Atos 7
O Texto
Acusado diante do Sinédrio, Estêvão responde a uma pergunta simples ("Porventura é isto assim?") com a história inteira de Israel: Abraão chamado na Mesopotâmia, José vendido pelos irmãos, Moisés rejeitado pelos seus e depois enviado como libertador, o tabernáculo no deserto, o templo de Salomão. No fim, a narrativa se vira contra os ouvintes: "vós sempre resistis ao Espirito Sancto". Eles tapam os ouvidos, arrastam-no para fora da cidade e o apedrejam, enquanto Estêvão vê os céus abertos e pede perdão para os que o matam.
O Núcleo
Repare no detalhe que Estêvão escolhe logo no início: Deus prometeu a terra a Abraão e "não lhe deu n'ella herança, nem ainda o espaço de um pé". Um palmo sequer. O pai da fé morreu como hóspede num país que já era seu por promessa e ainda não por posse. Esse é o coração do discurso: o Deus da glória aparece fora da terra santa, fala em Ur, no Egito, num arbusto ardente no deserto de Midiã, e não se deixa prender a nenhum endereço. "O Altissimo não habita em templos feitos por mãos d'homens." Não é ateísmo do sagrado; é o contrário. Deus é santo demais para ser hospedado, e livre demais para ser localizado. O que resta ao homem é caminhar.
O Fio Condutor
Estêvão conta a história como quem repete um mesmo compasso: José, vendido pelos irmãos por inveja, torna-se aquele que os alimenta. Moisés, repelido com um "Quem te constituiu principe e juiz sobre nós?", é precisamente "a este enviou Deus como principe e libertador". Duas vezes o libertador é recusado por aqueles a quem foi enviado, e duas vezes Deus insiste. Estêvão não precisa explicar aonde vai; a terceira vez está diante deles, e eles são "traidores e homicidas" do Justo. Não é alegoria forçada, é o padrão que a própria Escritura repete. Deus salva através de alguém que os seus rejeitam. Quem entende José e Moisés já sabe ler a cruz.
O Espelho
Há uma frase que dói mais do que a acusação final: "elle cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; porém elles não entenderam". Moisés tinha razão e ninguém percebeu. Seguiram-se quarenta anos em Midiã, um casamento, dois filhos, ovelhas. Talvez você conheça esse compasso de espera: o dom que ninguém reconheceu, o projeto que morreu na gaveta, a década em que parecia que Deus tinha mudado de assunto. Estêvão não diz que aqueles anos foram desperdiçados nem que serviram para "amadurecer" Moisés. Diz apenas: passaram quarenta anos, e então o arbusto ardeu. A promessa é lenta e a terra continua alheia. Você consegue viver assim, sem o espaço de um pé?
Contexto
Estamos em Jerusalém, poucos anos depois da Páscoa em que Jesus morreu, diante do mesmo tribunal que o condenou. Estêvão pertence aos crentes de língua grega, judeus da diáspora, gente que crescera longe do templo e que por isso mesmo era suspeita de tê-lo em menor conta. A acusação era exatamente essa: falar contra o lugar santo e contra Moisés. Ele responde recitando a história sagrada, o que qualquer judeu piedoso reconheceria, e é justamente aí que a coisa se torna insuportável, porque a história, contada assim, mostra um povo que repetidamente não entendeu. Aos pés das testemunhas está um jovem chamado Saulo, guardando as roupas. Lucas planta a semente sem comentário.
A Pergunta
Se Deus "tem visto attentamente a afflicção" do seu povo e "ouvi os seus gemidos", por que desce só depois de quatrocentos anos? A promessa a Abraão já continha o cativeiro: "a sua descendencia seria peregrina em terra alheia, e a sujeitariam á escravidão, e a maltratariam por quatrocentos annos". Deus anuncia de antemão o sofrimento e não o evita. Estêvão não explica isso, e eu também não vou fingir que explico. O texto coloca lado a lado a atenção de Deus e a demora de Deus, sem resolver a tensão. Talvez o único gesto adequado seja o de Moisés diante da sarça: tirar as sandálias, tremer, não ousar olhar. Há perguntas que só se sustentam de joelhos.
O Protagonista
Estêvão morre falando. Cheio do Espírito, "fixando os olhos no céu", ele vê Jesus de pé à direita de Deus, não sentado, como se o Senhor se tivesse levantado para receber a sua testemunha. Enquanto as pedras caem, ele diz duas coisas: "Senhor Jesus, recebe o meu espirito" e "Senhor, não lhes imputes este peccado". São as palavras de Jesus na cruz, agora na boca de um discípulo, o que talvez seja a definição mais exata do que significa seguir Cristo. E depois vem o verbo mais surpreendente do capítulo inteiro: "adormeceu". Não pereceu, não sucumbiu. Dormiu. A violência teve a última pedra, mas não a última palavra.
Reflexão
Onde, na sua vida, você tem exigido de Deus "o espaço de um pé" de posse concreta, quando ele até agora lhe deu apenas promessa?
Estêvão pede perdão para quem o mata. Que nome tem, hoje, a pessoa por quem seria mais difícil você orar assim?
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Perguntas frequentes sobre Acts 7
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Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da milícia do céu." Repare que o castigo não foi fogo nem praga. Foi Deus soltar a mão e deixar que eles tivessem exatamente o que tanto queriam. Quarenta anos de sacrifícios no deserto, e nenhum deles chegou a Ele. Dá para manter a religião inteira funcionando e o coração já estar longe. Pergunte hoje a quem você está, de fato, oferecendo sua vida.
Pai, eu carrego coisas que não deveria: pequenos deuses de segurança, imagem, controle. Ajuda me a reconhecer o peso que arrasto e a soltar. Não quero adorar o que fiz com as próprias mãos. Quero teu rosto, só teu.
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