Tito 2:13
O Texto
"Aguardando" é a única coisa que este versículo nos manda fazer, e é um particípio, não um comando isolado: pende do versículo anterior, onde a graça nos ensina a viver com sobriedade, justiça e piedade "n'este presente seculo". Ou seja, o modo de vida descrito nos versículos 2 a 12, os velhos sóbrios, as jovens que amam os filhos, os escravos que não defraudam, tudo isso acontece de olhos levantados. Paulo resume esse olhar em duas expressões que se explicam mutuamente: "a bemaventurada esperança" e "o apparecimento da gloria do grande Deus e nosso Senhor Jesus Christo". Não são dois eventos. A esperança tem rosto, e o rosto tem nome: Jesus Cristo, que virá visivelmente e em glória.
O Cerne
O cristianismo não é primeiro uma ética; é uma expectativa que produz ética. Repare na sequência: a graça já se manifestou (v. 11), a graça nos ensina agora (v. 12), e a graça aponta para uma manifestação futura (v. 13). Duas aparições, uma no presépio e na cruz, outra em glória, e nós vivemos no espaço entre elas. Isso muda o que significa ser salvo: a salvação não é apenas um estado interior resolvido, é uma história ainda em curso cujo desfecho é certo porque depende de alguém que já veio uma vez e cumpriu o que prometeu. E há mais: Paulo chama Jesus de "o grande Deus e nosso Senhor". A esperança cristã não espera um enviado; espera Deus mesmo, em pessoa, de rosto descoberto.
O Fio Condutor
A palavra que Paulo usa para "apparecimento" é epipháneia, aparição, e no mundo dele ela pertencia ao vocabulário imperial: usava-se para a chegada de um imperador a uma cidade, ou para a manifestação de um deus. Paulo pega esse termo e o coloca sobre Jesus. Mas há um fio mais antigo por baixo. Israel sempre esperou o dia em que a glória do Senhor se tornaria visível, o dia em que Deus não seria mais inferido a partir das nuvens, do fogo ou do véu do templo, mas visto. Isaías fala da glória do Senhor que se revela e toda carne junta a vê. Aquilo que em Sinai matava quem olhasse é aqui a esperança "bemaventurada", feliz, desejável. A diferença é o versículo 14: aquele que aparecerá é o mesmo que "se deu a si mesmo por nós". A glória vem com cicatrizes, e é por isso que podemos aguardá-la sem terror.
O Espelho
Pergunte-se honestamente o que você realmente aguarda. Não o que confessa no domingo: o que ocupa sua imaginação quando o dia acaba e a cabeça encosta no travesseiro. A promoção, o diagnóstico que ainda não veio, a mudança de comportamento daquele filho, a aposentadoria, o momento em que finalmente alguém reconhecerá o que você faz. Nenhuma dessas coisas é má. Mas nenhuma delas suporta o peso de ser a sua esperança, e o texto expõe isso sem gentileza: existe uma única esperança chamada "bemaventurada", e ela não está na sua agenda dos próximos cinco anos. O que Paulo diagnostica não é falta de fé; é uma esperança pequena demais, que por isso mesmo nos deixa amargos quando frustrada e ansiosos quando ameaçada. E repare onde isso aterrissa: nos versículos anteriores, em maridos, filhos, casa, trabalho, patrões. Quem espera a aparição de Cristo consegue lavar louça sem sentir que a vida está passando ao lado. Quem não espera nada além disto precisa que a louça signifique tudo.
Hoje, antes de dormir, escreva num papel a frase que descreve o que você mais tem esperado nas últimas semanas. Depois escreva embaixo, com sua letra: "Aguardando a bemaventurada esperança e o apparecimento da gloria do grande Deus e nosso Senhor Jesus Christo." Deixe o papel onde você o verá amanhã de manhã.
A Pergunta
Dois mil anos depois, o que fazemos com uma esperança que não chega? Paulo escreveu isso a uma comunidade que provavelmente esperava ver aquele dia. Não veio. E qualquer leitor honesto sente o incômodo: uma expectativa adiada por vinte séculos ainda é expectativa, ou virou hábito religioso? O texto não responde. Ele não promete data, não calcula sinais, não oferece consolo cronológico. O que ele oferece é outra coisa: um fundamento no passado. Aquele que "se deu a si mesmo por nós" já fez a parte impossível. A demora, portanto, não é sinal de esquecimento, mas também não é explicada. Ficamos com uma esperança sem prazo, o que é exatamente o tipo de esperança que testa se realmente confiamos em alguém ou apenas gostamos de uma ideia reconfortante.
Contexto
Creta, uma ilha de má fama até entre os antigos, tanto que Paulo cita no capítulo anterior um poeta cretense chamando os próprios conterrâneos de mentirosos. Tito foi deixado ali para organizar igrejas jovens numa cultura que não esperava nada de cristãos. Daí a insistência quase obsessiva do capítulo 2 na respeitabilidade: sobriedade, gravidade, lealdade, "para que a palavra de Deus não seja blasphemada". São instruções dirigidas a gente sem poder algum. Escravos, mulheres, jovens: pessoas cujo testemunho não valia nada no tribunal e cuja vida pertencia a outros. A eles Paulo diz que estão "adornando" a doutrina de Deus, e a eles anuncia a aparição do grande Deus. Num mundo em que a epipháneia era propriedade de imperadores, isso é subversão em voz baixa.
O Detalhe
"Bemaventurada." O adjetivo pertence normalmente a pessoas: bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios. Aqui ele qualifica uma esperança. Paulo poderia ter escrito "esperança segura" ou "esperança certa"; escolheu a palavra da felicidade. E isso é mais estranho do que parece, porque nossa esperança religiosa costuma ser tingida de ansiedade: será que estarei pronto, será que aquele dia me encontrará em ordem. Paulo não pensa assim. A esperança que ele descreve é, em si mesma, uma forma de felicidade presente. Não somente aquilo que se espera é feliz; o próprio aguardar já é. É a diferença entre quem espera um resultado de exame e quem espera alguém que ama no aeroporto.
Reflexão
Se você registrasse, hora a hora, para onde sua expectativa se volta ao longo de um dia comum, que retrato apareceria?
Onde, no seu trabalho ou na sua casa esta semana, você agiu como se esta vida fosse a única coisa que existe?
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Perguntas frequentes sobre Titus 2:13
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O que a comunidade compartilha sobre Titus 2
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina." Esse "porém" carrega peso. Ao redor de Tito havia gente falando muito e dizendo nada, palavras que agitavam e não curavam. Paulo não pede silêncio, pede escolha. Repare: doutrina sã é a que produz saúde em quem ouve. E o que as suas palavras têm produzido hoje em casa?
Ele "se deu a si mesmo por nós". Não mandou outro, não pagou com o que lhe sobrava. Pagou consigo. E o alvo não foi só apagar a culpa, foi formar "um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras". Você não foi resgatado para ficar solto, mas para pertencer. O que você faz hoje não compra nada. Só revela de quem você é.
Obrigado, Senhor, porque até o trabalho mais comum ganha valor diante de Ti. Agradeço por me ensinares a servir "dando-lhes motivo de plena satisfação", com mãos honestas e boca mansa. Grato porque vês o que ninguém vê e chamas isso de serviço a Ti.
Obrigado, Senhor, por não deixares a juventude sem direção, mas por chamares os moços a que sejam sensatos. Grato por cada palavra de exortação que me segura nos impulsos, pelo domínio próprio que o teu Espírito planta em mim e pelos irmãos mais velhos que me ensinam a viver assim.
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