1 Coríntios 8
O Texto
Paulo responde a uma pergunta prática dos coríntios: pode um cristão comer carne que foi sacrificada aos ídolos? Ele concorda com a teologia deles: existe um só Deus, o ídolo "nada é no mundo", e comida em si não nos aproxima nem nos afasta de Deus. Mas então ele vira o argumento do avesso: há irmãos cuja consciência é frágil, e o exercício despreocupado da sua liberdade pode destruí-los. Se for assim, diz Paulo, jamais comerei carne outra vez.
O Coração
Note o que Paulo coloca na balança no versículo 11: de um lado, um pedaço de carne e o direito de comê-lo; do outro, "o irmão fraco, pelo qual Christo morreu". Não é uma discussão sobre dieta. É uma discussão sobre quanto vale uma pessoa aos olhos de Deus. E o preço já foi fixado, não por nós, mas pela cruz. Quem sabe disso não pode mais tratar o outro como obstáculo, ignorante ou atraso. A teologia dos coríntios estava correta e sua prática era assassina, e Paulo não hesita em nomear isso: "peccaes contra Christo". Ferir o mais frágil é tocar no Senhor que morreu por ele. A verdade sem amor não é verdade completa; é verdade usada como arma.
O Fio Condutor
O versículo 6 é uma das frases mais densas do Novo Testamento. Paulo toma a confissão de Israel, "há um só Deus", e a expande: "um só Deus, o Pae, do qual são todas as coisas, e nós para elle; e um só Senhor, Jesus Christo, pelo qual são todas as coisas, e nós por elle". Criação e redenção aparecem na mesma respiração. Tudo veio do Pai, tudo veio por meio do Filho, e nós existimos para o Pai, por meio do Filho. Aqui a história inteira da Bíblia se comprime: o Deus que fez o mundo é o Deus que resgata o mundo, e o faz pelo mesmo Senhor. Por isso comida é indiferente e pessoas não são. Nada é impuro na criação de Deus; mas alguém pela qual Cristo morreu é sagrado.
O Espelho
Você provavelmente não decide sobre carne de templo, mas decide constantemente sobre o uso da sua liberdade. Você tem razão naquela discussão no grupo pequeno; a pergunta é o que a sua razão faz com a pessoa do outro lado da mesa. Você sabe que o cristão maduro não precisa de regras sobre álcool, cinema, dinheiro ou domingo; a pergunta é se o irmão recém-convertido que te admira sairá da conversa mais firme ou mais confuso. A ciência que "incha" gosta de se sentir adiantada em relação aos outros crentes. Ela produz aquele leve desprezo pelos que ainda não chegaram lá, e o desprezo tem cheiro; as pessoas percebem. Paulo não pede que você desaprenda o que sabe. Ele pede que o seu saber se dobre diante do amor.
O Intertexto
Quando Paulo diz "não ha algum outro Deus, senão um só", ele está citando o coração da fé de Israel, o Shemá de Deuteronômio 6:4. É espantoso: ele coloca Jesus dentro dessa confissão sem quebrá-la, e o faz de passagem, como algo já assumido pela igreja. A segunda ressonância é Romanos 14, onde Paulo trata do mesmo problema com outras palavras: não destruas com tua comida aquele por quem Cristo morreu. Que ele volte ao assunto em outra carta mostra que não se trata de um detalhe local de Corinto, mas de um princípio permanente da vida em comunidade: o forte existe para carregar o fraco, não para exibir sua força.
O Detalhe
"A sciencia incha, mas o amor edifica." Os dois verbos gregos são imagens físicas. O primeiro, physioō, significa inflar, encher de ar, como um odre ou um fole. O segundo, oikodomeō, é literalmente construir uma casa, assentar pedra sobre pedra. Uma coisa que incha ocupa mais espaço sem ganhar substância, e estoura com facilidade. Uma casa cresce devagar e abriga gente. Paulo não está contrapondo cabeça e coração, como fazemos hoje. Ele está perguntando o que o seu conhecimento produz: volume ou moradia. E note o versículo 3, que corta ainda mais fundo: quem ama a Deus "esse é conhecido d'elle". No fim, o que importa não é a extensão do meu conhecimento, mas o fato de eu ser conhecido.
Contexto
Corinto era uma cidade portuária, comercial, competitiva, viciada em status. A carne que se vendia no mercado passava em boa parte pelos templos, e os banquetes das corporações profissionais e das celebrações familiares aconteciam frequentemente em salões anexos aos santuários. Recusar-se a comparecer significava perder contatos, clientes, posição social. Não é acidente que os "fortes" de Corinto pareçam ser justamente os mais bem colocados: gente com convites para receber e teologia para justificá-los. Os "fracos" eram provavelmente pobres, gente que só comia carne nas festas religiosas e para quem aquele altar tinha sido, até pouco tempo antes, terrivelmente real. Paulo não pede que os privilegiados esclareçam os simples. Ele pede que abram mão. É a cruz aplicada à agenda social.
Reflexão
Onde, na sua vida de igreja, você está usando aquilo que sabe para se sentir adiantado em relação a outros crentes?
Que liberdade concreta você estaria disposto a abandonar, sem discutir, para que alguém mais frágil permaneça de pé?
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Pai, me ensina a olhar além dos meus direitos. Que eu enxergue quem caminha ao meu lado e pense no peso que minhas escolhas colocam sobre ele. Prefiro abrir mão de algo bom a ser motivo de tropeço para alguém que amas.
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