Salmos 62
O Texto
Uma alma cansada declara aquilo que decidiu: esperar em Deus e em mais ninguém, porque só ele é rocha, salvação e defesa. Entre as duas declarações quase idênticas (versículos 1-2 e 5-6) aparecem os conspiradores, que abençoam com a boca e maldizem por dentro, ocupados em derrubar um homem já inclinado como muro rachado. O salmo termina não com um pedido, mas com uma afirmação sobre a natureza de Deus: a ele pertence o poder, e a ele pertence também a misericórdia.
O Coração
O fim do salmo é o seu centro teológico: "que o poder pertence a Deus. A ti tambem, Senhor, pertence a misericordia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra." Poder e misericórdia não são qualidades que se equilibram como pesos numa balança, uma limitando a outra. São a mesma realidade vista de dois ângulos. Um Deus poderoso sem misericórdia seria terror; misericordioso sem poder seria sentimento inútil. E note o que se segue imediatamente à misericórdia: a retribuição segundo as obras. O salmista não sente contradição nenhuma aí. Que Deus julgue com justiça é justamente a boa notícia para quem está sendo triturado por mentirosos. Graça e juízo brotam da mesma raiz: Deus se importa com o que realmente acontece.
O Fio Condutor
Aquela última linha do salmo reaparece no Novo Testamento, na boca de Paulo, quando ele argumenta que Deus julgará cada pessoa conforme aquilo que fez (Romanos 2). Paulo cita este salmo não para negar a graça, mas para estabelecer o chão sobre o qual a graça se torna necessária. Se pesássemos os homens na balança do versículo 9, todos seríamos mais leves que a vaidade. E é aqui que o fio se puxa até Cristo: a rocha que não se abala, o único que suportou ser tratado como "parede encurvada" sem deixar de ser fundamento. O salmista espera por uma salvação que vem de Deus; o evangelho anuncia que essa salvação veio com nome, rosto e cruz.
O Espelho
O versículo 10 é desconfortavelmente atual: "se as vossas riquezas augmentam, não ponhaes n'ellas o coração." Não diz para não ter riquezas. Diz para não colocar o coração nelas, o que é muito mais difícil de detectar. Você percebe onde está seu coração quando o saldo cai, quando o contrato não é renovado, quando o plano de saúde nega o procedimento. E o versículo 4 descreve algo que muitos conhecem do trabalho e às vezes da igreja: pessoas que elogiam na sua frente e trabalham contra você nas reuniões onde você não está. A tentação, nessas horas, é construir defesas próprias, reputação, alianças, dossiês. O salmo insiste numa palavra: sómente. Não Deus mais um plano B.
O Detalhe
A palavra hebraica 'ak, traduzida aqui por "sómente", aparece cinco vezes neste salmo curto, e é o esqueleto de tudo. Mas veja onde ela aparece pela segunda vez do lado errado: "Elles sómente consultam como o hão de derribar da sua excellencia." Existem duas exclusividades em confronto neste texto. Uma alma que se dedica exclusivamente a Deus e um grupo que se dedica exclusivamente à destruição de um homem. Ambos são focados, ambos são obstinados. A diferença não está na intensidade, mas no objeto. Isso desmonta a ideia de que a fé é apenas uma questão de sinceridade ou de força de vontade. Os conspiradores também eram sinceros. O que importa é em quem você se apoia.
O Personagem Principal
O Deus deste salmo é, curiosamente, silencioso. Ele não fala uma única vez ao longo dos dez primeiros versículos. O muro se inclina, a cerca balança, as mentiras circulam, e Deus não interrompe. Só no versículo 11 lemos: "Deus fallou uma vez; duas vezes tenho ouvido isto." Uma vez dita, duas vezes ouvida; a palavra de Deus não precisa de repetição para se sustentar, mas o coração humano precisa ouvi-la de novo, e é por isso que os versículos 1-2 voltam como 5-6. Este é o Deus rocha: não uma presença que fala sem parar, mas uma que sustenta sem se mover. Sua estabilidade não é frieza. É o chão onde a alma pode finalmente derramar-se: "derramae perante elle o vosso coração."
Contexto
O salmo é atribuído a Davi e respira o ar da corte, não do deserto: intrigas, bajulação, pessoas medindo de que lado ficar. Numa sociedade de honra e vergonha, "derribar da sua excellencia" significava destruir a posição pública de alguém, o que equivalia a destruir sua vida. Bênção na boca e maldição nas entranhas era a moeda corrente de quem dependia do favor dos poderosos. Por isso o versículo 9 é tão cortante: divide a sociedade em baixos e elevados, plebeus e nobres, e coloca os dois grupos na mesma balança, onde ambos pesam menos que nada. É uma frase que desmonta toda a estrutura de poder daquele mundo. E do nosso.
Reflexão
Onde, concretamente, o seu "sómente em Deus" tem hoje um plano B silencioso que você preferiria não examinar?
Se poder e misericórdia pertencem ao mesmo Deus, o que muda na maneira como você espera justiça diante de quem lhe fez mal?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 62
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