Neemias 5:6
O Texto
Neemias ouve. É isso que o versículo registra antes de qualquer outra coisa: um governador que escuta o clamor de gente empobrecida, homens e mulheres que hipotecaram terras, venderam filhos, entregaram filhas para sobreviver a uma fome e a um imposto real. E então vem a reação, curta, quase seca na antiga tradução portuguesa: "muito me enfadei." Não é uma nota administrativa nem um gesto de compaixão morna. É ira. O texto não a explica, não a suaviza, não a justifica. Coloca-a ali, entre o clamor do povo (versículo 1) e a deliberação silenciosa do coração (versículo 7), como uma pausa incandescente. Um homem ouviu, e o que ouviu o queimou por dentro.
O Cerne
Há uma pergunta que este versículo deixa aberta e que vale a pena carregar por um tempo: de onde vem essa ira? A palavra hebraica por trás de "enfadei" (charah) descreve um calor que sobe, o mesmo verbo usado quando a Escritura fala da ira de Deus diante da injustiça. Neemias não se indigna porque sua obra foi atrapalhada, nem porque sua autoridade foi contestada. Ele se indigna porque irmãos estão devorando irmãos dentro do próprio povo da aliança. E aqui o texto toca algo desconfortável: existe uma raiva que não é pecado, mas fidelidade. A indiferença diante da miséria alheia não é maturidade espiritual; é surdez. Deus, ao que parece, não escuta o clamor dos pobres com serenidade distante. Ele o escuta e algo nele se inflama.
O Fio Condutor
O que Neemias ouve não é um problema novo. É o velho eco do Egito: um povo gemendo sob peso que não escolheu, e um Deus que, segundo Êxodo, ouve o clamor e desce. A diferença, aqui, é cruel: desta vez o Egito é interno. São "os judeos, seus irmãos" que oprimem. E o texto avança para uma palavra que carrega toda a história da redenção: "Nós resgatámos os judeos, nossos irmãos, que foram vendidos ás gentes" (versículo 8). Resgate. Comprar de volta alguém que se perdeu para outro dono. Neemias faz em pequena escala o que Deus faz em escala cósmica, e faz porque algo o queimou por dentro. Quando o Filho olha a multidão e se compadece, quando vira as mesas no templo, estamos diante do mesmo calor. A ira de Deus contra a injustiça e a graça de Deus para com os pobres não são duas coisas; são o mesmo amor visto de dois ângulos.
O Espelho
Pergunte-se com honestidade: quando foi a última vez que o sofrimento de alguém realmente o incomodou, a ponto de tirar seu sono? Não a comoção de três segundos diante de uma notícia, mas o tipo de indignação que muda uma agenda, uma planilha, uma decisão. Nós desenvolvemos uma habilidade impressionante de ouvir sem escutar. O colega que menciona de passagem que está atrasado no aluguel. O irmão da igreja que parou de participar dos almoços porque não pode dividir a conta. A funcionária cujo salário você sabe que não fecha o mês. Neemias poderia ter classificado aquilo como tensão social inevitável em tempo de obra. Ele não classificou. Ele queimou. E talvez o que nos falta não seja mais informação sobre a dor do mundo, mas coragem para deixá-la nos atingir. Hoje, escolha uma pessoa cujo aperto financeiro você conhece de longe e envie uma mensagem perguntando, com todas as letras, como estão as contas dela; depois não mude de assunto quando ela responder.
Contexto
Estamos por volta de 445 a.C., em Jerusalém, com o muro em construção e inimigos vigiando do lado de fora. Judá é província persa, e província persa paga tributo: "Tomámos emprestado dinheiro até para o tributo do rei" (versículo 4). Some a isso uma fome, e você tem a receita de um colapso familiar. Quem tinha terra hipotecava; quem já não tinha, vendia os filhos. A escravidão por dívida era legal no mundo antigo e até prevista na Lei, com limites que os nobres de Jerusalém convenientemente esqueciam. Neemias é o governador nomeado por Artaxerxes, um homem com poder real, copeiro de rei, alguém que poderia perfeitamente ter feito parte da classe credora. Aliás, ele admite que fez: "Tambem eu, meus irmãos e meus moços, ao ganho lhes temos dado dinheiro e trigo" (versículo 10). A ira dele, portanto, não vem de fora. Ela o alcança também.
O Intertexto
A Lei de Moisés proibia cobrar juros do irmão israelita e mandava soltar o escravo hebreu no sétimo ano, precisamente para que a pobreza não se tornasse hereditária. O que acontece em Neemias 5 é, portanto, a aliança sendo desfiada por dentro, enquanto o muro sobe por fora. E há um contraste que não sai da cabeça: em Marcos, Jesus olha ao redor com ira, entristecido pela dureza dos corações, antes de curar uma mão atrofiada. Nos dois casos, a raiva antecede a restauração. Ela não é o oposto do amor; é o amor descobrindo um obstáculo. Vale perguntar o que dizemos de Deus quando imaginamos que sua santidade é indiferença bem-educada diante de uma criança vendida.
O Detalhe
Repare na estranha duplicação: "Ouvindo eu pois o seu clamor, e estas palavras". Por que as duas coisas? Clamor é som bruto, grito sem gramática, a dor antes de virar argumento. "Estas palavras" são o relato detalhado dos versículos 2 a 5, com números, hipotecas, nomes de bens. Neemias ouviu o grito e ouviu a contabilidade. Muitos de nós escolhemos um dos dois: ou nos comovemos com o som e nunca examinamos as causas, ou analisamos as causas e nunca deixamos o som nos tocar. O texto nos oferece um homem que fez as duas coisas e só então se calou para pensar: "considerei comigo mesmo no meu coração" (versículo 7). A ira que vale alguma coisa passa primeiro pelo ouvido inteiro e depois pelo silêncio.
Reflexão
Qual clamor você tem ouvido ultimamente sem deixar que "estas palavras", os detalhes concretos da situação, cheguem até você?
Onde, na sua vida, você pode estar do lado dos credores sem nunca ter percebido, simplesmente porque o sistema em que vive torna isso normal?
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Perguntas frequentes sobre Nehemiah 5:6
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O que a comunidade compartilha sobre Nehemiah 5
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, ensina-me a olhar para o peso que os outros carregam antes de pensar no que me é devido. Que a minha mesa seja aberta e a minha mão leve, disposta a abrir mão de direitos quando isso alivia alguém. Que eu sirva sem cobrar.
Repare que Neemias não diz "parem vocês". Ele diz: "Também eu, meus irmãos e meus moços lhes temos emprestado dinheiro e cereais. Abandonemos este ganho." Ele se coloca dentro do problema antes de exigir mudança. É sempre mais fácil apontar o erro alheio do que abrir mão do próprio lucro. Que ganho você ainda não quer soltar?
Obrigado, Senhor, porque me ensinas a andar no teu temor diante dos outros. Que a minha vida não seja motivo de escárnio para os que não te conhecem, mas testemunho da tua justiça. Guarda o meu coração da ganância e das injustiças escondidas.
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