2 Reis 20:11
O Texto
Ezequias escolheu o sinal mais difícil: não que a sombra avançasse, o que aconteceria de qualquer modo com o passar da tarde, mas que recuasse. Isaías então ora, e Deus atende: "fez voltar a sombra dez graus atraz, pelos graus que tinha declinado nos graus do relogio de sol d'Achaz." O tempo, medido pela luz que se move sobre uma escadaria de pedra, anda para trás. Um rei doente recebe quinze anos, e a prova disso é escrita no chão do palácio, à vista de quem quisesse olhar.
O Coração
O que impressiona aqui não é primeiro o milagre, mas a paciência de Deus com um homem que pede confirmação depois de já ter recebido a promessa. Ezequias ouviu "eis que eu te sararei" e ainda assim perguntou pelo sinal. Deus não o repreende. Não há sermão sobre falta de fé. Há uma sombra que recua. Isso diz algo sobre o caráter de Deus que mal ousamos crer: ele se inclina para a nossa insegurança em vez de se ofender com ela. E diz algo sobre a criação: os ritmos que nos parecem fixos, o sol que sobe e desce, o tempo que só corre num sentido, são servos, não senhores. Quem os fez pode dobrá-los por causa das lágrimas de um homem.
O Fio Condutor
Repare no detalhe do versículo 5: "ao terceiro dia subirás á casa do Senhor." Um homem sentenciado à morte, um veredicto irrevogável, e depois um terceiro dia em que ele volta a subir ao templo. A Escritura conhece esse padrão e o repete até que ele encontre seu cumprimento definitivo. Ezequias recebe quinze anos emprestados; Cristo recebe uma vida indestrutível. E há o outro eco: no Calvário a luz também é alterada, mas ao contrário, escurece em pleno meio-dia. No relógio de Acaz, a sombra recua para que um rei viva. Na cruz, a sombra avança sobre o Rei para que nós vivamos. O mesmo Deus, a mesma soberania sobre a luz, dois sinais que se explicam mutuamente.
O Espelho
Você provavelmente já orou por um resultado de exame, por um filho que se afastou, por um casamento que range. E já experimentou o que Ezequias experimentou: a promessa recebida não elimina o desejo de garantia. Queremos algo palpável, algo que possamos medir no chão. Confesse isso sem vergonha; o texto não o condena. Mas note também o que veio depois. Os quinze anos concedidos produziram os capítulos seguintes: a vaidade diante dos babilônios, o "coisa nenhuma houve que lhes não mostrasse", e por fim aquela frase gelada, "em meus dias haverá paz e verdade". Tempo extra não santifica ninguém automaticamente. O que você faria com quinze anos a mais é exatamente o que está fazendo com esta semana.
Contexto
Estamos por volta de 701 a.C., em Jerusalém sitiada ou prestes a ser sitiada pela Assíria, a superpotência que já engolira o reino do norte. Ezequias é o rei reformador, filho de Acaz, aquele que fechara o templo e queimara o próprio filho. O "relogio de sol d'Achaz" era provavelmente uma escadaria monumental construída pelo pai, onde a sombra de uma coluna marcava as horas. É por isso que o detalhe morde: o sinal da fidelidade de Deus acontece sobre a obra do rei infiel. Nas cortes do antigo Oriente, o sol era divindade e o rei seu representante. Aqui o sol obedece a um profeta que grita ao Senhor, e obedece na escadaria de um idólatra.
O Intertexto
Duas passagens se acendem. A primeira é Josué em Gibeom, quando o sol se detém enquanto Israel derrota os reis amorreus. Ali a luz para para que a guerra se complete; aqui ela recua para que um homem creia. A conquista e a enfermidade pessoal, o povo e o indivíduo, tratados pelo mesmo Deus com a mesma liberdade sobre o céu. A segunda é mais afiada: Isaías foi ao pai de Ezequias, Acaz, e ofereceu um sinal, tão profundo quanto o Sheol ou tão alto quanto o céu. Acaz recusou com falsa piedade, e recebeu assim mesmo o sinal do menino chamado Emanuel. Agora o filho pede o sinal que o pai rejeitou, e o recebe justamente no relógio que leva o nome do pai. A graça retorna ao lugar onde foi desprezada.
O Perfil
Os primeiros leitores de Reis eram exilados na Babilônia ou pessoas que voltavam de lá, gente que sabia como a história de Ezequias termina: os tesouros mostrados aos babilônios acabaram na Babilônia, os filhos acabaram eunucos no palácio estrangeiro. Para eles, este versículo não era um conto de milagre agradável. Era a lembrança dolorosa e necessária de que o Deus que fez a sombra recuar dez graus continuava sendo Deus quando a sombra avançou sobre Jerusalém inteira. Se ele podia inverter o tempo por causa de um rei doente, o exílio não era o fim da conversa. Um Deus assim ainda pode fazer voltar o que parece irreversível.
Reflexão
Que garantia você tem pedido a Deus ultimamente, e o que aconteceria se ele simplesmente a desse?
Ezequias recebeu quinze anos e os usou mal em pontos decisivos. Que uso você está fazendo do tempo que já lhe foi dado?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Isaías não acusa, ele pergunta: "Que foi que aqueles homens disseram e donde vieram a ti?" E Ezequias responde só metade, fala da distância, do prestígio de Babilônia, e cala o que mostrou. Deus ainda pergunta assim, dando espaço para confessarmos. O que você está deixando de fora da resposta?
Senhor, toda vida tem seu fim, e isso me assusta um pouco. Ensina-me a viver bem os dias que tenho, deixando algo bom para quem vem depois. Que o pouco que eu construir aponte para ti, mesmo quando meu nome for esquecido.
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