Mateus 3:4
O Texto
Mateus interrompe a pregação para descrever o pregador. Antes de contar quem veio ouvir, ele nos mostra o que João vestia e o que comia: "E este João tinha o seu vestido de pellos de camelo, e um cinto de coiro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Nada de belo, nada de confortável. Um homem coberto de pelo grosseiro, cinturado com couro, sobrevivendo daquilo que o deserto oferece a quem não planta nem colhe.
O Núcleo
Este versículo parece um detalhe de figurino, mas é teologia vestida. João não escolheu esse traje por excentricidade; ele o escolheu porque a mensagem e o mensageiro tinham de dizer a mesma coisa. Quem anuncia "Arrependei-vos" não pode estar bem instalado no sistema que pede arrependimento. O deserto não era palco, era declaração: o povo de Deus precisava voltar ao ponto de partida, ao lugar onde não há nada em que se apoiar exceto Deus. E a roupa de pelos, aspérrima contra a pele, é o oposto exato dos linhos macios do templo e do palácio. Deus escolheu o desconfortável para dizer o urgente. O reino que se aproxima não confirma nossos arranjos; ele os expõe.
O Fio Condutor
O cinto de couro sobre os lombos não é acaso literário. Séculos antes, o rei Acazias mandou descrever o homem que o havia confrontado, e a resposta foi um homem peludo com um cinto de couro na cintura: Elias. Malaquias fechara o Antigo Testamento prometendo que Elias voltaria antes do dia do Senhor. Mateus, então, não descreve João; ele o identifica. A roupa é a credencial. E isso significa que a história não recomeçou do zero com Jesus: ela retoma o fio interrompido, o mesmo Deus que enviava profetas incômodos aos reis agora envia o último deles para apontar não a um trono, mas a um Cordeiro. A austeridade de João aponta para além de si: ele prepara o caminho, não o ocupa.
O Espelho
E aqui o versículo se vira para nós. Você provavelmente não tem problema com o João pregando; tem problema com o João comendo gafanhotos. Porque a nossa vida cristã foi organizada de modo a nunca precisar disso. Temos a fé e também o conforto, a oração da manhã e o aplicativo de entrega à noite, o dízimo e a poupança intacta. Não estou dizendo que você deveria mudar de guarda-roupa. Estou perguntando o que aconteceria se lhe tirassem o guarda-roupa. Quanto do seu sossego espiritual depende de o salário cair no dia certo, de o corpo não doer, de a casa continuar em pé? João nos incomoda porque demonstra que é possível viver com muito menos do que consideramos indispensável, e ainda assim ser o homem mais livre da Judeia. A pergunta não é se somos ascetas. É se somos donos das nossas coisas ou reféns delas.
O Perfil
Para quem leu Mateus primeiro, judeus que conheciam as Escrituras de cor, esse versículo produziu um arrepio de reconhecimento. Eles viviam sob Herodes, cuja corte era famosa pelo luxo, e sob um sacerdócio que negociava com Roma. Ver surgir do deserto um homem vestido como Elias significava uma coisa só: a paciência de Deus com o arranjo atual estava terminando. E havia mais. Israel havia nascido no deserto, alimentado por Deus com o que não plantou. Um profeta comendo gafanhotos e mel silvestre era um sermão sem palavras sobre a época do noivado, quando o povo ainda não tinha nada e por isso confiava. Os primeiros ouvintes não viram um esquisito. Viram um relógio marcando a hora.
A Pergunta
Se a austeridade de João era exigência de Deus, por que Jesus não a imitou? Ele veio comendo e bebendo, foi acusado de comilão, aceitou convites de ricos e deixou uma mulher gastar um perfume caríssimo em seus pés. Não dá para transformar Mateus 3:4 numa regra de vida cristã sem colidir com o próprio Cristo. Talvez a resposta seja esta: João encarna a espera, Jesus encarna a chegada. Quem jejua é quem aguarda o noivo; quem festeja é quem está com ele. Mas isso não nos livra tão facilmente. A liberdade de Jesus diante das coisas era tão radical quanto a renúncia de João, e nenhuma das duas se parece com a nossa dependência ansiosa do conforto. A mesma raiz, frutos diferentes.
O Intertexto
Duas ligações valem o desvio. A primeira é o próprio Mateus, poucos versículos depois, quando João avisa que aquele que vem "é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar". O homem que reduzira a vida ao mínimo também reduziu a si mesmo ao mínimo. Austeridade sem humildade é apenas vaidade invertida. A segunda é Deuteronômio, onde Moisés recorda que Deus manteve o povo quarenta anos no deserto, alimentando-o com maná, para ensinar-lhe que o homem não vive só de pão. O deserto nunca foi punição pura; foi escola. João voltou voluntariamente à sala de aula que Israel havia abandonado.
Reflexão
O que, na sua vida, você chama de "necessário" e que João dispensaria sem hesitar?
Se tudo o que lhe dá segurança material fosse tirado nesta semana, o que sobraria da sua fé, e o que isso lhe diz sobre onde ela está apoiada hoje?
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