Hebreus 11:6
O Texto
Depois de mencionar Enoque, que agradou a Deus e foi arrebatado sem ver a morte, o autor interrompe a galeria de retratos para explicar o princípio que sustenta todos eles: "sem fé é impossivel agradar a Deus". Quem se aproxima de Deus precisa crer em duas coisas ao mesmo tempo: que ele existe, e que "é galardoador dos que o buscam". Não basta admitir que há um Deus; é preciso confiar que buscá-lo não é desperdício. Repare que o versículo não define fé como sentimento nem como esforço religioso, mas como a convicção que torna possível a aproximação. É a condição de entrada, dita a pessoas que estavam considerando seriamente dar meia-volta e sair.
O Cerne
O verbo traduzido por "approxima-se" carregava, para aqueles ouvintes, cheiro de sangue e incenso. Era a palavra do sacerdote que subia os degraus do altar. Eles conheciam aquele mundo: quem se aproximava errado, morria. Havia cortinas, lavatórios, horários, castas. E agora o autor diz que o que torna alguém aceitável diante de Deus não é a linhagem levítica nem a pureza ritual, mas a fé. Isso era, ao mesmo tempo, libertador e desconcertante. Libertador porque abre a porta a qualquer um, inclusive a Raabe, que aparece alguns versículos adiante. Desconcertante porque tira o chão de quem preferia protocolos verificáveis. Deus não pede performance; pede confiança de que ele está lá e de que responde a quem o procura. E isso, curiosamente, é mais difícil de fingir.
O Fio Condutor
Vale lembrar a quem isso foi escrito: gente de origem judaica que já havia sofrido por causa de Cristo e agora sentia falta do que era visível. O templo ainda funcionava, ou funcionara havia pouco. Ali se via a fumaça, ouvia-se o balido dos cordeiros, sabia-se exatamente o que fazer para estar em paz com Deus. A comunidade cristã, em comparação, não tinha altar visível, nem sacerdote de vestes bordadas, nem calendário público. Só uma promessa e um Homem que morrera fora dos portões. O autor está dizendo: essa aparente pobreza é o caminho antigo, o mesmo de Abel, de Enoque, de Abraão. Nenhum deles teve templo. Todos se aproximaram crendo. E Cristo é justamente aquele que tornou a aproximação definitiva, não uma vez por ano, mas de uma vez por todas.
O Espelho
Você provavelmente não duvida da existência de Deus. A maioria de nós não acorda ateia. O ponto onde a fé range é o segundo: que ele é galardoador dos que o buscam. Você ora há sete anos pelo mesmo filho e nada muda. Você escolheu a honestidade num trabalho onde ela custa promoção. Você cuida de alguém que não vai melhorar, e ninguém vê. E lá no fundo se instala a suspeita mais corrosiva da vida cristã: não que Deus não exista, mas que ele não esteja pagando. Que buscá-lo seja um investimento mal feito. O texto não responde com argumentos; responde com uma afirmação sobre o caráter de Deus. Hoje, escreva num papel a coisa que você já quase parou de pedir, e diga em voz alta, olhando para ela: "Creio que buscar-te não é desperdício."
O Detalhe
"Galardoador" traduz uma palavra grega rara, misthapodótes, que significa literalmente aquele que paga o salário. Não é linguagem de templo; é linguagem de canteiro de obras. É o dono da vinha ao entardecer, com a bolsa na mão, chamando os diaristas um a um. Os primeiros ouvintes conheciam a angústia do trabalhador que não sabia se receberia: sem contrato, sem tribunal acessível, dependendo inteiramente da palavra do patrão. Dizer que Deus é misthapodótes é dizer que ele não é um patrão que some no fim do dia. Mas cuidado: o texto não diz o que ele paga, nem quando. Diz apenas quem ele é. A fé não calcula o valor da recompensa; confia no caráter de quem paga.
A Pergunta
E se a recompensa não vier? O próprio capítulo enfrenta isso sem disfarce. Alguns fecharam a boca dos leões; outros foram "apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada". A mesma fé, resultados opostos. E o veredito final é brutal na sua honestidade: "todos estes, tendo testemunho pela fé, não alcançaram a promessa". O galardoador não pagou em vida. Não há como suavizar isso, e o autor nem tenta. O que ele oferece é uma reorientação do prazo: "Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito." A recompensa existe, mas fora do tempo em que gostaríamos de conferi-la. Quem exige o pagamento dentro do próprio ciclo de vida vai concluir que Deus é mau pagador. Quem crê, espera. E sim, isso continua doendo.
O Intertexto
Em Gênesis 15, depois que Abrão recusa o butim do rei de Sodoma e fica de mãos vazias, Deus lhe aparece e se apresenta como seu escudo e seu grandíssimo galardão. Não diz que dará uma recompensa; diz que ele mesmo é a recompensa. Isso resolve o mal-entendido comercial que o versículo 6 poderia criar: o salário não é uma coisa que Deus entrega, é Deus entregando-se. Do outro lado está o Salmo 73, onde o poeta olha para os ímpios prósperos e conclui amargamente que purificou o coração em vão. Ele quase desiste, até entrar no santuário e ver o fim. Os dois textos cercam Hebreus 11:6 pelos dois lados: a promessa de que Deus é o prêmio, e a confissão sincera de que às vezes não parece.
Reflexão
Se Deus é o galardão, e não apenas quem entrega galardões, o que exatamente você tem pedido nos últimos anos?
Qual dos dois lados do versículo é mais difícil para você hoje: crer que ele existe, ou crer que ele responde a quem o busca?
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Pela fé, Isaque abençoou Jacó e Esaú, mesmo quanto a coisas futuras." Isaque estava velho, cego, e tinha sido enganado. Mesmo assim, entregou aos filhos um futuro que ele jamais veria. Você também abençoa gente que vai colher depois que você partir. Que palavra você tem deixado sobre os seus?
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