Jó 6
Explicação e história bíblica para adolescentes (12 anos ou mais)
A Explicação
Job acabou de ouvir o primeiro discurso de Elifaz, um amigo que veio consolá-lo e acabou dando-lhe uma aula de teologia. E agora Job responde. Não com argumentos organizados, mas com o peso todo do que carrega por dentro.
Ele começa com uma imagem impressionante: "Oh se a minha magoa rectamente se pezasse, e a minha miseria juntamente se alçasse n'uma balança!" Job quer que a sua dor seja pesada numa balança, como se pesa mercadoria no mercado. Porque, diz ele, seria "mais pesada… do que a areia dos mares". É a resposta dele a quem sugeriu que estava a exagerar. Não estou. Se pudessem medir isto, ficariam calados.
E depois vem a frase que faz o leitor moderno parar: "as frechas do Todo-poderoso estão em mim, cujo ardente veneno me chupa o espirito". Job não diz que o diabo o atacou, nem que teve azar. Ele diz que Deus atirou as flechas. Que o veneno delas lhe está a beber a alma por dentro. Job atribui o seu sofrimento diretamente a Deus, e não suaviza.
Então usa três comparações do dia a dia. O burro selvagem não zurra quando tem erva à frente. O boi não muge quando tem pasto. Ninguém come comida sem sal, e a clara do ovo não tem sabor nenhum. Traduzindo: os animais só fazem barulho quando falta alguma coisa. Se eu grito, é porque há motivo. E as palavras dos meus amigos são como comida insossa, não me alimentam nada.
Depois Job diz aquilo que muita gente pensa e poucos admitem em voz alta. O seu desejo é que Deus o mate. "E que Deus quizesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!" Isso, diz ele, seria a sua consolação. Não porque tenha traído Deus, mas precisamente porque não traiu: "porque não occultei as palavras do Sancto". Job quer morrer com a consciência limpa, antes que a dor o quebre por completo. E pergunta com uma honestidade nua: "Qual é a minha força, para que eu espere?" Não sou feito de pedra. A minha carne não é de bronze. Eu sou humano, e os humanos partem-se.
A segunda metade do capítulo é dirigida aos amigos, e é dura. Job diz que eles se comportaram como um ribeiro de inverno. Na estação fria parecem cheios, escuros de gelo e neve derretida. Mas quando chega o calor, quando alguém realmente precisa de água, secam e desaparecem. Job descreve caravanas que atravessam o deserto vindas de Temá e de Sabá, contando com aquele ribeiro. Chegam lá e não há nada. "Foram envergonhados, por terem confiado." E remata: "Agora sois similhantes a elles: vistes o terror, e temestes." Vocês olharam para o horror da minha vida e ficaram com medo. Recuaram.
E então Job faz o pedido que desmonta tudo. Eu pedi-vos dinheiro? Pedi que me salvassem de algum inimigo? Não pedi nada. Só isto: "Ensinae-me, e eu me calarei: e dae-me a entender em que errei." Mostrem-me o meu pecado concreto e eu calo-me. Mas não estão a fazer isso. Estão a apanhar as palavras de um desesperado, palavras que são "como vento", e a tratá-las como se fossem uma confissão em tribunal. Job acusa-os de lançarem sortes sobre o órfão e de cavarem uma cova para o próprio amigo. Termina pedindo que olhem para ele de frente: "vede se minto em vossa presença".
O Que Significa Isto?
Este capítulo está na Bíblia e isso, por si só, já diz alguma coisa enorme. Deus permitiu que um homem que o acusa de o alvejar com flechas tivesse a sua fala registada na Escritura, sem censura, sem nota de rodapé a corrigir. Não há aqui um "mas Job estava enganado" entre parênteses.
Isso desmonta uma ideia muito comum: a de que a fé exige que se fale bem de Deus mesmo quando por dentro está tudo em ruínas. Job não faz isso. Job fala com Deus e sobre Deus com uma sinceridade que nos deixa desconfortáveis. E no fim do livro, é a ele que Deus dá razão, não aos amigos educados.
O segundo golpe deste capítulo é sobre a amizade. Elifaz não disse mentiras óbvias. Disse coisas religiosamente corretas, no momento errado, à pessoa errada. Job chama-lhe ribeiro seco. Há um tipo de conselho que serve para tranquilizar quem o dá, não para ajudar quem o recebe. Job diz que os amigos viram o terror e tiveram medo. Muitas vezes damos respostas rápidas ao sofrimento alheio porque não aguentamos ficar dentro dele sem resposta.
O Fio Condutor
Há um homem justo, abandonado pelos amigos no pior momento, que sente sobre si a mão de Deus e não a de um inimigo qualquer. Job pergunta se é feito de pedra. Séculos depois, no Getsêmani, outro Justo pede que o cálice passe, sua sangue, e encontra os amigos a dormir. Na cruz grita: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"
A diferença é que Job pergunta em que errou e ninguém lhe consegue responder, porque não errou. Jesus não pergunta, porque sabe: o que carrega não é dele. As flechas que Job sentiu injustamente, Cristo recebeu voluntariamente. Por isso, quando abrimos a boca a Deus com raiva e confusão, falamos a Alguém que já esteve mais fundo nisso do que nós.
Para Ti
Duas coisas. Primeiro: podes ser honesto com Deus ao ponto de dizer coisas que não dirias em voz alta no grupo de jovens. Ele não precisa que o protejas. A oração polida que esconde o que sentes não é mais espiritual, é apenas mais distante.
Segundo: pensa em quem, à tua volta, está a atravessar o deserto e a contar contigo. Não te peçam dinheiro nem soluções. Talvez só peçam presença. Um ribeiro que seca no verão é bonito no inverno e inútil quando importa. Não sejas esse ribeiro.
Conversem Sobre Isso
Job diz que Deus o alvejou com flechas e ainda assim não abandona a fé. Onde está, para ti, a linha entre honestidade diante de Deus e falta de respeito? Ou não existe essa linha?
Lembras-te de alguma vez em que deste uma resposta religiosamente correta a alguém que sofria, mais para te acalmares a ti do que para ajudar essa pessoa? O que farias diferente?
Orando Juntos
Senhor, não sei sempre falar contigo com bonitas palavras. Às vezes só tenho perguntas e cansaço. Obrigado por não fugires disso. Ensina-me a ser honesto contigo e a ser água verdadeira para quem tenho ao lado. Amém.
Perguntas sobre Jó 6
Respostas breves para quem lê sobre isto pela primeira vez.
Sobre o que fala Jó 6?
O que diz Jó 6?
O que Jó 6 nos ensina sobre Deus?
O que adolescentes pode aprender com Jó 6?
Por que Jó 6 é uma história bíblica importante?
O que outros descobriram
Jó perdeu filhos, bens e saúde, e ainda precisa provar que não enlouqueceu: "Acaso, há iniquidade na minha língua? Não pode o meu paladar discernir coisas perversas?" O que ele pede é pequeno e raro: ser ouvido sem suspeita. Quando alguém sofre diante de você, antes de corrigir, pergunte se já escutou de verdade.
Procura algo para crianças mais novas?
Também temos versões dedicadas para crianças pequenas (3-6 anos) e idade escolar (7-12).
Abrir na ferramenta da Bíblia para crianças