Isaías 29:14
O Texto
Deus acaba de dizer que este povo o honra com a boca enquanto o coração vagueia longe, e que a reverência que lhe prestam não passa de rotina aprendida com outras pessoas. A resposta divina é desconcertante: em vez de castigo direto, vem uma obra. "Portanto eis-que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio d'este povo; uma obra maravilhosa e um assombro, porque a sabedoria dos seus sabios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá." Deus vai agir de tal modo que os especialistas em religião ficarão sem saber ler a própria situação. O que os sábios de Jerusalém julgavam dominar simplesmente desaparece nas mãos deles.
O Cerne
O versículo liga duas coisas que normalmente separamos: culto morno e colapso intelectual. A religião de lábios do versículo 13 não é ateísmo, é competência. Gente que sabe os horários, as fórmulas, os sacrifícios, gente instruída "em mandamentos de homens". Deus não responde a isso com um sermão sobre sinceridade, mas retirando o chão do saber religioso. Quando o coração se ausenta, o entendimento acaba por seguir. É uma afirmação dura sobre nós: conhecer bem a doutrina não protege contra a distância de Deus, e a distância de Deus acaba por corroer o próprio conhecimento. A fé não é um arquivo que se conserva; é uma relação que, quando esvaziada, também esvazia a cabeça.
O Fio Condutor
Paulo cita exatamente esta frase em 1 Coríntios 1, aplicando-a à cruz. Não é um uso forçado: a cruz é precisamente a obra que faz perecer a sabedoria dos sábios, porque nenhum sistema religioso ou filosófico previa um Messias executado. Os que melhor conheciam as Escrituras foram os que menos reconheceram o momento. O padrão de Isaías repete-se com exatidão terrível. E o mesmo capítulo aponta para o outro lado da moeda: os surdos ouvirão as palavras do livro e os cegos verão (v. 18). Deus não destrói o entendimento por crueldade, mas para o devolver a quem não o reivindicava. A obra que humilha o perito é a mesma que abre os olhos do mendigo.
O Espelho
Onde é que você é competente demais para ser ensinado? Talvez na igreja, onde já ouviu tudo e escuta a pregação a corrigi-la mentalmente. Talvez em casa, onde tem o seu cônjuge e os seus filhos analisados, catalogados, previstos, e por isso já não os ouve. Talvez no dinheiro, onde a sua prudência é impecável e a sua generosidade é calculada ao cêntimo. Este texto não ataca a inteligência; ataca a inteligência que se tornou defesa contra Deus. E a prova está no relógio: se ora pouco mas explica bem, se aconselha muito mais do que confessa, se corrige os outros mais depressa do que se deixa corrigir, então a sabedoria de que se orgulha já começou a perecer sem que dê por isso.
O Protagonista
O protagonista aqui é Deus, e o que impressiona é o modo como age. Não grita, não ameaça com exércitos neste versículo. Diz: "continuarei". Vai prosseguir com uma obra que já começara. Há nele uma paciência que assusta mais do que a ira, porque não desiste de um povo que só lhe dá a boca. Ao mesmo tempo, recusa-se a ser gerido. O deus dos religiosos de Jerusalém era administrável, previsível, encaixado nas regras herdadas. O Deus real quebra esse encaixe do lado de dentro, no meio do povo, não de fora. Ama demasiado para deixar que o reduzam a uma tradição bem organizada, e a sua ternura, aqui, tem a forma de uma perplexidade imposta.
O Detalhe
Repare no verbo aplicado ao entendimento: não perece como a sabedoria, "se esconderá". Não é destruído; retira-se. Como alguém que sai da sala sem fechar a porta com estrondo. Isso descreve com precisão o que acontece a quem vive de religião de superfície: não há um momento dramático de perda de fé, há um afastamento silencioso da capacidade de compreender. Continua a citar textos, a liderar o grupo, a preparar o estudo, e por dentro já não percebe nada do que está a dizer. O escondimento também sugere que o entendimento continua a existir, algures, à espera. Pode ser reencontrado. Mas não pela via que o perdeu.
Contexto
Estamos em Jerusalém, provavelmente nos anos em que Ezequias e os seus conselheiros negociavam apoio militar egípcio contra a Assíria. A cidade chama-se aqui "Ariel", a cidade onde Davi acampou, cheia de calendário litúrgico: "accrescentae anno a anno, e sacrifiquem sacrificios festivos". O templo funcionava, os sacerdotes trabalhavam, os conselheiros faziam política realista e secreta, "ás escuras", como diz o versículo 15. A elite sábia de Jerusalém era genuinamente capaz, formada na tradição sapiencial, treinada em diplomacia. Isaías fala contra pessoas respeitáveis, no auge da sua competência, num tempo de perigo real. É isso que torna o texto perigoso para nós: não visa os desleixados, visa os que fazem tudo bem.
Reflexão
Em que área da sua vida você já não espera ser surpreendido por Deus, porque acha que já sabe como aquilo funciona?
Quando foi a última vez que mudou de opinião sobre algo importante por causa de um texto bíblico, e não apenas confirmou o que já pensava?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, há dias em que ando meio atordoado, sem ter bebido nada, apenas cansado e confuso demais para enxergar o Senhor. Tira essa névoa dos meus olhos. Me acorda, me firma os passos e devolve a clareza que perdi pelo caminho.
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