Jó 26
O Texto
Jó corta a palavra de Bildade com três perguntas carregadas de ironia: que ajuda foi essa que você deu ao fraco? que conselho foi esse ao que não tem sabedoria? de quem é o espírito que falou pela sua boca? E então, sem transição, ele se lança num hino: os mortos tremem debaixo das águas, o abismo está descoberto diante de Deus, a terra pende sobre o nada, as nuvens seguram oceanos sem se rasgar, as colunas do céu estremecem com uma ameaça. No fim, o golpe: tudo isso são apenas as franjas dos caminhos de Deus.
O Núcleo
O ponto não é que Deus seja grande. Os amigos de Jó também diriam isso, e com mais piedade na voz. O ponto é que Jó recita a grandeza de Deus como quem devolve uma arma apontada contra si. Bildade acabara de usar a majestade divina para esmagar Jó ("como seria justo o homem diante de Deus?"), e Jó responde: eu conheço essa doutrina melhor do que você, e ela não explica nada da minha situação. A teologia correta na boca errada vira violência. E o verso 14 desarma toda pretensão: se o que sabemos de Deus são apenas "as bordas dos seus caminhos", então ninguém pode usar esse conhecimento como régua para medir o sofrimento alheio.
O Fio Condutor
Jó pinta um Deus que domina o caos: fende o mar, abate a soberba, forma a serpente enroscada. O leitor antigo ouvia aqui ecos da velha história do combate contra o monstro marinho, e ouvia também o eco de Gênesis, onde o Espírito paira sobre as águas sem rosto e a ordem nasce da palavra. O mar, na Bíblia, nunca é só água; é a ameaça que o ser humano não consegue domar. Por isso é tão significativo que, séculos depois, um homem cansado se levante num barco e fale com o vento como quem repreende um cão. Os discípulos perguntam quem é esse. Jó 26 é parte da resposta: aquele que pisa as costas do mar está ali, dormindo na popa.
O Espelho
Existe um tipo de conversa que todos nós já tivemos, dos dois lados. Alguém está destruído pela demissão, pelo diagnóstico, pelo filho que não volta para casa, e nós oferecemos uma verdade impecável no momento mais inoportuno possível. Tudo o que dissemos era bíblico. Nada daquilo ajudou. Jó nomeia isso sem rodeios: você sustentou o braço que não tinha vigor? Observe que ele não acusa Bildade de heresia, mas de inutilidade. Também há o outro lado do espelho: o conforto secreto de dominar a doutrina, a sensação de pisar firme enquanto o outro afunda. Hoje: escolha uma pessoa que está passando por algo pesado, ligue ou mande uma mensagem e faça apenas uma pergunta sobre como ela está, sem acrescentar nenhum versículo.
O Protagonista
O Deus deste capítulo é terrivelmente livre. Ele pendura a terra sobre o nada, um verso que choca justamente porque todo povo antigo precisava de alicerces, de pilares, de uma tartaruga cósmica, de qualquer coisa sólida debaixo dos pés. Jó diz: não há nada. Só a mão dele. E ao mesmo tempo esse Deus "encobre a face do seu throno", esconde-se atrás da nuvem. Ele vê tudo, inclusive o mundo dos mortos, de onde ninguém traz notícias, mas não se deixa ver. Jó não está consolado por isso; está impressionado e perturbado ao mesmo tempo. É a fé de um homem que continua falando de Deus com reverência enquanto sangra por causa dele.
O Intertexto
A palavra que o Almeida traduz como "soberba" no verso 12 é, no hebraico, Rahab, o nome do monstro do caos, o mesmo que aparece nos Salmos quando Israel canta a divisão do Mar Vermelho. Para o primeiro ouvinte isso não era folclore inofensivo: era o nome do pavor. E Jó o usa como objeto direto de um verbo de Deus. Compare com Gênesis 1, onde não há combate algum, apenas uma palavra sobre o abismo. A Escritura fala as duas línguas: a do mito desmontado e a da soberania serena. Jó, no meio da sua dor, precisa da primeira. Ele precisa de um Deus que lute, porque ele mesmo está lutando.
A Pergunta
Se Deus desnuda o abismo e segura oceanos em nuvens finíssimas, por que não desnuda o caso de Jó? O capítulo termina em "quão pouco é o que temos ouvido d'elle", e isso pode soar como uma rendição elegante demais. Mas repare no que Jó não faz: ele não diz que o mistério resolve a injustiça. Ele apenas constata que ouvimos um sussurro e não o trovão. Fica de pé a possibilidade perturbadora de que a resposta exista e nos seja inacessível, e Jó vive com isso sem se calar e sem mentir. A fé aqui não é compreensão; é permanecer no mesmo cômodo que Deus, de olhos abertos.
Reflexão
Quando foi a última vez que você usou algo verdadeiro sobre Deus para encerrar uma conversa em vez de sustentar uma pessoa?
Se o que você sabe de Deus são apenas "as bordas dos seus caminhos", o que isso muda na certeza com que você interpreta a própria história?
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Perguntas frequentes sobre Job 26
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Como ajudaste o fraco! Como salvaste o braço sem força!" Jó fala com ironia amarga. Bildade tinha falado bonito sobre Deus, mas não tocou na ferida de um homem destruído. Pense em quem você tentou consolar esta semana. Suas palavras estavam certas ou foram úteis? Às vezes o braço sem força só precisa de alguém que se sente perto e cale.
Jó está sentado sobre cinzas, o corpo ferido, e mesmo assim ergue os olhos: "Pelo seu sopro aclarou os céus, a sua mão traspassou a serpente veloz." Um sopro basta para limpar o céu carregado. O monstro que te parece invencível já foi alcançado por aquela mão. Quantas nuvens Ele já desfez na tua vida sem que você percebesse?
Ele encobre a face do seu trono e sobre ele estende a sua nuvem." Jó diz isso enquanto ainda espera uma explicação que nunca vem por inteiro. A nuvem não significa que o trono está vazio. Significa que há Alguém sentado ali que você não consegue enxergar agora. Você aguenta amar um Deus que não se explica?
A quem proferiste palavras? E de quem é o espírito que saiu de ti?" Jó não contesta a teologia de Bildade, contesta a origem dela. É possível dizer coisas corretas sobre Deus e mesmo assim não estar falando por Ele. Antes de aconselhar quem sofre, pergunte: de onde vem isto que vou dizer, e chega a quem?
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