Romanos 14:18
O Texto
Depois de dizer que o reino de Deus não se mede por comida nem bebida, mas por "justiça, e paz, e alegria no Espirito Sancto", Paulo aperta o nó com um pequeno "porque": quem n'isto serve a Christo agradavel é a Deus e acceito aos homens. Ou seja: aquele que serve a Cristo dentro dessas três realidades, e não dentro das suas convicções alimentares, é o que Deus recebe com prazer e o que os outros conseguem reconhecer como legítimo. Uma frase curta, quase discreta, colocada no meio de uma discussão sobre legumes e dias santos. E é exatamente aí que ela morde: o veredito de Deus não recai sobre o que está no prato, mas sobre o modo como se trata o irmão que come diferente.
O Cerne
Repare no pequeno "n'isto". Não diz "quem serve a Cristo agrada a Deus", como se bastasse a intenção sincera; diz que há um terreno onde esse serviço acontece, e o terreno é justiça, paz e alegria no Espírito. Servir a Cristo, portanto, tem forma. E a forma não é ascética nem liberal, é relacional: é o que acontece entre você e aquele cuja consciência funciona de outro jeito. Aqui está a coisa que custa admitir: Deus não se agrada primeiro da correção da minha teologia sobre comida, mas do que a minha convicção faz ao outro. E o versículo ousa juntar duas aprovações que normalmente separamos, a de Deus e a dos homens, como se uma vida verdadeiramente rendida a Cristo tivesse, por fim, algo de visível, algo que até quem está de fora consegue enxergar sem precisar de explicação. Será que a nossa é assim?
O Fio Condutor
Justiça, paz e alegria não são virtudes soltas; são o vocabulário dos profetas para descrever o que acontece quando Deus finalmente reina. É a paisagem prometida, o mundo consertado. E Paulo diz que essa paisagem já irrompe onde dois cristãos que discordam sobre carne e calendário decidem não se destruir mutuamente. O reino não chega primeiro como acontecimento cósmico, mas como mesa partilhada. E o versículo anterior a este bloco já tinha dito de onde vem tudo isso: Cristo "morreu, e resuscitou, e tornou a viver; para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos". A senhoria conquistada na ressurreição é justamente o que retira das nossas mãos o direito de julgar o servo alheio. Servir a Cristo assim é antecipar, em miniatura, o mundo que ele virá terminar.
O Espelho
Pense em quem, na sua igreja, tem uma consciência que você acha exagerada. O que se pode ver, ouvir, beber, celebrar; a escola dos filhos; o dinheiro; o domingo. Você provavelmente já venceu essa discussão na sua cabeça várias vezes. A pergunta do versículo é outra: nessa relação, você está servindo a Cristo, ou apenas defendendo a sua liberdade? Há uma vaidade quieta em ter razão, e ela consegue esfriar um irmão inteiro sem nunca levantar a voz. Paulo não pede que você mude de opinião. Pede que a sua opinião passe a habitar o terreno da justiça, da paz e da alegria, onde o outro cabe. Hoje, escreva o nome dessa pessoa num papel e ore por ela em voz alta, pedindo a Deus que a firme, sem pedir que ela mude.
Contexto
Roma, anos cinquenta. A comunidade cristã reúne judeus que voltavam do exílio imposto por Cláudio e gentios que, na ausência deles, tinham assumido a liderança. Os que regressam encontram uma igreja onde ninguém guarda sábado nem se importa com a carne do mercado, provavelmente exposta antes em templos pagãos. Não é uma disputa acadêmica: é identidade, memória, pertencimento, gente que sobreviveu ao decreto de um imperador e agora se sente estranha na própria casa. Chamar alguém de "enfermo na fé" numa cidade assim era munição fácil. Paulo escreve a uma igreja que ele ainda não visitou, sem autoridade pessoal acumulada, e escolhe não decidir a questão pelo poder, mas devolvê-la a cada consciência diante do Senhor.
O Detalhe
"Acceito aos homens." É a metade estranha do versículo. Esperávamos que bastasse agradar a Deus; a aprovação humana costuma ser aquilo de que a fé se desliga. Mas o verbo grego aqui traz a ideia de ser reconhecido depois de examinado, aprovado como moeda genuína. Paulo não está pedindo popularidade. Está dizendo que existe um tipo de vida cristã cuja autenticidade os outros conseguem verificar, porque ela produz efeitos visíveis: gente que não é humilhada, comunidades que não se rompem. A doutrina correta pode ser invisível ao vizinho. O modo como você trata quem discorda de você não é. Talvez seja essa a única apologética que Paulo confia à igreja de Roma.
A Pergunta
Mas quem decide o que é justiça, paz e alegria numa discussão concreta? O forte dirá que a paz exige que o fraco cresça; o fraco dirá que a justiça exige fidelidade. Paulo não entrega um critério neutro. Ele deixa o texto aberto: "Cada um esteja inteiramente seguro em seu proprio animo", e ao mesmo tempo manda ceder por amor. Isso não resolve; incomoda. Talvez seja intencional. Talvez Deus não queira nos dar uma regra que dispense a presença viva do Espírito e a atenção real ao rosto do outro. Ficamos, então, com a incerteza como lugar de oração, e não de vitória.
Reflexão
Onde, na sua vida, a certeza de estar certo já custou a proximidade de um irmão?
Se alguém observasse suas discordâncias de perto, reconheceria ali justiça, paz e alegria, ou apenas convicção?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, pelo bem que colocaste em minha vida, a liberdade que tenho em Cristo. Te agradeço por me ensinares a zelar por ele, para que não seja blasfemado, e por me dares um coração sensível ao irmão que caminha ao meu lado.
Obrigado, Senhor, porque Tu acolhes cada um de nós, os fortes e os fracos na fé. Que alívio saber que não preciso conquistar o teu favor pelo que como ou deixo de comer. Tu me recebeste, e isso basta para eu também receber o meu irmão.
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