2 Coríntios 1:3
O Texto
Paulo abre a carta não com queixa nem com defesa, mas com uma bênção: "Bemdito seja o Deus e Pae de nosso Senhor Jesus Christo, o Pae das misericordias e o Deus de toda a consolação". Três nomes empilhados num só fôlego. Primeiro a identidade de Deus é definida pela relação com Jesus: ele é o Deus e Pai do Senhor Jesus Cristo. Depois vêm dois títulos que soam como herança do culto judaico: Pai das misericórdias, Deus de toda consolação. É um homem que acabou de escapar da morte na Ásia, que escreve a uma igreja que o magoou, e a primeira palavra que lhe sai da boca é bendição. Não resignação piedosa. Louvor, com o nome de Cristo no meio.
O Cerne
Repare na ordem, porque ela carrega todo o peso teológico. Paulo não diz primeiro que Deus consola e depois que Deus é Pai de Jesus. Ele diz primeiro de quem Deus é Pai, e só então o que Deus faz. A misericórdia não é um humor divino que oscila conforme as circunstâncias; ela tem endereço histórico. O Deus que consola é o mesmo que entregou o Filho e o ressuscitou, e por isso a consolação que ele oferece não é um analgésico emocional mas a garantia de que a morte já foi atravessada por dentro. Quando Paulo diz, poucos versículos adiante, que confiou "em Deus, que resuscita os mortos", ele está apenas desdobrando o que já cabia neste versículo. Pai das misericórdias significa: a compaixão é o que ele gera, não o que ele concede a contragosto.
O Fio Condutor
A fórmula "Bendito seja" vinha do culto da sinagoga. Israel abençoava o Senhor como "Deus de Israel", o Deus que tirou o povo do Egito, o Deus dos pais. Paulo conserva a forma e troca a identificação: agora o Deus bendito é "o Deus e Pae de nosso Senhor Jesus Christo". Isso não é um retoque devocional, é a dobradiça entre os dois Testamentos. As misericórdias prometidas a Abraão, cantadas nos salmos, choradas pelos profetas no exílio, deixaram de ser uma esperança sem rosto. Elas têm agora um nome, uma cruz e um túmulo vazio. E por isso Paulo pode escrever, dois versículos adiante, que "as afflicções de Christo abundam em nós, assim tambem a nossa consolação abunda por Christo". O consolo não contorna o Filho; passa por dentro dele.
O Espelho
O instinto quase automático é definir Deus pela temperatura da semana. Exame que não sai, conta que não fecha, filho que não responde às mensagens, grupo da igreja onde alguém falou o que não devia e nunca pediu desculpa. A partir dali, Deus vira o que a circunstância sugere: distante, irritado, ausente. Paulo faz o movimento contrário, e faz isso meses depois de ter achado que ia morrer. Ele não começa pelo que sente, começa por quem Deus é em Jesus, e deixa que isso reorganize o resto. Não é negação da dor; o capítulo inteiro é sobre tribulação. É ordem de leitura. Hoje, em voz alta, diga a frase inteira do versículo nomeando em seguida a sua situação mais dura: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, também nisto." Leva um minuto, e muda quem fala primeiro.
O Detalhe
"O Deus de toda a consolação." A palavra grega por trás de consolação é paráklēsis, literalmente um chamar-para-perto. É da mesma família da palavra que Jesus usa para o Espírito, o Paráclito, aquele que é chamado a ficar ao lado. Consolação aqui não é um recado enviado de longe, nem uma explicação satisfatória sobre o porquê do sofrimento. É alguém que se aproxima e permanece. E note o "toda": não há território de luto fora do alcance desse Deus, nem tipo de tribulação para a qual ele tenha que terceirizar o trabalho. Por isso o versículo seguinte consegue dizer que o consolado se torna consolador. Quem foi chamado para perto aprende a chamar outros para perto.
A Pergunta
Se Deus é o Pai das misericórdias, por que a tribulação na Ásia aconteceu? Paulo não suaviza: foram "sobremaneira aggravados mais do que podiamos supportar", a ponto de carregarem dentro de si "a sentença de morte". Repare que ele não diz que Deus limitou a pressão ao suportável. Diz o oposto. E a razão que oferece, "para que não confiassemos em nós mesmos, mas em Deus, que resuscita os mortos", é um propósito, não uma explicação. Ele diz para que serviu, não por que foi necessário. Quem procura neste texto uma justificativa do sofrimento sai de mãos vazias. O que o texto entrega é mais estreito e mais firme: o fundo do poço tem chão, e esse chão é a ressurreição.
O Intertexto
Efésios 1:3 abre exatamente com a mesma bênção, palavra por palavra, e segue para as bênçãos espirituais nos lugares celestiais. Aqui a mesma frase desemboca em espancamentos, naufrágios e quase-morte. Vale a pena ler as duas aberturas lado a lado: é o mesmo Deus bendito, e o louvor não depende de qual das duas cartas descreve melhor a sua semana. E o título "Pai das misericórdias" vem do Salmo 103, onde a compaixão de Deus é comparada à de um pai pelos filhos, uma ternura que no hebraico tem raiz no ventre materno. Paulo pega esse Deus visceralmente compassivo do saltério e diz: é o Pai de Jesus.
Reflexão
Quando você pensa em Deus esta semana, o que define a imagem primeiro: o que lhe aconteceu, ou quem ele é em Cristo?
Qual consolo concreto você já recebeu de Deus que ainda não passou adiante a ninguém?
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Perguntas frequentes sobre 2 Corinthians 1:3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Paulo não diz que a dor dele foi inútil nem que Deus a explicou. Ele diz algo mais estranho: "se somos atribulados, é para vosso conforto e salvação". O que te machucou virou remédio na mão de alguém. Talvez a pessoa que precise ouvir você hoje só confie em você porque você chorou primeiro.
Paulo não escondeu o fundo do poço. "Foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida." O apóstolo que escreveu tanta coisa linda sobre alegria também chegou ao limite e disse isso em voz alta, por carta, para todo mundo ler. Talvez o teu peso não precise ser escondido também. Quem carrega sozinho carrega errado.
Paulo escreve isso logo antes de contar que em certo momento perdeu até a esperança de continuar vivo. E mesmo assim começa assim: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação." Repare, não é o Deus que às vezes tem misericórdia. É Pai dela. Nasce dele. Você não precisa arrancar consolo dele à força.
Paulo estava sendo acusado de mudar de planos por conveniência, e sua defesa não foi uma lista de argumentos. Foi isto: "a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência". Ele dormia em paz. E você? Quando ninguém está olhando e as explicações acabam, o que a sua consciência diz de você?
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