Jó 34
O Texto
Eliú convoca um tribunal informal: "Ouvi, vós, sabios, as minhas razões." Ele propõe um critério que parece sensato, quase gentil: "Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar gosta a comida." Vamos provar o que Jó disse, diz ele, como quem prova um prato antes de servi-lo. Então cita Jó: "Sou justo; e Deus tirou o meu direito", e constrói, verso após verso, a defesa da imparcialidade divina: Deus paga a cada um segundo o seu caminho, não faz acepção de pessoas, vê todos os passos, quebranta os fortes sem precisar de inquérito. Termina com um veredito seco e um desejo desconfortável: que Jó seja provado até o fim.
O Cerne
A pergunta mais vertiginosa do capítulo está no verso 13: "Quem lhe pedia conta do governo da terra? e quem dispoz a todo o mundo?" Eliú está dizendo algo que a maioria de nós nunca pensou até o fim. Deus não administra um cargo que alguém lhe confiou. Não existe instância acima dele à qual ele deva prestar contas, nem constituição que o obrigue a ser justo. E logo em seguida vem a imagem que tira o chão: se Deus recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego, "Toda a carne juntamente expiraria, e o homem se voltaria para o pó." Nossa existência é algo emprestado, momento a momento. Eliú usa isso como argumento de autoridade. Mas o texto deixa a questão aberta: um Deus que não deve nada a ninguém é temível ou é a única esperança que resta?
O Fio Condutor
Jó havia dito algo que Eliú não consegue digerir: "dolorosa é a minha frecháda sem transgressão." Uma ferida sem culpa. Para Eliú isso é impensável, porque destruiria a aritmética inteira: "segundo a obra do homem, elle lh'o paga." E aqui o livro de Jó abre uma porta que só se fecha muito depois. A profecia de Isaías sobre o servo ferido por transgressões que não eram suas retoma exatamente esse impossível; e no Calvário o impossível acontece em pleno dia, com testemunhas. A "frecháda sem transgressão" deixa de ser uma anomalia escandalosa e se torna o centro da salvação. Eliú defende Deus negando que isso possa existir. Deus responderá entrando nisso ele mesmo.
O Espelho
O mais perturbador em Eliú não é o erro, é a semelhança. Ele diz coisas verdadeiras sobre Deus e as usa como arma contra um homem que perdeu dez filhos. Já fizemos isso: no velório, na mensagem bem-intencionada, na reunião do grupo pequeno onde alguém abre uma ferida e nós respondemos com doutrina correta no tempo errado. Também existe em nós o apetite de Eliú por plateia, aquele "Os homens de entendimento dirão comigo". Queremos estar certos diante de observadores. E há o outro lado: talvez você seja o Jó da história, com uma conta que não fecha, um diagnóstico, uma demissão, um filho que não volta, e gente ao redor explicando o que você já tentou calcular mil vezes. Repare na única oração do capítulo, posta ironicamente na boca do penitente: "O que não vejo, ensina-m'o tu." Hoje, diga essa frase em voz alta, sozinho, e depois fique dois minutos em silêncio sem acrescentar nada.
O Perfil
Os primeiros ouvintes conheciam esse tipo de discurso. Era linguagem de tribunal, de portão de cidade, onde anciãos pesavam causas e a palavra "direito" decidia vidas. Eles também viviam dentro da convicção de que a bênção segue a obediência e a ruína segue o pecado, uma teologia que a própria Torá parecia confirmar. Por isso o verso 19 soava consolador e perigoso ao mesmo tempo: Deus "não faz accepção das pessoas de principes, nem estima o rico mais do que o pobre". Para camponeses esmagados por credores, isso era o evangelho antes do evangelho. E o verso 28, o clamor do pobre subindo até ele, era precisamente a promessa pela qual oravam. O choque, para eles, é que esse discurso impecável está na boca do homem errado, dirigido ao homem errado.
O Personagem Principal
Eliú é jovem, eloquente e inseguro, e as três coisas aparecem juntas. Ele precisa chamar os sábios a cada poucos versos, precisa que alguém confirme: "o varão sabio me ouvirá". Fala de Deus com reverência genuína, "Deus esteja longe da impiedade", e há beleza nisso. Mas o verso 36 revela o que o zelo sem compaixão produz: "Pae meu! provado seja Job até ao fim." Ele pede mais sofrimento para um homem arrasado, para que o argumento se complete. É assustador porque é familiar. O zelo pela honra de Deus pode endurecer o coração contra a pessoa de carne ao lado. Eliú ama a verdade sobre Deus mais do que ama o homem diante de si, e por isso fala muito e não alcança nada.
O Intertexto
A acusação do verso 9, "De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus", não é invenção: é quase exatamente o que Asafe confessa no Salmo 73, quando vê os ímpios prosperarem e conclui que purificou o coração em vão. A diferença é que Asafe leva a suspeita para dentro do santuário em vez de usá-la contra outro. E há o contraste final: depois que Deus fala do redemoinho, ele declara em Jó 42 que Jó falou dele o que era reto, e não os amigos. Eliú disse: "Job fallou sem sciencia." Deus dirá o oposto. O homem que gritou honestamente foi ouvido; os que defenderam Deus com argumentos ficaram sem resposta.
Reflexão
Quando alguém próximo sofre, o que em mim quer explicar antes de escutar, e de quem é a honra que estou realmente defendendo?
Se eu dissesse a Deus hoje "o que não vejo, ensina-me tu", que área da minha vida eu teria mais medo de ver iluminada?
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Perguntas frequentes sobre Job 34
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Na verdade, Deus não procede maliciosamente, nem o Todo-Poderoso perverte o juízo." Eliú diz isso a um homem sentado nas cinzas, que perdeu tudo. A frase é verdadeira, mas repara em quem a ouve. Há verdades que só cabem num sussurro. Quando você repetir essa palavra a alguém que sofre, pergunte primeiro se está ali para consolar ou para vencer a discussão.
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