Mateus 26:38
O Texto
Jesus atravessa o vale do Cedrom com os onze e para num olival. Deixa a maioria à entrada, leva consigo Pedro, Tiago e João, e então algo se rompe nele. Diz-lhes: "A minha alma está cheia de tristeza até á morte; ficae aqui, e velae comigo." Não é uma explicação teológica nem uma advertência. É um homem pedindo companhia porque a dor chegou ao limite do suportável.
O Cerne
Repare no que Jesus não faz. Não se retira em silêncio digno, não esconde o que sente, não representa serenidade para não abalar a fé dos discípulos. Ele diz em voz alta que sua alma está esmagada. O verbo grego que Mateus usa antes, no versículo 37, descreve um peso que sufoca, uma angústia física. E ele pede: fiquem aqui, velem comigo. O Filho de Deus pedindo que três pescadores cansados não durmam. Aqui a encarnação deixa de ser doutrina e vira carne trêmula. Se você já pensou que Deus não sabe o que é ter medo do que vem pela manhã, este versículo desfaz essa ideia sem cerimônia. Ele soube. E soube sozinho.
O Fio Condutor
Adão foi posto num jardim e falhou; Jesus entra num jardim e obedece. Mas a ligação mais funda está no cálice do versículo seguinte. Ao longo dos profetas, o cálice é imagem do juízo de Deus derramado sobre o pecado, uma taça que embriaga e derruba. Jesus não teme apenas a cruz romana, dolorosa como era. Ele vê o que está dentro do copo. Poucas horas antes, à mesa, dissera sobre outro cálice: "isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos peccados." O Getsêmani é o momento em que aquele símbolo pesa na mão. Ele bebe o que nós merecíamos beber, e treme antes de beber.
O Espelho
Existe uma piedade não escrita que diz: cristão firme não desmorona. Você já a sentiu quando entrou na igreja depois de uma semana em que o casamento rachou, o exame veio ruim, o filho parou de falar com você, e mesmo assim respondeu "graças a Deus, tudo bem". Este versículo desmonta essa fachada com uma frase. Jesus não pecou ao dizer que sua alma estava cheia de tristeza até à morte. E ele fez algo que talvez lhe custe mais que a tristeza: pediu ajuda. Chamou três pessoas pelo nome e disse que precisava delas acordadas. Pense em quem você deixaria entrar a essa distância. Se a resposta for ninguém, o problema não é sua força; é o seu medo de ser visto.
Contexto
É noite de Páscoa, provavelmente lua cheia, e Jerusalém está lotada de peregrinos. Grupos dormiam ao ar livre nas encostas do monte das Oliveiras porque a cidade não comportava todos. O Getsêmani, cujo nome significa prensa de azeite, era um olival com lagar, lugar onde a azeitona era esmagada até render. Jesus acabara de cantar o hino final da ceia com homens que juravam morrer com ele, e sabia que dali a horas todos fugiriam. Os três que ele escolhe são os mesmos que viram sua glória no monte da transfiguração; agora veem o avesso. As autoridades já negociaram trinta moedas de prata. A engrenagem está em movimento, e ele sabe.
A Pergunta
Por que ele pede que fiquem acordados, se sabe que vão dormir? Ele já anunciara: "Todos vós esta noite vos escandalizareis em mim." O pedido parece condenado antes de ser feito. Uma resposta fácil seria dizer que era só um teste pedagógico. Não convence. Há algo mais desconcertante aqui: Jesus quis companhia humana e não a recebeu, e mesmo assim pediu. O amor pede mesmo quando prevê a decepção. E a solidão dele não foi um acidente do roteiro; era parte do cálice. Ele precisou beber sem ninguém segurando sua mão, para que nós nunca precisemos beber sozinhos. Isso não torna a cena menos dura. Torna-a mais cara.
O Intertexto
Nos Salmos 42 e 43 o poeta pergunta três vezes à própria alma por que ela está abatida e perturbada dentro dele, e três vezes se ordena a esperar em Deus. Jesus, no Getsêmani, ora três vezes com as mesmas palavras. Ele não está inventando uma linguagem nova para a dor; está orando com a linguagem que Israel já lhe dera, provando que a lamentação é oração legítima. E a carta aos Hebreus, no capítulo 5, lembra que Jesus ofereceu orações com forte clamor e lágrimas, e foi ouvido. Ouvido, note bem, não poupado. Deus respondeu ao Filho não removendo o cálice, mas dando-lhe força para bebê-lo até o fim.
Reflexão
A quem você já disse, com todas as letras, que sua alma está pesada demais? E se não disse a ninguém, o que exatamente teme que aconteça se disser?
Onde, na sua vida agora, você está pedindo que o cálice passe? Consegue orar a segunda metade da frase de Jesus sem que ela soe como resignação amarga?
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