Romanos 4:3
O Texto
Paulo faz uma pergunta que soa a tribunal: e se Abraão tivesse sido justificado pelas obras? Então teria motivo de orgulho, mas não diante de Deus. E, em vez de argumentar por conta própria, ele abre o rolo: "Pois, que diz a Escriptura? Creu Abrahão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça." A discussão inteira sobre judeus e gentios, lei e graça, é decidida por uma única frase antiga de Gênesis, citada como se fosse a última palavra do processo.
O Cerne
Repare no que a frase não diz. Não diz que a fé de Abraão foi tão exemplar que valeu como uma obra especialmente boa. Não diz que Deus achou nele uma centelha de mérito. Diz que algo lhe foi creditado, colocado em sua conta a partir de fora. Deus atribui a Abraão uma condição que ele não possuía. É por isso que Paulo pode dizer, dois versículos adiante, que Deus é aquele "que justifica o impio". Essa é uma frase escandalosa: nos tribunais do Antigo Oriente, absolver o culpado era corrupção judicial. Mas Deus não fecha os olhos ao pecado; ele o carrega. A justiça que recebemos não é reconhecida em nós, é conferida a nós.
O Fio Condutor
Abraão não é escolhido ao acaso como testemunha. Ele é o ponto zero da história de Israel, o homem chamado quando ainda não havia povo, nem lei, nem templo, nem circuncisão. Se a justiça de Abraão veio pela fé, então a fé é anterior a tudo o que Israel depois construiu em torno dela. Paulo puxa esse fio até o fim do capítulo: aquele em quem Abraão creu é o Deus "o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem". O mesmo poder que abriu o ventre morto de Sara ressuscitou Jesus. Por isso o capítulo termina onde precisa terminar: Cristo "por nossos peccados foi entregue, e resuscitou para nossa justificação". A fé de Abraão e a nossa olham para o mesmo Deus, em dois momentos diferentes da mesma obra.
O Espelho
Você provavelmente não constrói sua identidade sobre a circuncisão. Constrói sobre outras coisas: a consistência da sua vida devocional, o fato de não ser como aquele colega, os anos de serviço na igreja, a educação que deu aos filhos. Nada disso é ruim. O problema aparece no momento em que essas coisas se tornam o motivo pelo qual você acha que Deus deveria estar satisfeito com você. Paulo é implacável: se fosse assim, você teria "de que se gloriar, mas não diante de Deus". Diante dos outros, sim. Diante de si mesmo, talvez. Diante de Deus, nada. E há um alívio enorme nisso, no dia em que você falha feio e descobre que sua posição diante dele nunca dependeu do seu desempenho.
O Intertexto
A frase citada vem de Gênesis 15, o momento em que Abraão, sem filhos e sem futuro, é levado para fora da tenda e mandado contar as estrelas. A fé ali não é uma convicção abstrata; é confiar numa promessa contra toda evidência biológica. Mas há uma tensão que não se pode varrer para debaixo do tapete: Tiago usa exatamente o mesmo versículo de Gênesis para dizer que Abraão foi justificado por obras, apontando para o sacrifício de Isaque em Gênesis 22. As duas leituras não se contradizem se percebermos que falam de momentos distintos: Paulo pergunta como alguém entra na aliança, Tiago pergunta como se reconhece quem já está nela. Gênesis 15 é a raiz; Gênesis 22 é o fruto que prova a raiz. Paulo, aliás, não ignora isso: o capítulo inteiro descreve uma fé que persistiu por décadas.
O Detalhe
A palavra que Paulo repete onze vezes neste capítulo é logizomai, "creditar, lançar na conta". É vocabulário de contabilidade, de livro-caixa. E ele explora a metáfora sem piedade nos versículos seguintes: quem trabalha recebe salário "segundo a divida", não como favor. O patrão que paga no fim do mês não está sendo generoso, está quitando uma obrigação. Ora, se a justiça funcionasse assim, Deus estaria em dívida conosco, e a graça deixaria de ser graça. O verbo escolhido torna impossível a leitura sentimental do texto. Não se trata de Deus ser bonzinho; trata-se de um lançamento contábil no qual a coluna dos créditos foi preenchida por outra mão que não a sua.
O Perfil
Em Roma havia cristãos judeus que tinham voltado do exílio decretado por Cláudio e encontraram igrejas majoritariamente gentias, com hábitos que não eram os seus. A pergunta "somos todos realmente do mesmo povo?" não era teórica; era sobre quem se sentava à mesa de quem. Ao citar Gênesis 15 e depois insistir que a justiça foi imputada a Abraão "não na circumcisão, mas na incircumcisão", Paulo desarma o argumento de precedência. Para um ouvinte judeu, isso doía: o pai do povo foi declarado justo enquanto ainda parecia um gentio qualquer. Para um ouvinte gentio, era espantoso: aquele patriarca antigo era pai dele também. A mesa se tornava possível.
Reflexão
Em que momento desta semana você tentou apresentar a Deus algo seu como razão para ser aceito?
Se a justiça lhe foi creditada e não conquistada, o que muda na maneira como você olha para o cristão cujas práticas e cultura diferem das suas?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Repare na ordem: Abraão creu, foi aceito, e só depois recebeu "o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso". O sinal não o tornou justo, apenas confirmou o que Deus já havia feito. E você, o que tem tentado usar como prova diante de Deus? Ele quer sua confiança, não seu currículo.
Obrigado, Pai, porque a justiça também é atribuída a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor. Não foi meu esforço que me tornou aceito, foi a tua promessa cumprida no túmulo vazio. Descanso nisso hoje.
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