Romanos 1:4
O Texto
Vire nos dedos uma moeda de bronze que corre pelas ruas de Roma nos anos cinquenta: de um lado o perfil do imperador, do outro a inscrição que o chama filho do divino. É nesse mundo que Paulo escreve uma frase carregada como uma sentença de tribunal. O mesmo Jesus que, quanto à carne, nasceu da linhagem de Davi foi "declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espirito de sanctificação, pela resurreição dos mortos". Ou seja: a ressurreição não inventou a filiação, mas a proclamou publicamente, com autoridade, diante de todos. E a frase termina com o nome completo, quase como uma inscrição gravada em pedra: "Jesus Christo Nosso Senhor".
O Cerne
Repare no verbo. Não diz que Jesus se tornou Filho na ressurreição, mas que foi declarado, entronizado, empossado. É a linguagem de uma coroação, e Paulo escolhe cada palavra sabendo onde a carta será lida em voz alta. Havia duas linhagens em jogo: a descendência de Davi, frágil, sangrenta, humilhada por séculos de ocupação estrangeira, e a filiação divina, provada não por decreto do Senado mas por um túmulo vazio. O poder de Deus, aqui, não é força bruta que esmaga; é a força que reverte a morte. E "segundo o Espirito de sanctificação" indica a esfera em que isso acontece: não a política do mundo, mas a santidade de Deus agindo dentro da história. Quem ouvia isso em Roma entendia perfeitamente o desafio: há outro Senhor.
O Fio Condutor
A promessa a Davi foi de um trono que não acabaria, e durante mil anos essa promessa envelheceu mal: reis medíocres, exílio, uma dinastia que virou memória de família numa aldeia da Galileia. Paulo diz que a promessa não morreu, apenas esperou. E ele já tinha avisado no versículo anterior que esse evangelho Deus "antes havia promettido pelos seus prophetas nas sanctas escripturas". O Salmo 2, cantado nas coroações de Jerusalém, declarava o rei filho de Deus no dia da entronização; Paulo pega essa linguagem de posse do trono e a aplica ao domingo da ressurreição. O fio vai do pastorzinho de Belém até um sepulcro emprestado, e o que parecia um beco sem saída era, na verdade, o caminho pelo qual Deus levava a sério a sua própria palavra.
O Espelho
Há uma pergunta escondida aqui: quem, de fato, tem a última palavra sobre a sua vida? Não a resposta que você daria num estudo bíblico, mas a que aparece quando o chefe decide o seu futuro numa reunião de quinze minutos, quando o exame volta com uma sombra, quando a conta não fecha no dia vinte. Roma governava por medo e por prestígio, e nós continuamos a organizar a vida em torno de poderes que parecem definitivos: o mercado, a opinião dos outros, o corpo que envelhece. Este versículo não nega que esses poderes existam. Ele diz que houve uma coroação que os relativizou a todos, e que ela foi provada com um cadáver que se levantou. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta, sozinho, a última linha do versículo: "Jesus Christo Nosso Senhor". Diga devagar, e nomeie diante dele a coisa que hoje mais governou você.
O Perfil
Imagine a sala: um apartamento apertado num prédio de vários andares em Roma, cheiro de peixe salgado e fumaça de lamparina, gente sentada no chão. Judeus que tinham voltado depois da expulsão sob Cláudio, ex-escravos com nomes gregos, alguns artesãos, talvez um funcionário da casa imperial. Lá fora, procissões, templos, o culto ao imperador funcionando como cimento social. Chamar alguém de "Senhor" ali não era vocabulário devocional; era declaração de lealdade. Quando esses ouvintes escutaram que um judeu executado por Roma tinha sido publicamente empossado como Filho de Deus em poder, entenderam que estavam sendo convidados a uma fidelidade que podia custar caro. E logo Paulo dirá que não se envergonha do evangelho, o que só faz sentido se houvesse mesmo motivo de vergonha.
A Pergunta
Se Jesus foi declarado Filho de Deus em poder, por que esse poder é tão discreto? Os primeiros leitores fizeram essa pergunta com mais direito do que nós: alguns deles morreriam poucos anos depois, sob Nero, iluminando jardins. A entronização aconteceu, mas o império continuou de pé. Paulo não resolve essa tensão com uma promessa de alívio rápido; ele a mantém aberta ao longo da carta inteira, até chegar à criação que geme. A resposta honesta é que a ressurreição é o início de um reinado, não o seu ponto final, e que vivemos no intervalo entre a coroação e a posse plena. É um intervalo desconfortável. Quem promete que ele será confortável está vendendo outra coisa.
O Intertexto
Duas passagens iluminam este versículo. A promessa de Natã a Davi, em 2 Samuel 7, onde Deus se compromete a ter o descendente do rei como filho e a firmar o seu trono para sempre: é a raiz da qual Paulo colhe a palavra "descendencia de David". E o Salmo 2, o salmo da entronização, onde o ungido de Deus é declarado filho diante das nações que se agitam em vão: é a moldura para "declarado Filho de Deus em poder". Cito as duas porque mostram que Paulo não está improvisando um título honorífico para Jesus; está afirmando que Deus cumpriu, num túmulo aberto, aquilo que jurara séculos antes num palácio em Jerusalém.
Reflexão
Que poder na sua vida hoje age como se fosse definitivo, e o que mudaria se você o tratasse como já destronado?
A ressurreição prova a filiação de Jesus publicamente; onde, na sua rotina desta semana, essa confissão precisa deixar de ser privada?
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