2 Tessalonicenses 3
O Texto
Paulo termina a carta pedindo oração para que a palavra corra livre e para que ele seja livrado de homens maus. Depois vira-se para dentro da comunidade e trata de um problema concreto: alguns irmãos em Tessalônica andam desordenadamente, recusam-se a trabalhar, e vivem à custa dos outros. Paulo os manda trabalhar em sossego e comer o seu próprio pão, e encerra com a bênção habitual, assinada de próprio punho.
O Centro
Imagine a cena. É de noite em Corinto, provavelmente. Paulo está cansado, com as mãos calejadas do trabalho de fazer tendas. Silas e Timóteo estão perto. Chegaram notícias de Tessalônica: alguns irmãos deixaram de trabalhar. Talvez esperem tão intensamente a volta de Cristo que consideram o trabalho um desperdício. Talvez apenas gostem de andar de casa em casa, "fazendo coisas vãs", como Paulo escreve com uma ponta de exasperação. Ele dita ao escriba, e a voz endurece. Não é um problema pequeno. Está a corroer a comunidade por dentro, enquanto a perseguição a corrói por fora. E Paulo escolhe as suas palavras com peso: "trabalhando com socego, comam o seu proprio pão." A espiritualidade não paira. Ela tem mãos.
O Coração
O coração deste capítulo é a ligação entre a graça e a ordem. Não é uma tensão, como muitas vezes se pensa. É uma unidade. O mesmo Paulo que fala da graça sem reservas escreve: "se alguem não quizer trabalhar, não coma tambem." Isso choca a nossa sensibilidade moderna, que gosta de separar espírito e corpo, fé e economia. Mas para Paulo o evangelho forma um povo, e um povo que não trabalha não é um povo, é um parasita. O Senhor é fiel, escreve ele no verso 3, e essa fidelidade não é uma almofada para a preguiça. É o fundamento firme de onde saem pessoas firmes, que carregam o seu próprio pão e ainda partilham dele.
O Fio Condutor
Há aqui um eco do Éden. O homem foi posto no jardim para lavrar e guardar, muito antes da queda. O trabalho não é uma maldição, é vocação. E há também um eco de Cristo, o carpinteiro de Nazaré, que trabalhou com as mãos até por volta dos trinta anos antes de pregar. Paulo aponta para si mesmo como exemplo, mas por detrás do exemplo dele está o exemplo maior: o Filho de Deus que não achou abaixo da sua dignidade suar. Quando Paulo escreve "na paciencia de Christo", no verso 5, essa paciência tem cheiro de oficina, de dias longos, de tarefas repetidas. A vida cristã não é um voo, é uma caminhada com pés no chão.
O Espelho
Este texto incomoda mais do que imaginamos. Não porque somos preguiçosos, embora possamos ser, mas porque romantizamos a espiritualidade. Queremos retiros, momentos intensos, revelações. Paulo aponta para a segunda-feira de manhã. Para a fatura que precisa ser paga. Para o colega difícil que temos de aturar mais oito horas. Pergunte a si mesmo: será que o meu cristianismo dá trabalho, ou apenas ocupa espaço mental? Será que os outros são pesados por minha causa, financeiramente, emocionalmente, sem que eu queira reconhecê-lo? E há a outra face: o verso 13, "não vos canceis de fazer bem". Porque quem trabalha bem também se cansa de ser explorado por quem não trabalha. Paulo vê ambos.
O Intertexto
Duas passagens iluminam este capítulo. A primeira: Gênesis 3, onde o suor da testa entra na história como consequência da queda, mas onde o trabalho em si já existia antes. Paulo não redime o trabalho como se fosse mau; ele o restaura como bom. A segunda: Efésios 4:28, onde o ladrão é chamado a trabalhar, "para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade". O trabalho cristão não é apenas para sustento próprio, é para a generosidade. Isto contrasta fortemente com os desordenados de Tessalônica, que consomem sem produzir. A comunidade cristã sã é uma corrente onde cada elo puxa, e onde há algo que sobra para dar.
O Detalhe
Repare no verso 17: "Saudação da minha propria mão, de mim, Paulo, que é o signal em todas as epistolas: assim escrevo." Paulo dita a carta, mas pega na pena no final. Por quê? Porque, como sabemos por outras cartas, circulavam falsificações. Alguns em Tessalônica já haviam sido perturbados por uma suposta carta dele. Aquela assinatura de próprio punho é ternura e autoridade ao mesmo tempo. É um homem cansado dizendo: sou eu, confiem. E é um lembrete de que a fé cristã sempre foi encarnada em pessoas concretas, com nomes, com caligrafia, com mãos que trabalhavam de dia e escreviam de noite.
A Pergunta
Fica a questão dura: o que fazemos com o verso 14, onde Paulo manda "notae o tal, e não vos mistureis com elle, para que se envergonhe"? Vergonha, como instrumento pastoral, choca-nos. Mas Paulo acrescenta imediatamente: "não o tenhaes como inimigo, mas admoestae-o como irmão." Não é exclusão fria, é disciplina familiar. A pergunta que fica sem resposta fácil: será que a nossa cultura, que aboliu toda vergonha, ainda consegue amar assim? Ou perdemos, junto com a vergonha, também a coragem de dizer verdade uns aos outros? Paulo não nos resolve isto. Deixa-nos com o desconforto.
Reflexão
Onde é que o meu cristianismo se torna "coisa vã" em vez de trabalho concreto pelo bem dos outros?
Consigo, hoje, admoestar alguém como irmão, sem tratá-lo como inimigo, ou perdi essa arte?
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Perguntas frequentes sobre 2 Thessalonians 3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, me ajuda a não transformar quem erra em inimigo. Quando eu precisar falar algo difícil, que seja com o cuidado de quem ama, não com a frieza de quem julga. Ensina-me a corrigir sem ferir e a continuar enxergando um irmão do outro lado.
Paulo, que escrevia cartas inspiradas, para e pede: "orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague e seja glorificada." Ele não pede alívio nem proteção primeiro, pede que a Palavra corra solta. E conta com gente comum de Tessalônica para isso. Alguém hoje depende da sua oração e nem sabe seu nome.
Que, trabalhando tranquilamente, comam o seu próprio pão." Paulo escreve isso a gente que tinha parado de trabalhar por achar que o fim estava logo aí. E a ordem dele é quase decepcionante de simples: volte para o seu ofício, em silêncio, e coma do que ganhou. Nem toda fidelidade é espetacular. Às vezes ela tem cara de segunda-feira comum.
Pai, num mundo cheio de vozes falsas, ensina-me a reconhecer a tua. Que a minha vida leve a tua marca, de forma genuína, sem disfarce, para que aqueles que convivem comigo percebam de quem eu sou.
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