Atos 10:38
O Texto
No meio do discurso na casa de Cornélio, Pedro resume a vida inteira de Jesus numa frase curta: Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder, e ele "andou fazendo bem, e curando a todos os opprimidos do diabo, porque Deus era com elle". Não há aqui teoria sobre a natureza de Cristo, nem argumento sofisticado. Há um itinerário: alguém que andou, e por onde andou fez bem e libertou pessoas esmagadas. Essa é a apresentação que Pedro escolhe fazer diante de um oficial romano e de sua sala cheia de parentes e amigos.
O Cerne
Repare no que a unção produz. Pedro não diz que Jesus foi ungido e então recebeu um cargo, um título, uma posição religiosa. Ele foi ungido "com o Espirito Sancto e com virtude", e o resultado visível disso foi bondade concreta e pessoas libertadas. O poder de Deus, quando desce sobre alguém, não se manifesta primeiro em espetáculo nem em autoridade sobre outros, mas em bem feito a quem está por baixo. Isso reorganiza toda a nossa ideia de espiritualidade. Se o Espírito de Deus descansa sobre uma vida, essa vida se inclina; começa a andar na direção dos oprimidos. Onde a unção não produz bondade concreta, o que temos é outra coisa, com outro nome.
O Fio Condutor
A palavra que Pedro usa para "fazendo bem" é euergetōn, do vocabulário do euergetēs, o benfeitor. No mundo romano esse era um título oficial: imperadores, generais e ricos patronos recebiam inscrições em pedra chamando-os de benfeitores do povo, e o povo devia gratidão e lealdade em troca. Pedro toma esse título imperial e o coloca sobre um galileu sem posses que curava mendigos e tocava leprosos. É subversivo, e Cornélio, militar de Roma, entendeu perfeitamente. O verdadeiro Benfeitor do mundo não conquista províncias; ele desfaz opressões, uma pessoa de cada vez, e termina pendurado num madeiro. O programa anunciado em Isaías 61, o ungido enviado aos quebrantados, encontra aqui seu cumprimento andando pelas estradas da Galileia.
O Espelho
O verbo mais incômodo do versículo é "andou". Jesus não montou um posto de atendimento onde os necessitados vinham marcar hora; ele se deslocava, e o bem acontecia no caminho. Nós preferimos o contrário: fazer o bem por transferência bancária, por doação anual, por opinião correta publicada onde os nossos conhecidos leem. É mais limpo, e não nos obriga a olhar ninguém no rosto. Mas há pessoas oprimidas no raio de dez metros da sua vida: o colega humilhado nas reuniões, o irmão que você deixou de ligar porque a conversa é pesada, a funcionária da limpeza cujo nome você nunca perguntou, o filho adolescente que fala menos há três meses. Você não passa por eles por falta de amor, mas porque parar custa tempo, e o seu tempo já está todo comprometido. Hoje, escolha a pessoa cuja dificuldade você conhece e vem evitando, e ligue para ela agora. Não mande mensagem: ligue, e pergunte como ela está de verdade.
Contexto
Pedro está em Cesareia, cidade construída por Herodes em honra a César, sede do governo romano na Judeia, cheia de estátuas e templos pagãos. É a última casa do mundo onde um judeu observante quereria comer. Ele mesmo diz, ao entrar, que não é lícito a um judeu "ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros". Cornélio é centurião da tropa italiana, ou seja, faz parte da máquina que ocupa a terra de Israel. Que Pedro esteja de pé naquela sala já é um escândalo social antes de ser um evento teológico. E é justamente ali, diante de um homem armado do império, que ele descreve Jesus como aquele que andou fazendo bem. A escolha do resumo não é inocente.
O Perfil
Cornélio e sua casa são gentios tementes a Deus: oram, dão esmolas, respeitam as Escrituras, mas estão de fora. Conhecem por experiência o que é poder que oprime; alguns deles talvez tenham ajudado a exercê-lo. Quando ouvem falar de um ungido de Deus, a expectativa natural é um poder maior que o de Roma, capaz de esmagar Roma. O que recebem é a notícia de um poder que cura. Para quem vive numa província ocupada, essa é uma redefinição radical do que significa "Deus era com elle": não estava com ele porque venceu, mas porque libertou. Lucas registra que, enquanto Pedro ainda falava, o Espírito caiu sobre todos os ouvintes. O mesmo Espírito, o mesmo tipo de bem.
O Intertexto
Dois ecos ajudam. Primeiro, Isaías 61, o texto que Jesus leu na sinagoga de Nazaré, onde o ungido é enviado aos quebrantados e cativos: Pedro está dizendo que aquela promessa andou de fato pelas estradas da Judeia. Segundo, o próprio contexto imediato, versículo 34: "Deus não faz accepção de pessoas". As duas afirmações se sustentam. Um Deus que não escolhe favoritos produz seguidores que fazem bem sem calcular a quem convém fazê-lo. A bondade de Jesus não era estratégica; ele curava "a todos" os oprimidos, sem perguntar de que lado estavam.
Onde na sua semana o bem que você faz depende de a pessoa merecer, retribuir ou notar?
Se alguém resumisse sua vida numa frase como Pedro resumiu a de Jesus, qual verbo apareceria no lugar de "andou fazendo bem"?
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Perguntas frequentes sobre Acts 10:38
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Repare no detalhe que Pedro escolhe para provar a ressurreição: "de nós que comemos e bebemos juntamente com ele, depois que ressuscitou dos mortos". Nada de espetáculo diante das multidões. Uma mesa, comida partilhada, gente que o havia abandonado dias antes. E é assim que ele ainda gosta de se revelar: na intimidade de quem se senta com ele.
Obrigado, Senhor, porque assim como Pedro acolheu os mensageiros e os hospedou, o Senhor me ensina a abrir a porta ao próximo. Grato pela coragem de Pedro em ir com eles no dia seguinte, mesmo sem saber tudo o que o esperava.
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