Ester 9
O Texto
O dia treze de adar chega, e o decreto que devia aniquilar os judeus se volta contra quem o tramou: "no dia em que os inimigos dos judeos esperavam assenhorear-se d'elles, succedeu o contrario". Em Susã e nas cento e vinte e sete províncias os judeus se defendem, matam milhares, enforcam os dez filhos de Hamã, e três vezes o narrador repete que não tocaram no saque. Depois vem o descanso, os banquetes, os presentes mútuos, as dádivas aos pobres, e Mardoqueu e Ester escrevem cartas instituindo o Purim como festa permanente.
O Núcleo
Este capítulo é sobre o que Deus faz com a sorte lançada contra os seus. Hamã havia lançado "pur, isto é, a sorte"; o acaso mais puro, o dado rolando sobre a mesa do império. E o livro inteiro termina chamando a festa pelo nome daquele dado. Não é ingenuidade: é confissão. O que parecia aleatório estava nas mãos de Alguém que o texto nunca nomeia e que está em cada reversão. Observe o vocabulário do versículo 22: "tristeza em alegria", "luto em dia de folguedo". Deus não apenas impede a catástrofe; ele inverte o sinal. Essa é a gramática da salvação em toda a Escritura, e aqui ela aparece sem um único milagre visível, apenas em cartas, decretos e coragem no momento certo.
O Fio Condutor
Hamã é chamado de "agagita", e isso não é enfeite genealógico. Agague era o rei amalequita, e Amaleque é o povo que Deuteronômio 25 manda lembrar justamente porque atacou Israel pelas costas, nos fracos e cansados. O conflito de Ester 9 é o último capítulo de uma inimizade antiga: há sempre alguém querendo apagar o povo da promessa, e a promessa sempre sobrevive, porque dela depende a vinda do Messias. Note também a forma da vitória: o mal "se tornasse sobre a sua cabeça", diz o versículo 25. O inimigo é derrotado pelo seu próprio instrumento. A cruz funciona assim. A forca que Hamã ergueu e a madeira em que Cristo morreu têm o mesmo efeito: o adversário é desfeito por aquilo que ele mesmo preparou.
O Espelho
Três vezes: "porém ao despojo não estenderam a sua mão". O decreto permitia o saque. Era legal, era devido, era compensação por anos de medo. E eles não pegaram. Pergunte-se por que isso incomoda. Porque você e eu conhecemos a tentação exata: quando finalmente ganhamos a discussão, quando o colega que nos sabotou é demitido, quando o irmão que nos feriu pede ajuda e nós temos o dinheiro. O espólio não é dinheiro, na maioria das vezes. É a última palavra. É contar a história para mais uma pessoa. É o prazer discreto de ver quem nos humilhou tropeçar. Esses judeus se defenderam e pararam ali, no limite exato da legítima necessidade, sem transformar a sobrevivência em lucro.
Hoje: escreva num papel o nome de quem lhe fez mal e, ao lado, a frase concreta que você vai deixar de dizer sobre essa pessoa. Depois queime ou rasgue o papel.
O Detalhe
O versículo 22 manda celebrar com banquetes, "de mandarem presentes uns aos outros, e aos pobres dadivas". Pense na estranheza disso. A festa que comemora ter escapado do extermínio não é instituída como culto, nem como monumento, nem como dia de silêncio. É instituída como circulação de comida. Quem foi poupado passa a dar. O medo encolhe a mão; a graça recebida a abre. E os pobres entram na lista por nome próprio, não como apêndice de caridade, mas como parte estrutural da memória: ninguém pode lembrar-se de ter sido salvo enquanto o vizinho faminto fica fora da mesa. Toda celebração cristã que não produz isso ainda não entendeu o que celebra.
O Intertexto
A recusa do despojo tem um precedente antigo. Em Gênesis 14, Abraão volta vitorioso da batalha e se nega a aceitar qualquer coisa do rei de Sodoma, para que ninguém pudesse dizer que fora Sodoma a enriquecê-lo. É o mesmo instinto: a vitória não deve ser contaminada pelo ganho. E a cadeia de Agague liga este capítulo a 1 Samuel 15, onde Saul poupa o rei amalequita e fica com o melhor do rebanho, exatamente o oposto do que acontece aqui. Onde Saul falhou, estes judeus anônimos nas províncias acertaram. A Escritura guarda memória longa, e às vezes a obediência aparece onde menos se espera, longe do templo, no fim do exílio, num império pagão.
A Pergunta
Setenta e cinco mil mortos. Não há como ler esse número com conforto, e quem o lê depressa não leu. O texto não diz que Deus ordenou; diz que os judeus se ajuntaram "para se pôrem em defeza da sua vida". Era isso ou o aniquilamento, porque no direito persa um decreto não se revogava. Mas Ester pede um segundo dia, e ali o leitor hesita, com razão. O livro não oferece absolvição teológica. Ele mostra como é a sobrevivência de um povo sem exército, sem terra e sem templo, e deixa a conta aberta. Talvez seja isso que o texto quer de nós: não aplaudir, mas reconhecer o preço que o mal cobra até de quem a ele resiste, e desejar com mais fome o Rei que venceu sem derramar o sangue de ninguém, exceto o seu.
Reflexão
Qual é, concretamente, o "despojo" que você tem direito de tomar nesta semana e que escolherá não tocar?
Sua gratidão por aquilo de que foi poupado chega a mudar o que sai da sua mão, ou fica parada na sua cabeça?
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Perguntas frequentes sobre Esther 9
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque os judeus se comprometeram a continuar o que já tinham começado. Agradeço por me ensinares a não largar pela metade o que recebi de ti, e por guardares na memória do teu povo os dias em que livraste do perigo e transformaste tristeza em festa.
Pai, obrigado pelos dias em que o medo passa e sobra alegria. Ensina-me a comemorar sem esquecer quem me livrou, e a repartir o que recebo, lembrando que a festa fica maior quando alguém se senta à mesa comigo.
Uma lista de nomes difíceis que a gente costuma pular na leitura: "a Parsandata, a Dalfom, a Aspata." Dez filhos de Hamã, cada um nomeado, nenhum diluído num número redondo. O ódio que o pai alimentou não ficou no gabinete dele, chegou à mesa de casa e formou dez corações parecidos com o seu. O que você cultiva em silêncio, alguém pequeno está aprendendo.
Obrigado, Senhor, pelo detalhe que o teu Livro não esquece: "porém no despojo não tocaram". Os teus guardaram a vida e as mãos limpas, sem lucrar com a queda de ninguém. Dá-me esse mesmo coração: defender o que é justo sem cobiçar o que não me pertence.
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