Atos 13:48
O Texto
Os gentios de Antioquia da Pisídia acabam de ouvir uma frase que muda tudo: já que a sinagoga rejeitou a mensagem, Paulo e Barnabé se voltam para eles, citando a promessa de que o Servo seria "luz dos gentios". A reação é imediata e física: "alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor". Não glorificam Paulo, nem a si mesmos por terem sido escolhidos como plano B; glorificam a palavra. E então vem a linha que divide comentaristas há séculos: "creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna". Num mesmo fôlego, Lucas coloca a alegria humana, o ato humano de crer, e uma ordenação que vem de fora do ser humano, de antes dele.
O Cerne
O que Lucas faz aqui é costurar duas coisas que nós insistimos em separar. Eles creram: é verbo ativo, decisão real, gente que ouviu e se rendeu. E estavam ordenados: Deus os havia designado, colocado em ordem, antes que soubessem o nome de Paulo. Lucas não sente a tensão que nós sentimos, e vale prestar atenção nisso. A eleição, na Escritura, quase nunca aparece como quebra-cabeça filosófico; aparece como remédio contra a arrogância e contra o desespero. Contra a arrogância porque ninguém pode transformar a fé em mérito próprio, num troféu de discernimento espiritual. Contra o desespero porque o crente descobre que sua fé frágil está apoiada numa decisão mais antiga e mais firme que ela. Repare no contraste imediato: no versículo 45, os que se julgavam donos da promessa se encheram de inveja; no 48, os que não tinham direito nenhum se encheram de alegria. A graça sempre produz esses dois efeitos, e o que ela produz em você revela onde você realmente está de pé.
O Fio Condutor
A citação que Paulo acabou de fazer no versículo 47 vem de Isaías, e ali era dirigida ao Servo do Senhor: "Eu te puz para luz dos gentios, para que sejas para salvação até aos confins da terra". Paulo aplica a si e a Barnabé o que foi dito de Cristo, não por presunção, mas porque a igreja carrega adiante a missão do seu Senhor. Aquilo que Deus prometeu a Abraão, que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas, está acontecendo numa sinagoga de província, num sábado qualquer, diante de pessoas sem pedigree religioso. O plano não mudou de rota por causa da rejeição judaica; a rejeição foi o instrumento pelo qual a promessa antiga transbordou para fora dos muros, exatamente como estava escrito.
O Espelho
Se você foi ordenado para a vida eterna antes de existir, algumas coisas ficam impossíveis de sustentar. Fica impossível o esnobismo espiritual com o colega que não crê, como se sua fé fosse fruto de inteligência superior; ele apenas ainda não ouviu o que você ouviu. Fica impossível medir seu valor pelo desempenho da semana, pelo salário, pelo corpo que envelhece, pela avaliação do chefe. E fica impossível também aquela ansiedade que ronda de madrugada, perguntando se você é suficiente. Mas há uma aresta: os gentios glorificaram a palavra, não a experiência que tiveram. Nossa espiritualidade adora falar do que sentimos. Eles falaram do que ouviram. Hoje, escreva numa folha uma frase da Escritura que sustentou você este ano, e a leia em voz alta, sozinho, antes de dormir.
A Pergunta
E os outros? Se creram todos quantos estavam ordenados, o que dizer dos que ficaram na sinagoga cheios de inveja? Lucas não resolve isso, e é honesto notar que ele não tenta. No versículo 46, Paulo diz aos que rejeitaram: "vos não julgaes dignos da vida eterna". A responsabilidade é deles, inteiramente. Duas frases separadas por dois versículos, e a Bíblia não as harmoniza para o nosso conforto. Quem quiser um sistema fechado terá de amputar uma das metades. O que a Escritura nos dá não é um mapa da mente eterna de Deus, mas um chamado: anuncie, e deixe que Deus faça o que só ele faz. A humildade aqui não é covardia intelectual; é reconhecer onde termina a nossa jurisdição.
O Personagem Principal
O protagonista deste versículo não é Paulo, que já saiu de cena, nem os gentios, que são plural anônimo. É Deus, agindo num verbo que aparece na voz passiva: estavam ordenados. Alguém ordenou. Esse Deus é o mesmo que suportou os costumes de Israel no deserto por quarenta anos, segundo o discurso de Paulo, e que levantou Davi e depois Jesus. Ele é paciente e é decidido. Não improvisa quando a sinagoga fecha a porta, porque a porta dos gentios já estava aberta em Isaías. E note o que ele faz com pessoas que ninguém escolheria: gente de fora, sem circuncisão, sem herança. Deus tem um gosto persistente por convocar quem o mundo religioso considerou dispensável.
O Detalhe
A palavra traduzida por "glorificavam" está no imperfeito: eles continuavam glorificando, não foi um arroubo de um momento. E o objeto é estranho: glorificavam a palavra do Senhor. Não se glorifica um texto; glorifica-se Deus. Mas Lucas escreve assim de propósito, porque em Atos a palavra é quase um personagem que cresce, se espalha, corre. No versículo seguinte ela se divulga por toda a província. O que aqueles gentios honraram não foi uma emoção que tiveram no sábado, mas a mensagem que os alcançou de fora, vinda de longe, atravessando séculos e um mar. É um bom teste para a nossa devoção: você celebra o que sente, ou o que lhe foi dito?
Reflexão
Onde, nesta semana, a graça produziu em você mais inveja do que alegria, e o que isso revela sobre onde você está apoiado?
Se sua fé foi decidida antes de você existir, o que exatamente você ainda está tentando provar, e para quem?
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Perguntas frequentes sobre Acts 13:48
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Senhor, quando me abrirem espaço para falar, dá me uma palavra que console e não que pese. E quando for a minha vez de ouvir, deixa meu coração aberto ao que preciso escutar, mesmo que venha de alguém que eu não esperava.
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