Lamentações 4
O Texto
Um lamento sobre o ouro que perdeu o brilho: as pedras do santuário jazem espalhadas nas esquinas, e os filhos de Sião, antes avaliados a puro ouro, valem agora tanto quanto um vaso de barro. Segue-se a descrição crua do cerco, com crianças pedindo pão, nobres abraçando o esterco e mães cozendo os próprios filhos, tudo atribuído não ao acaso militar mas ao furor do Senhor, que "accendeu fogo em Sião". O capítulo fecha voltando-se para Edom com um sarcasmo amargo: alegra-te enquanto podes, porque o copo também chegará a ti.
O Núcleo
A pergunta que este capítulo responde é: quem fez isso? A resposta, no versículo 11, é escandalosa e libertadora ao mesmo tempo: "Deu o Senhor cumprimento ao seu furor". Não foram os deuses da Babilônia vencendo o Deus de Israel. Não foi Deus distraído ou impotente. Foi Deus cumprindo palavra dada séculos antes, na aliança: se abandonarem, colherão isto. A ira aqui não é temperamento divino, é fidelidade contratual. E é exatamente por isso que resta esperança. Um Deus que apenas se irritasse seria imprevisível; um Deus que julga segundo a aliança que ele mesmo jurou pode também ser cobrado por suas promessas. A teologia deste capítulo é sombria, mas não é caótica. Há juízo porque há aliança, e onde há aliança há futuro.
O Fio Condutor
O versículo 20 é o ponto mais dolorido e mais profético: "O respiro dos nossos narizes, o ungido do Senhor, foi preso nas suas covas". O ungido é o rei davídico, provavelmente Zedequias, capturado como um animal em armadilha. Aquele sob cuja sombra o povo esperava viver entre as nações está numa cova. A promessa a Davi parece morta com ele. E então vem o copo (v. 21), o mesmo copo da ira que os profetas passam de nação em nação. O Novo Testamento coloca esse copo nas mãos de um Ungido no Getsêmani, que pede que passe dele e o bebe (Marcos 14:36). A ligação não é alegoria forçada: é o mesmo vocabulário da aliança. O Ungido preso torna-se, mais tarde, o Ungido que se entrega, e o copo que Sião esvaziou até o fundo ele bebe em nome dela.
O Espelho
Note o que o capítulo escolhe medir: pedras do santuário nas ruas, nazireus antes mais brancos que o leite agora com a pele colada aos ossos, gente criada em carmesim abraçando o esterco. Este capítulo é uma auditoria do que achávamos estável. A carreira, a casa quitada, a saúde do corpo que sempre respondeu, a reputação construída em vinte anos de trabalho sério: tudo isso é ouro que pode escurecer. Não digo isso para produzir ansiedade, mas porque o texto insiste que a queda de Jerusalém foi inacreditável até para os reis da terra (v. 12). Nós também vivemos com uma confiança tácita de que certas coisas não desabam. A pergunta não é se elas podem desabar, mas o que sobra de você quando desabam.
O Protagonista
O protagonista deste capítulo é Deus, e ele aparece de um modo que preferiríamos não ver: "A face do Senhor os apartou, nunca mais tornará a olhar para elles". A bênção sacerdotal pedia que o Senhor fizesse resplandecer o rosto sobre o povo; aqui o rosto se vira. E ainda assim, veja o que ele guarda para o fim: "Já se cumpriu a tua maldade, ó filha de Sião, nunca mais te levará em captiveiro". Há um termo. O castigo tem medida, tem data de vencimento. O Deus deste capítulo é santo o suficiente para queimar os fundamentos de sua própria casa e fiel o suficiente para não fazer isso indefinidamente. Sua santidade e sua graça não são dois humores alternados, são o mesmo compromisso visto de dois ângulos.
Contexto
Estamos em 587 a.C., ou pouco depois, entre as ruínas de Jerusalém após o cerco babilônico. O cerco durou perto de dois anos, e os versículos 4 a 10 não são exageros retóricos: descrevem o que a fome prolongada faz a uma cidade murada. O canibalismo materno era precisamente uma das maldições anunciadas em Deuteônomio 28 caso a aliança fosse rompida, o que significa que o poeta não está apenas horrorizado, está reconhecendo o cumprimento de uma sentença. A crítica aos profetas e sacerdotes (v. 13) é politicamente perigosa: aponta para a elite religiosa que garantia ao rei que tudo ficaria bem. Eles agora vagam pelas ruas como leprosos, contaminados de sangue, e a multidão grita "Desviae-vos, é immundo".
O Perfil
Os primeiros a ouvir isso foram sobreviventes, gente que enterrou filhos e viu vizinhos comerem o impensável. Para eles, este poema não era informação nova, era linguagem para o que não tinha linguagem. E aqui está o que nos escapa: dizer em voz alta que foi o Senhor quem fez isso era, para eles, melhor do que a alternativa. Se Deus estava agindo, Deus continuava presente. O contraste com Edom, o vizinho que se alegrou com a queda, tinha peso concreto: Edom parecia ter escapado. O consolo oferecido não é que Sião sofreu pouco, mas que sofreu até o fim, e que a conta está encerrada. Para quem perdeu tudo, "nunca mais te levará em captiveiro" era mais do que poesia. Era chão.
Reflexão
O que no seu ouro pessoal, aquilo que você trata como inegociável, escureceria se Deus o retirasse, e o que isso revela sobre onde sua confiança realmente mora?
Onde você tem preferido explicar o sofrimento como acaso porque a ideia de um Deus envolvido nele é mais difícil de suportar do que a de um Deus ausente?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Os mortos à espada foram mais felizes do que os mortos de fome; pois estes se esgotaram lentamente por falta do fruto do campo." Há dores que matam rápido e dores que apenas consomem, dia após dia. O profeta não disfarça isso com palavras bonitas. Se o seu sofrimento é do tipo lento, Deus deixou este verso aqui para você saber que ele vê o que se arrasta.
Pai, é duro olhar para o peso do que fizemos e reconhecer que não temos desculpa. Não quero fingir que está tudo bem quando não está. Tem misericórdia de nós, e ensina o meu coração a voltar para Ti antes que a ruína se instale.
Os seus nobres eram mais alvos do que a neve, mais brancos do que o leite." O poeta está descrevendo rostos que já não existem. A fome os apagou. Jerusalém não chora só muros caídos, chora a beleza de gente amada virando sombra. Talvez você guarde na memória alguém assim, antes da doença, antes do golpe. Deus não esquece quem a dor desfigurou.
Cambaleavam como cegos nas ruas, contaminados de sangue." Eram os profetas e os sacerdotes, justamente os que deviam mostrar o caminho. Agora tateiam pelas ruas, e ninguém quer nem roçar sua roupa. Pergunta difícil: o que faço com o sangue que minhas escolhas derramaram na vida de alguém?
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