Romanos 2
O Texto
Depois de descrever, no capítulo anterior, a espiral de idolatria e corrupção do mundo pagão, Paulo se vira de repente para quem estava concordando: você que julga não tem desculpa, porque faz as mesmas coisas. Deus julga sem favoritismo, "primeiramente do judeo e tambem do grego", e recompensa cada um segundo as suas obras, examinando até os segredos do coração. O capítulo termina desmontando a segurança do judeu que se apoia na lei e na circuncisão: o verdadeiro judeu é o interior, e a circuncisão que conta é a do coração.
O Cerne
O ponto teológico é a imparcialidade de Deus: "Porque, para com Deus, não ha accepção de pessoas." A expressão vem do tribunal antigo, onde o juiz literalmente "levantava o rosto" de alguém, reconhecia a família, o status, o benfeitor, e decidia de acordo. Paulo diz que diante desse Juiz não existe carteirinha. Nem etnia, nem pertença religiosa, nem conhecimento correto da vontade de Deus. E há algo ainda mais incômodo: a bondade de Deus não é indulgência. Paulo pergunta se desprezamos "as riquezas da sua benignidade, e paciencia e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento". A paciência divina não é prova de que Deus não se importa; é espaço concedido para mudar de rumo. Quem confunde as duas coisas está, nas palavras dele, entesourando ira.
O Fio Condutor
Este capítulo parece não falar de Cristo, mas ele aparece no meio, quase de passagem, no versículo 16: Deus julgará os segredos dos homens "por Jesus Christo, segundo o meu evangelho". O juiz do fim é o crucificado. Isso muda tudo, porque o veredicto não vem de um tribunal frio, mas daquele que carregou o peso do veredicto. E o final do capítulo aponta para a promessa antiga de um coração transformado: a circuncisão "do coração, no espirito, não na letra". Os profetas já tinham dito que a marca no corpo precisava de uma marca correspondente por dentro, e que só Deus poderia fazê-la. Paulo está preparando o terreno: a lei diagnostica, mas quem opera é o Espírito.
O Espelho
Existe um prazer específico em condenar. Você lê a notícia sobre o pastor que caiu, sobre o político corrupto, sobre o colega que traiu a esposa, e algo em você se aquece, porque a distância entre ele e você parece confortavelmente grande. Paulo corta exatamente aí: "te condemnas a ti mesmo n'aquillo em que julgas o outro". Não porque julgar seja sempre errado, mas porque o julgamento vira anestesia. Enquanto você mede os outros, não se mede. E a lista dele é dolorosamente concreta: pregar contra o roubo e roubar, condenar o adultério e adulterar, detestar ídolos e lucrar com o templo. Traduza para hoje: ensinar generosidade e sonegar; pregar pureza e viver de pornografia; exigir verdade dos filhos e mentir no trabalho.
O Protagonista
Deus, aqui, é retratado como juiz e como paciente. Essas duas coisas costumam ser sentidas como contraditórias, e Paulo insiste que não são. A paciência dele tem propósito, não indiferença. Ele "recompensará cada um segundo as suas obras", e ainda assim adia, suporta, dá tempo. É um Deus que enxerga o que ninguém vê, que julga "os segredos dos homens", aquilo que nem confessamos a nós mesmos. E é um Deus cujo louvor não pode ser fabricado: o verdadeiro judeu tem elogio "não provém dos homens, mas de Deus". Isso é libertador e assustador ao mesmo tempo. Nenhuma reputação construída conta, mas também nenhuma calúnia dos outros decide quem você é.
O Intertexto
Paulo cita Isaías: "o nome de Deus é blasphemado entre os gentios por causa de vós". No original, aquilo era dito ao povo no exílio, cujo desastre nacional fazia as nações rirem do Deus de Israel. Paulo aplica isso ao presente: a incoerência do povo de Deus é publicidade negativa para Deus. O segundo eco vem de Deuteronômio, onde Moisés manda circuncidar o prepúcio do coração e depois promete que o próprio Senhor fará essa cirurgia. Paulo não está inventando uma espiritualização; ele está lendo a Torá como ela mesma se lê, apontando para além do sinal exterior.
O Perfil
Imagine uma sala apertada num prédio de aluguel em Roma, cheiro de comida e de rua, trinta pessoas ouvindo a carta em voz alta. Metade é gentil, artesãos e libertos; a outra parte é judia, recém-voltada do exílio decretado por Cláudio, que encontrou as igrejas funcionando muito bem sem eles. Havia tensão real, orgulho ferido, desprezo mútuo. Os gentios ouviram o capítulo 1 com satisfação e o capítulo 2 como uma bofetada. Os judeus ouviram o inverso. E na frase "primeiramente do judeo e tambem do grego" ouviram algo que perdemos: a prioridade de Israel permanece, mas serve primeiro para receber o julgamento, não o privilégio.
Reflexão
Em que área você é mais rigoroso com os outros do que consigo mesmo, e o que isso está protegendo em você?
A paciência de Deus com você tem produzido arrependimento ou apenas conforto?
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Perguntas frequentes sobre Romans 2
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, é fácil apontar o caminho aos outros e esquecer de olhar para os meus próprios passos. Me guarda de achar que sei demais. Antes de eu querer ser luz para alguém, deixa a tua luz me alcançar e me corrigir por dentro.
Obrigado, Senhor, porque olhas para o coração e não para a aparência. Agradeço por essa circuncisão do coração, no espírito, e não na letra, que me livra de viver para os aplausos das pessoas. Basta-me o louvor que vem de ti.
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