Jeremias 1:19
O Texto
Depois de prometer a Jeremias que faria dele cidade fortificada, coluna de ferro e muro de bronze contra a terra inteira, Deus acrescenta a frase que fecha o chamado: "E pelejarão contra ti, mas não prevalecerão contra ti; porque eu estou comtigo, diz o Senhor, para te livrar." Não é promessa de paz. É promessa de resistência dentro do combate, garantida pela presença de quem envia.
O Cerne
Repare no que Deus não promete. Não promete que ninguém lutará contra Jeremias. Não promete popularidade, nem que o rei ouvirá, nem que o povo se converterá. Promete apenas isto: o ataque virá e não vencerá. A conjunção "mas" carrega todo o peso da vocação profética. Aqui se desfaz aquela teologia doméstica segundo a qual, se estou no caminho certo, as portas se abrem sozinhas. Jeremias está exatamente onde Deus quer, e por isso será atacado. A segurança do profeta não está na ausência de inimigos nem na sua própria têmpera, mas numa presença: "eu estou comtigo". A força vem de fora dele. Tudo o que ele é de ferro e de bronze, foi Deus quem pôs.
O Fio Condutor
Séculos depois, outro Filho da promessa disse aos seus discípulos que edificaria a sua igreja e que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. O verbo é o mesmo movimento: atacar sem conseguir. Jesus não prometeu ausência de assalto, prometeu ausência de vitória do assalto. E ele próprio percorreu o caminho de Jeremias até ao fim, rejeitado pelos sacerdotes, pelos príncipes e pelo povo da terra, exatamente a lista de opositores do versículo anterior. Só que, no caso de Cristo, o "não prevalecerão" passou pela sepultura antes de se cumprir. Isto ensina-nos a ler a promessa de Jeremias com honestidade: o livramento de Deus não anula a cruz, atravessa-a.
O Espelho
Você conhece o medo que este versículo trata, e não é medo de martírio. É o medo de dizer numa reunião de trabalho aquilo que sabe ser verdade e ficar sozinho na sala. É o receio de contrariar o seu pai, o seu chefe, o grupo do bairro. É a conversa que adia há três semanas com o seu filho adolescente porque tem medo da reação dele. Por baixo, há uma convicção silenciosa: se eu falar, eu perco. E há também um orgulho escondido, que é o avesso do medo: a ideia de que preciso de ser suficientemente forte para aguentar. Deus não pede a Jeremias que seja forte, declara que o fez muro de bronze. A libertação começa quando aceita que a solidez não é sua e que, mesmo assim, vão pelejar contra si.
Faça isto hoje: escreva num papel o nome da pessoa ou da situação diante da qual costuma calar-se, e leia em voz alta, com esse nome à sua frente, "pelejarão contra ti, mas não prevalecerão contra ti; porque eu estou comtigo".
O Perfil
Jeremias é filho de sacerdote, de Anatote, uma aldeia a poucos quilómetros de Jerusalém. Sabe exatamente contra quem Deus o coloca, porque conhece essa gente pelo nome. Os primeiros a lerem estas palavras, porém, foram provavelmente pessoas que já tinham visto a cidade cair e viviam no exílio ou entre as ruínas. Para eles, a frase "não prevalecerão contra ti" tinha um sabor amargo e ao mesmo tempo consolador. Eles tinham perdido tudo, e no entanto o profeta cujas palavras foram queimadas, cujo corpo foi metido em cisterna, continuava a falar através daquele rolo. Os reis que o atacaram tinham desaparecido. A palavra permaneceu. Foi assim que perceberam o que significa não prevalecer.
O Detalhe
"Para te livrar." O verbo hebraico é natsal, que significa arrancar, puxar para fora, como se tira uma ovelha da boca do leão. Não é proteger antes de acontecer, é retirar de dentro. A imagem pressupõe que Jeremias estará agarrado, na boca do perigo, e que a mão de Deus entra ali para o puxar. Note ainda que esta frase é uma repetição: já aparecia no versículo 8, antes de Deus tocar na boca do profeta. Deus diz o mesmo duas vezes, e no meio coloca a comissão inteira. É a moldura do chamado. Tudo o que Jeremias vai fazer, arrancar e derribar, edificar e plantar, cabe entre duas promessas idênticas de livramento.
A Pergunta
Então porque é que Jeremias acabou arrastado para o Egito por gente que desprezou a sua palavra, sem esposa, sem filhos, sem discípulos, sem um único rei convertido? Se aquilo é ser livrado, o que seria não ser livrado? Não há maneira honesta de suavizar isto. O próprio Jeremias acusará Deus mais tarde de o ter enganado. A resposta que o livro dá, e não é confortável, é que ser livrado significa não ser silenciado nem quebrado por dentro. Deus garante que a boca continuará a falar a palavra dele até ao fim, não que a vida será poupada ao custo dela. É pouco, para quem quer garantias. É tudo, para quem quer ser fiel.
Reflexão
Onde é que, na sua vida, tem confundido "Deus está comigo" com "isto vai correr bem"?
Se a promessa fosse apenas que não será silenciado, e não que será poupado, aceitaria ainda assim a tarefa que sabe que Deus lhe deu?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Ao qual veio a palavra do SENHOR, nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado." Deus não fala no vago. Ele marca o ano, o rei, o momento. Sua voz entrou num calendário como entra no seu. Que ano é este para você? Talvez seja justamente nele que a palavra chega.
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