula. O que Deus diz e o que Deus cumpre estão separados por um espaço em branco que o texto não preenche. Nós vivemos ali.
Reflexão
Existe alguma palavra de Deus que você já reconheceu como verdadeira e que, como Terá em Harã, deixou parada no meio do caminho?
O que é o seu "Ló": aquilo que você levou consigo na obediência, sem saber ainda se é bagagem legítima ou peso que Deus não pediu?
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