Marcos 13
O Texto
Um discípulo sai do templo e faz o que qualquer galileu faria: aponta para as pedras. "Mestre, olha que pedras, e que edificios!" Jesus responde que nenhuma delas ficará em pé. Sentado no monte das Oliveiras, de frente para aquele conjunto de mármore e ouro, ele descreve aos quatro discípulos mais próximos o que virá: falsos messias, guerras, tribunais, traições dentro da própria família, uma fuga desesperada da Judeia, o sol escurecido, o Filho do homem vindo nas nuvens. E termina não com uma data, mas com uma ordem repetida: vigiai.
O Perfil
Imagine o cheiro. Sangue de cordeiro escorrendo pelos canais de drenagem, fumaça de gordura queimada, incenso, o barulho de milhares de peregrinos e cambistas. O templo de Herodes ainda estava em obras; blocos de calcário branco de dezenas de toneladas, a fachada revestida de ouro que, ao amanhecer, cegava quem olhasse do monte das Oliveiras. Aquele edifício era banco central, tribunal supremo, símbolo nacional e endereço de Deus, tudo numa coisa só. Dizer que nem uma pedra ficaria sobre outra não era comentário arquitetônico. Era anunciar que Deus estava de mudança, que a instituição que garantia a identidade de um povo inteiro sob ocupação romana ia cair. Blasfêmia e traição na mesma frase.
O Cerne
Marcos escreve isto para pessoas que vivem, ou vão viver, dentro do que Jesus descreve. E o que Jesus faz é notável: ele desmonta a curiosidade apocalíptica e a substitui por resistência. Perguntam-lhe "quando", ele responde "olhae que ninguem vos engane". Perguntam pelo calendário, ele fala de fidelidade. O centro teológico do capítulo não é a cronologia do fim, mas a soberania de Deus sobre uma história que parece descontrolada: "assim importa fazer-se; mas ainda não será o fim". O caos não é prova da ausência de Deus. Mas também não é sinal de que falta pouco. É o terreno em que se aprende a perseverar, e o próprio Jesus reconhece o limite do seu conhecimento humano: "d'aquelle dia e hora ninguem sabe… nem o Filho, senão o Pae".
O Fio Condutor
A linguagem de sol escurecido e estrelas caindo não é meteorologia; nos profetas de Israel esse vocabulário anunciava a queda de impérios, o fim de uma ordem mundial. Jesus a usa para dizer que uma era está terminando e outra começando. E no meio dela coloca uma figura: "verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e gloria". Aquele que fala está a poucos dias de ser preso, condenado e executado como um insurgente. O mesmo homem que anuncia a glória do Filho do homem será interrogado num pátio enquanto Pedro nega três vezes, ao cantar do galo, uma das quatro vigílias que ele acabou de nomear. O reino chega por esse caminho, não por outro.
O Intertexto
Daniel 7 está por trás de tudo aqui: alguém "como um filho de homem" recebe do Ancião de Dias domínio e glória que não passam. Jesus não está descrevendo uma fuga do mundo, mas uma entronização. Por isso pode dizer "passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão". E "a abominação do assolamento" vem de Daniel também, memória viva do altar profanado por Antíoco Epifânio menos de dois séculos antes. Quem ouvia entendia: já aconteceu uma vez, pode acontecer de novo. O "quem lê, entenda" é um cutucão de Marcos ao leitor, um sinal de que ali está uma senha, não uma charada.
O Espelho
O texto expõe duas tentações opostas, e você provavelmente conhece as duas. A primeira é o fascínio pelo decifrável: acompanhar notícias de guerra com um certo prazer secreto, encaixar manchetes em profecias, sentir-se por dentro. Jesus corta isso pela raiz. A segunda é o entorpecimento: dormir. Não o sono de quem descansa, mas o de quem deixou a vida se organizar de tal modo que Deus virou detalhe entre boletos, escola das crianças e metas do trimestre. "Para que não venha de improviso, e vos ache dormindo." Repare que a fidelidade prometida não é heroísmo espetacular; é falar quando for preciso falar, é não voltar atrás para buscar o casaco, é continuar quando a hostilidade vem de dentro de casa, do irmão, do pai.
O Protagonista
Jesus, aqui, é surpreendentemente sóbrio. Nenhuma euforia apocalíptica, nenhuma vingança contra o templo que o rejeitou. Ele adverte, e a advertência tem ternura: "ai das gravidas, e das que criarem n'aquelles dias". Ele pensa nas mulheres com bebês no colo tentando correr para os montes, e no frio do inverno judaico. Pensa nos que não aguentariam, e diz que os dias serão abreviados por causa dos escolhidos. Este é o rosto de Deus neste capítulo: alguém que vê o desastre chegando, não o disfarça, não promete isenção, mas encurta o sofrimento e prepara os seus de antemão. "Eis que d'antemão vos tenho dito tudo." O amor dele não retira você da tempestade; ele o avisa antes e o busca depois, dos quatro ventos.
Reflexão
Em que ponto da sua vida você está "dormindo", não por cansaço, mas porque acomodou Deus a um horário conveniente?
Se o fim não vier na sua geração, o que muda hoje na tarefa que o Senhor já lhe entregou, "a cada um a sua obra"?
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Perguntas frequentes sobre Mark 13
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
e, então, enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu."
Repare que ninguém precisa achar o caminho de volta sozinho. Ele vai buscar. Se hoje você se sente longe demais, perdido no canto mais esquecido da sua própria história, saiba: não existe extremidade onde Ele não saiba o seu nome.
Assim também vós, quando virdes acontecerem estas coisas, sabei que está próximo, às portas."
Jesus não disse que está longe, no fim do calendário. Disse: às portas. Perto o bastante para bater.
Você aprendeu a ler os sinais do tempo lá fora, mas já parou para ouvir quem está do outro lado da sua porta, esperando ser recebido hoje?
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