Explicação bíblica

Gênesis 3:6

Bíblia

O Texto

A mulher olha. E aquele olhar demora: a árvore é boa para comer, é bonita de ver, é desejável para dar entendimento. Três avaliações que ela faz sozinha, sem consultar ninguém, e que soam quase como a voz de Deus em Gênesis 1 dizendo que tudo era bom. Só que agora quem julga o que é bom é a criatura, diante da única coisa que lhe fora proibida. Então vêm os verbos, curtos, sem hesitação: "tomou do seu fructo, e comeu, e deu tambem a seu marido comsigo, e elle comeu." Quatro ações e o mundo muda. O texto não descreve o gosto, não descreve o remorso imediato, não descreve trovão nenhum. Apenas: tomou, comeu, deu, comeu. E o marido, que estava ali o tempo todo, não diz uma palavra.

O Cerne

O pecado aqui não entra como monstro, entra como bom senso. Repare que nada do que a mulher vê é falso: a árvore realmente era boa, realmente era bela, realmente daria uma espécie de conhecimento. A serpente não mentiu sobre os fatos, mentiu sobre a fonte. A questão não é se aquilo era desejável, mas quem tem o direito de decidir o que é bom. Deus criou o ser humano para receber a vida como dom, e o pecado é a mão que se estende para pegar aquilo que só pode ser recebido. Por isso Gênesis não nos dá um crime espetacular, mas um almoço. A queda acontece na mesa, no gesto mais cotidiano que existe, e é exatamente aí que ela nos alcança.

O Fio Condutor

Guarde esses dois verbos: tomou e comeu. Eles atravessam a Bíblia como uma cicatriz. E é impressionante que a resposta de Deus comece já três versos adiante, quando ele diz à serpente que a semente da mulher "te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar". A promessa nasce no mesmo capítulo do desastre, e nasce apontando para alguém que virá do lado humano da história. Paulo, em Filipenses 2, descreve Jesus fazendo exatamente o inverso do que acontece aqui: sendo igual a Deus, não considerou isso algo a ser agarrado, mas se esvaziou. Onde a criatura estendeu a mão para tomar, o Filho abriu a mão para dar. E numa outra mesa, numa noite de traição, ele toma o pão, o parte e o dá, invertendo o gesto de Éden por dentro: agora o que se recebe das mãos de outro é vida, não morte.

O Espelho

Você reconhece a lógica dos três argumentos, porque ela é a sua. É boa: aquele cargo realmente vai sustentar a família. É agradável aos olhos: aquela conversa realmente te faz sentir vivo de um jeito que seu casamento não faz há anos. É desejável para dar entendimento: aquele atalho na declaração de imposto, aquela informação sobre um colega, aquela série que você assiste sozinho depois que todos dormem, tudo isso realmente te ensina algo sobre o mundo. O pecado quase nunca chega dizendo "escolha o mal". Chega com uma planilha de motivos razoáveis. E chega, como aqui, num momento em que ninguém está te contradizendo, porque o marido está do seu lado e continua calado. Hoje, antes de dormir: escreva num papel a única coisa que você tem justificado com esses três argumentos, diga em voz alta "isto não é meu para tomar" e rasgue o papel.

O Detalhe

"E deu tambem a seu marido comsigo." Essa palavrinha, "comsigo", traduz um hebraico simples, immah, "com ela". Ele estava ali. Não foi chamado de outro canto do jardim, não chegou depois, não foi enganado por trás das costas dela. Ele acompanhou o diálogo inteiro com a serpente, ouviu a distorção do mandamento, ouviu o "certamente não morrereis", viu o olhar demorado da mulher para a árvore, e não abriu a boca. O homem que dera nome a todos os animais não teve uma sílaba para aquele. Seu único ato é comer. E quando Deus o interroga, aparece a frase mais covarde do capítulo: "A mulher que me déste por companheira, ella me deu da arvore". O silêncio cúmplice sempre se transforma, depois, em acusação.

Contexto

Tudo isso acontece dentro de um jardim que a narrativa apresenta como espaço de encontro, onde Deus caminha "pela viração do dia" como quem visita amigos ao fim da tarde. O mandamento sobre a árvore no meio do jardim tinha sido dado antes de a mulher ser formada, o que significa que ela o conhecia de segunda mão, por meio do marido, e é notável que a versão que ela repete à serpente venha com um acréscimo: "nem n'elle tocareis". A proibição já tinha engordado na transmissão. A serpente é apresentada como a mais astuta dos animais do campo, ou seja, uma criatura, não um poder rival. Não há dualismo aqui. Há um animal falante, uma pergunta insinuante e dois seres humanos livres diante de uma única fronteira num mundo inteiro de permissões.

O Perfil

Israel ouviu esta história como um povo que já sabia de cor o que é ver, desejar e tomar. Eram pessoas colocadas diante de uma terra boa, com o mandamento de Deus numa mão e os cultos de fertilidade cananeus na outra, e Deuteronômio lhes apresenta a mesma estrutura de Éden: a vida e a morte postas diante de você, escolha. Para eles, o casal do jardim não era mitologia distante, era autobiografia nacional. Cada vez que alguém escondeu despojo debaixo da tenda, cada vez que o rei tomou a mulher do vizinho, o padrão de Gênesis 3:6 se repetiu. E quem ouvia entendia o recado incômodo: o exílio da terra não começou com os babilônios, começou com uma mão estendida para uma fruta.

Reflexão

Qual foi a última vez que você silenciou como o homem silenciou, presente e sem dizer nada, enquanto algo errado acontecia ao seu lado?

Onde, na sua vida desta semana, você está julgando por conta própria o que é bom, em vez de receber de Deus a definição do bem?

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Perguntas frequentes sobre Genesis 3:6

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Gênesis 3:6?
A mulher olha. E aquele olhar demora: a árvore é boa para comer, é bonita de ver, é desejável para dar entendimento. Três avaliações que ela faz sozinha, sem consultar ninguém, e que soam quase como a voz de Deus em Gênesis 1 dizendo que tudo era bom. Só que agora quem julga o que é bom é a criatura, diante da única coisa que lhe fora proibida.
Sobre o que fala Gênesis 3:6?
Guarde esses dois verbos: tomou e comeu. Eles atravessam a Bíblia como uma cicatriz. E é impressionante que a resposta de Deus comece já três versos adiante, quando ele diz à serpente que a semente da mulher "te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar". A promessa nasce no mesmo capítulo do desastre, e nasce apontando para alguém que virá do lado humano da história.
Qual é o contexto histórico de Gênesis 3:6?
"E deu tambem a seu marido comsigo." Essa palavrinha, "comsigo", traduz um hebraico simples, immah, "com ela". Ele estava ali. Não foi chamado de outro canto do jardim, não chegou depois, não foi enganado por trás das costas dela.
O que Gênesis 3:6 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Israel ouviu esta história como um povo que já sabia de cor o que é ver, desejar e tomar. Eram pessoas colocadas diante de uma terra boa, com o mandamento de Deus numa mão e os cultos de fertilidade cananeus na outra, e Deuteronômio lhes apresenta a mesma estrutura de Éden: a vida e a morte postas diante de você, escolha.
Como Gênesis 3:6 continua relevante hoje?
Onde, na sua vida desta semana, você está julgando por conta própria o que é bom, em vez de receber de Deus a definição do bem?
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Oração Editorial em versículo 19

Pai, lembro que sou pó, e isso não me assusta tanto quanto me acalma. O trabalho cansa, os dias pesam, e ainda assim o pão vem. Ensina-me a viver sem fingir que sou eterno, confiando que a terra de onde vim está nas tuas mãos.

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