Jeremias 17:13
O Texto
Há uma mudança de voz no meio deste versículo que quase ninguém percebe na primeira leitura: começa como oração dirigida a Deus ("Ó Senhor, Esperança d'Israel!"), passa por uma sentença sobre "aquelles que te deixam", e de repente é o próprio Deus quem fala: "os que se apartam de mim serão escriptos sobre a terra". Jeremias reza e Deus responde dentro da mesma frase, sem aviso.
O conteúdo é simples e devastador. Quem abandona o Senhor fica exposto à vergonha; seus nomes são escritos no pó, e não em pedra. E a razão vem no final, quase como suspiro: "porque deixam ao Senhor, a fonte das aguas vivas". Não é castigo arbitrário. É a consequência de virar as costas para a única nascente que existe.
O Cerne
Repare no que Deus não diz. Não diz que os apóstatas serão apagados, riscados, esquecidos. Diz que serão "escriptos sobre a terra", escritos no chão. Ainda estão escritos. Ainda têm nome diante dele. Mas escritos onde o primeiro vento desfaz, onde a primeira chuva dissolve. É uma imagem de fragilidade, não de aniquilação, e essa distinção merece silêncio antes de qualquer explicação apressada.
O versículo diz algo sobre Deus que o restante do capítulo já vinha preparando: ele é fonte, não cisterna. A água viva, em hebraico, é literalmente água que corre, água que se move, oposta à água parada e guardada. Abandonar Deus não significa perder um benefício entre outros. Significa escolher a sede como forma de vida, e depois estranhar o deserto.
O Fio Condutor
A imagem da fonte não nasce aqui e não termina aqui. Jeremias já havia acusado o povo, no capítulo 2, de dois males ao mesmo tempo: abandonar a nascente e cavar cisternas rachadas que não seguram água. É a diferença entre receber e armazenar, entre depender e controlar. Séculos depois, um homem sentado à beira de um poço em Samaria oferece a uma mulher uma água que se torna nela fonte, brotando de dentro. Não é coincidência de vocabulário; é a mesma promessa alcançando seu destino. E há quem lembre, ao ler "escriptos sobre a terra", daquela outra cena em que Jesus se abaixa e escreve no chão diante de acusadores prontos a apedrejar. O texto não explica o que ele escreveu. Talvez o silêncio ali seja proposital, como aqui.
O Espelho
O versículo cinco deste mesmo capítulo já havia dito de onde vem o problema: pôr "a carne por seu braço". Não se trata de ateísmo declarado. Trata-se do que você consulta primeiro quando algo desmorona. O extrato bancário. A opinião do chefe. O silêncio do seu cônjuge à mesa. O número de pessoas que reagiram ao que você publicou. Nada disso é mau; tudo isso é cisterna. Segura água por algum tempo e depois trinca sem avisar, geralmente numa quarta-feira comum, no meio da rotina. A pergunta que este versículo faz não é se você acredita em Deus. É onde você tem bebido nos últimos trinta dias.
Hoje, antes de dormir: escreva com o dedo, no vidro embaçado do banheiro ou na poeira de um móvel, o nome daquilo em que você tem confiado no lugar de Deus. Olhe por um instante. Depois apague com a mão e diga em voz alta que quer beber da fonte.
O Perfil
Os primeiros ouvintes eram gente que teria dito amém ao versículo anterior sem pestanejar: "Um throno de gloria e altura, desde o principio, é o logar do nosso sanctuario". O templo estava de pé, os sacrifícios continuavam, a cidade tinha muros. Eles se sentiam seguros justamente por causa da religião. E numa cultura em que honra e vergonha valiam mais do que dinheiro, ouvir que seriam "envergonhados" era ouvir que perderiam o rosto diante de todos os vizinhos, dos parentes, das nações. Pior: ter o nome escrito no pó, e não nos registros da cidade, significava não pertencer mais. Não é fúria divina gritada. É a constatação serena de quem já sabe como aquilo termina.
O Detalhe
Volte ao versículo um. O pecado de Judá está escrito "com um ponteiro de ferro, com ponta de diamante", gravado na tábua do coração. Duro, permanente, impossível de raspar. Agora leia o versículo treze: os nomes dos que abandonam o Senhor são escritos na terra. A ironia é de tirar o fôlego. Aquilo que o povo achava passageiro, o pecado, ficou gravado em diamante; aquilo que julgavam permanente, o próprio nome, a própria identidade, foi parar na poeira. Invertemos as coisas sem perceber. Tratamos nossa culpa como algo que o tempo dissolve e nossa reputação como algo que dura. Deus vê o contrário, e este capítulo diz isso duas vezes, com doze versículos de distância.
Contexto
Estamos em Jerusalém, nas últimas décadas antes de 586 a.C. A Assíria caiu, a Babilônia sobe, e o pequeno reino de Judá aposta ora no Egito, ora em promessas de estabilidade. Jeremias prega nos portões por onde entram os reis, exatamente como o Senhor lhe ordena mais adiante neste mesmo capítulo. É um lugar público, de comércio e julgamento, onde ninguém pediu sermão. Em uma terra onde a chuva decide se haverá pão, falar de fonte, seca, raízes e água salgada não é poesia decorativa: é vocabulário de sobrevivência. O profeta está isolado, zombado, e no versículo quatorze ele mesmo pede cura. Quem anuncia a fonte também tem sede.
Reflexão
O que você faria diferente esta semana se soubesse que seu pecado está gravado em diamante e seu nome está escrito na poeira?
Quando foi a última vez que você teve sede de Deus, e não apenas necessidade de que Deus resolvesse algo?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor."
Jeremias falava a um povo que corria para o Egito, para ídolos, para qualquer coisa que parecesse mais segura que Deus. E no meio disso, ele mostra o contraste: existe uma bênção reservada para quem simplesmente confia.
Note que não é confiar em si mesmo, nem confiar que Deus vai fazer o que você quer. É confiar Nele. A confiança e o objeto da confiança são a mesma pessoa.
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