Marcos 14
O Texto
Faltam dois dias para a Páscoa e os líderes procuram um jeito discreto de matar Jesus. Entre esse plano e sua execução, Marcos coloca uma sequência de cenas que se comentam mutuamente: uma mulher quebra um frasco caríssimo sobre a cabeça de Jesus, Judas negocia o preço da entrega, Jesus reparte pão e cálice e fala de um sangue derramado, ora no Getsêmani até o suor da angústia, é preso, julgado, cuspido, e Pedro, aquecendo-se ao fogo, jura três vezes que não conhece "esse homem de quem fallaes". O capítulo termina não com um gesto heroico, mas com um homem chorando no escuro.
O Cerne
O centro teológico deste capítulo está numa única frase dita de bruços no chão: "affasta de mim este calix; porém não o que eu quero, mas o que tu queres". Aqui desaparece qualquer ideia de um Salvador estoico que atravessa a paixão sem sentir. Marcos usa palavras ásperas: Jesus "começou a ter pavor, e a angustiar-se". Ele não quer o cálice. E ainda assim o toma. A salvação, portanto, não nasce de uma insensibilidade divina diante do sofrimento, mas de uma obediência que custa tudo, custa a vontade própria, custa o horror consciente. Deus não nos salva de longe, com um decreto. Salva-nos por dentro, através de uma vontade humana que se dobra à do Pai quando cada fibra pede o contrário.
O Fio Condutor
"Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que por muitos é derramado." Quem estava naquela mesa conhecia a expressão. No Sinai, Moisés aspergiu sangue sobre o povo e chamou aquilo de sangue da aliança: o vínculo entre Deus e Israel foi selado com morte. Jesus pega essa fórmula antiga e a aplica a si mesmo, no meio de uma refeição pascal que celebrava a libertação do Egito. Ou seja: o novo êxodo não passa pelo sangue de um cordeiro no umbral, mas pelo dele. E aquele "por muitos" ecoa o servo sofredor de Isaías 53, que carrega o pecado de muitos. Duas linhas do Antigo Testamento, aliança e servo, convergem num copo passado de mão em mão.
O Espelho
Repare em quem você é nesta narrativa. Provavelmente não é Judas. Mas talvez seja aquele que calcula: trezentos denários, quase um ano de salário, derramados de uma vez. Você também já achou exagerada a generosidade dos outros, e chamou sua mesquinhez de responsabilidade. Talvez você seja Pedro, que diz "nunca, porém, eu" com sinceridade absoluta, e três horas depois falha, porque a coragem que sentimos à noite raramente sobrevive à manhã. Ou os três no jardim, cujos olhos "estavam carregados": você não traiu ninguém, apenas dormiu enquanto alguém que amava precisava de você acordado. E há o detalhe mais cruel: Pedro seguiu "de longe". Não abandonou. Só manteve distância suficiente para não ser reconhecido. É possível fazer isso por anos.
A Pergunta
Jesus diz duas coisas na mesma respiração: "o Filho do homem vae, como d'elle está escripto, mas ai d'aquelle homem por quem o Filho do homem é trahido!" Se estava escrito, Judas era necessário. E se era necessário, como pode ser culpado a ponto de ser melhor não ter nascido? Marcos não resolve isso, e devemos resistir à tentação de resolver por ele. O texto afirma as duas coisas ao mesmo tempo: o propósito de Deus não fracassa, e a traição de Judas foi inteiramente sua. Nenhum decreto forçou aquele beijo. O que fica não é um sistema, é um alerta: ninguém jamais poderá dizer que apenas cumpriu um roteiro. Você responde pelo que faz, mesmo dentro dos planos de Deus.
O Detalhe
Nos versículos 51 e 52 aparece uma figura que nenhum outro evangelho menciona: "um certo mancebo o seguia, envolto em um lençol sobre o corpo nú", agarrado pelos soldados, que escapa deixando o pano nas mãos deles e foge nu. Por que Marcos inclui isso? Porque é o retrato exato do que acabou de acontecer: "Então, deixando-o, todos fugiram." O discipulado se desfaz até a nudez. Não sobra dignidade nenhuma. E o mesmo evangelho terminará com outro jovem, sentado no túmulo vazio, vestido de branco. Marcos não explica a ligação, mas a imagem fala: quem foge nu da cruz é revestido na ressurreição. A vergonha não é a última palavra sobre você.
O Perfil
Os primeiros leitores de Marcos, provavelmente cristãos em Roma sob pressão, sabiam exatamente o que significa uma criada apontar o dedo e perguntar se você é "um dos taes". Muitos deles tinham negado. Alguns tinham dado nomes. Para uma comunidade assim, ouvir que o apóstolo mais respeitado da igreja começou "a imprecar, e a jurar" que nunca conhecera Jesus não era escândalo, era oxigênio. E ouvir que, antes de qualquer negação, Jesus já havia dito "depois que eu houver resuscitado, irei adiante de vós para a Galilea", a promessa de reencontro dada aos que ainda iriam falhar, mudava tudo. Eles não ouviam este capítulo como história antiga. Ouviam como a sua própria história, com um final que ainda não tinham ousado esperar.
Reflexão
Em que área da sua vida você tem seguido a Cristo "de longe", perto o bastante para não abandonar, distante o bastante para não ser reconhecido?
Onde você chamou de prudência aquilo que, diante de Jesus, era simplesmente recusa de dar?
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Perguntas frequentes sobre Mark 14
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai." Jesus não escondeu a dor dos amigos. Ele disse em voz alta o que sentia e pediu companhia. Não pediu conselho, nem solução, só presença. E você, a quem tem dito a verdade do seu coração? Ou tem carregado tudo sozinho, calado?
Mas, nem assim o testemunho deles era coerente." Juntaram testemunhas, ensaiaram acusações, e a mentira ainda assim não se sustentava. Jesus permanece calado enquanto a falsidade tropeça sozinha. Quando inventarem coisas sobre você e não houver como provar nada, lembre-se: a verdade sabe esperar.
Obrigado, Jesus, porque teu sangue foi "derramado em favor de muitos", e nesse muitos cabe o meu nome. Gratidão por uma aliança que não depende do meu desempenho, mas do teu sacrifício, selada na cruz e lembrada em cada pedaço de pão que recebo.
Os discípulos calcularam o valor do perfume. Jesus percebeu o valor do momento: "a mim, porém, nem sempre me tendes." Havia tempo de sobra para ajudar os pobres, mas só aquela noite para ungir um corpo que seria sepultado. Existem gestos que só cabem hoje. Quem você ainda pode amar antes que a ocasião passe?
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