Lucas 22:14
O Texto
Chegou a hora. Não uma hora qualquer do calendário, mas aquela hora, a que vinha se aproximando desde que os sacerdotes começaram a procurar um jeito de matá-lo e Judas foi negociar o preço. E o que Jesus faz quando a hora chega? Ele se reclina à mesa. "E, chegada a hora, poz-se á mesa, e com elle os doze apostolos." Uma frase curta, quase administrativa, como se Lucas estivesse apenas anotando o horário do jantar. Mas embaixo dela há um andar inteiro de tensão: o cenáculo mobiliado, o cordeiro já sacrificado, o cheiro de pão sem fermento, doze homens ocupando seus lugares, e um deles com dinheiro combinado e um beijo guardado para depois.
O Cerne
Repare no verbo. Jesus não é levado à mesa, não é surpreendido por ela, não tropeça na hora. Ele se põe. A hora chega e ele se senta dentro dela, deliberadamente, como quem entra num rio sabendo a temperatura da água. Em Lucas, "a hora" já carrega peso: poucos versos adiante Jesus dirá aos que vieram prendê-lo que "esta é a vossa hora e o poder das trevas". As trevas terão a sua hora, sim, mas primeiro o Filho tem a dele, e a dele é uma mesa. Aqui está o coração da coisa: a entrega de Cristo não começa no jardim nem na cruz, começa num gesto de hospitalidade. Antes de ser vítima, ele é anfitrião. Antes de dar o corpo, ele reparte o pão. E entre os doze reclinados ali está a mão do traidor, servida com a mesma paciência que serve os outros. A graça, neste versículo, ainda não é doutrina; é lugar posto à mesa para quem já vendeu você.
O Fio Condutor
Aquela mesa não era uma invenção daquela noite. Fazia mil e quinhentos anos que Israel se sentava assim, em famílias, com o cordeiro assado e os pães asmos, contando a história de uma casa marcada com sangue e de uma noite em que a morte passou por cima. Toda Páscoa era um ensaio, e ninguém sabia disso. Lucas registra que "importava sacrificar a paschoa": alguém já havia levado um cordeiro ao templo naquela tarde, e o sangue já havia escorrido no altar enquanto Jesus caminhava para o cenáculo. Ele se reclina à mesa da libertação antiga na véspera de realizar a definitiva. E aponta adiante também, para outra mesa, quando diz que não comerá mais a Páscoa "até que ella se cumpra no reino de Deus". Estamos entre duas ceias, sustentados pela do meio.
O Espelho
Você conhece a tentação de administrar a hora difícil em vez de entrar nela. A conversa com o filho adolescente que você adia mais uma semana. O resultado do exame guardado na gaveta. A reunião em que sabem que vão te cortar do projeto e você ensaia frases no chuveiro. Nossa reação instintiva diante da hora que se aproxima é acelerar ou fugir, nunca sentar. Jesus senta. E senta com Judas na mesa, o que talvez seja a parte mais indigesta: ele não expulsa antes de comer, não separa a mesa dos limpos da mesa dos sujos. Se você espera ter o coração arrumado para se aproximar da Ceia, leia de novo quem estava reclinado ali. Hoje, escreva num papel o nome da hora que você está evitando e a data em que vai encará-la; deixe o papel onde você o verá amanhã de manhã.
O Personagem Principal
O que impressiona em Jesus neste versículo é a ausência de pressa e a ausência de espetáculo. Ele organizou tudo com antecedência quase cirúrgica, o homem com o cântaro, a sala mobiliada, Pedro e João enviados adiante, e então, feita a preparação, simplesmente se reclina. É o gesto de alguém em casa. No versículo seguinte ele abre o coração: "Desejei muito comer comvosco esta paschoa, antes que padeça." Desejo, não resignação. Ele queria aquela noite. Sabendo do beijo, sabendo da negação de Pedro, sabendo do suor como gotas de sangue que viria em poucas horas, ele desejou estar ali com aqueles doze homens confusos e ambiciosos. O Deus que se revela nessa cena não suporta a nossa companhia; ele a deseja, e a deseja justamente na véspera do sofrimento.
Contexto
Jerusalém na semana da Páscoa era uma cidade inchada, talvez com centenas de milhares de peregrinos, sob vigilância romana redobrada porque festa de libertação nacional é terreno fértil para revolta. As autoridades queriam Jesus morto, mas "temiam o povo", ou seja, precisavam de discrição, e Judas lhes vendeu exatamente isso: uma oportunidade "sem alvoroço". A ceia acontece num cenáculo emprestado, num andar superior, com portas fechadas. Reclinar-se à mesa é postura de banquete, de homens livres; escravos comiam em pé. Doze homens deitados sobre o lado esquerdo em torno de uma mesa baixa, próximos o bastante para partilhar o mesmo prato, próximos o bastante para que a mão do traidor esteja visivelmente ali, como Jesus dirá poucos minutos depois.
A Pergunta
Se Jesus sabia, por que deixou Judas sentar? Lucas não ameniza: Satanás entrou nele, o dinheiro foi combinado, e ainda assim há um lugar posto. A resposta fácil seria dizer que era necessário para o plano, e o próprio texto flerta com isso ao afirmar que "o Filho do homem vae segundo o que está determinado". Mas na mesma frase vem o "ai d'aquelle homem", e o peso não é aliviado. O texto sustenta as duas coisas sem as reconciliar para nós: a traição estava dentro do propósito de Deus e continuava sendo traição de um homem responsável por ela. Não sei costurar isso. Sei que o convite foi real, que a mesa estava posta também para Judas, e que ele comeu antes de sair para a noite.
Reflexão
Qual é a "hora" que você está gerenciando de longe, sem entrar nela, e o que mudaria se você se sentasse dentro dela como Jesus se sentou?
Quem está na sua mesa que você preferiria ver expulso antes do jantar, e o que a paciência de Jesus com Judas exige de você em relação a essa pessoa?
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Perguntas frequentes sobre Luke 22:14
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Chegou o dia dos pães asmos, em que importava imolar a Páscoa." Veja o detalhe: o dia chegou. Ninguém o adiou. Enquanto os discípulos pensavam em mesa, cordeiro e ervas, o verdadeiro Cordeiro já caminhava para o altar. Talvez hoje você esteja num dia que não escolheu. Ele também esteve.
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