João 13:1
O Texto
Às vésperas da Páscoa, João faz uma pausa antes de narrar o que vem a seguir e nos diz o que se passava dentro de Jesus: ele sabia que a hora havia chegado, a hora de deixar este mundo e voltar ao Pai. E sabendo disso, com a cruz já desenhada no horizonte e um traidor sentado à mesa, ele não se recolheu nem se protegeu. Fez o contrário: "como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim." O versículo é a porta de entrada de tudo o que virá, da bacia de água aos pés sujos, do pão molhado entregue a Judas, do galo que cantará antes do amanhecer.
O Cerne
Repare na lógica estranha desta frase. O saber de Jesus e o seu amar não andam em direções opostas; andam juntos. Ele sabe exatamente quem o venderá por dinheiro, quem o negará três vezes, quem dormirá quando ele suar sangue. Sabe que "os seus" são um grupo de homens frágeis, competitivos e assustados. E é precisamente esse conhecimento completo que precede o amor levado ao extremo. É aqui que o evangelho se separa de toda afeição humana comum: nós amamos até descobrirmos o suficiente, e então recuamos. Deus ama sabendo tudo desde o início. O amor dele não é uma avaliação otimista das nossas possibilidades, é uma decisão tomada com os olhos abertos, que não depende de você melhorar para continuar.
O Fio Condutor
A Páscoa não está ali por acaso. João marca o relógio: tudo isto acontece "antes da festa da paschoa", quando Jerusalém cheirava a cordeiro e as famílias relembravam a noite em que o sangue na porta separou a morte da vida. Israel foi libertado por um Deus que primeiro amou e só depois exigiu. Agora o próprio Cordeiro se senta à mesa com os seus e caminha para a sua hora. A palavra grega por trás de "até ao fim", telos, significa ao mesmo tempo o limite extremo e o alvo alcançado. O mesmo verbo ecoará na cruz: está consumado. O amor não foi interrompido pela morte; chegou ao seu destino nela.
O Espelho
Há uma pergunta que você provavelmente nunca formulou em voz alta: e se ele soubesse de tudo? Não as falhas que você já confessou, mas aquela coisa que você administra sozinho há anos, o ressentimento que alimenta contra alguém da sua própria casa, a mediocridade espiritual que ninguém na igreja percebe porque você sabe falar bem. A suspeita secreta é que o amor de Deus funciona por desinformação, e que no dia em que ele vir o arquivo completo, recuará educadamente. João fecha essa porta. Jesus amou "os seus" com o traidor à mesa e o negador ao lado. O conhecimento dele já é total, e o amor continua.
Isso liberta e incomoda ao mesmo tempo. Liberta porque você pode parar de gerir a sua imagem diante de Deus. Incomoda porque tira a sua desculpa favorita para desistir das pessoas: você também sabe demais sobre o seu cunhado, sobre aquele irmão da igreja, sobre o seu cônjuge, e usa esse saber como permissão para amar menos.
Hoje: escreva num papel o nome da pessoa de quem você já sabe demais para continuar amando, e ore por ela em voz alta durante dois minutos, pedindo a Deus que a abençoe concretamente naquilo de que ela mais precisa.
Contexto
É quinta-feira à noite, numa sala emprestada de Jerusalém, com a cidade inchada de peregrinos e os líderes religiosos já procurando um jeito discreto de prender Jesus. Os discípulos reclinam-se à mesa ao modo das refeições festivas, deitados de lado, os pés voltados para fora. Ninguém lavou pé nenhum: não havia servo, e nenhum deles se ofereceu. O grupo vive uma tensão de poder que Lucas descreve sem rodeios, disputando quem é o maior. Jesus, por sua vez, sabe que tem horas de vida. É nesse ambiente carregado, de orgulho mesquinho e perigo real, que João coloca a palavra "amou".
O Perfil
A comunidade que primeiro leu este evangelho já tinha conhecido a expulsão da sinagoga, famílias divididas, talvez a prisão de líderes. Eram cristãos que se perguntavam se tinham sido abandonados. Para eles, "os seus, que estavam no mundo" não era poesia: era a descrição exata da sua situação, um pequeno grupo exposto num ambiente hostil, com o Senhor fisicamente ausente. Ouvir que Jesus os amou "até ao fim" antes de partir significava que a partida não era desistência. Ele não saiu da sala porque se cansou deles. Foi para o Pai carregando-os consigo.
O Detalhe
"Sabendo Jesus que já era chegada a sua hora." João usou "a hora" o livro inteiro como um relógio que ainda não bateu: ainda não é chegada a minha hora. Agora bate. E note o que a hora é: não a hora de sofrer, nem de morrer, mas de "passar d'este mundo para o Pae". João olha a cruz pelo lado de trás e vê uma travessia, um regresso a casa. Quem lê isso compreende por que Jesus pode ajoelhar-se diante de pés sujos sem perder nada. Quem sabe para onde vai não precisa defender a sua posição aqui.
Reflexão
O que em você Deus já sabe e você ainda tenta esconder, e o que mudaria no seu dia se você cresse que ele continua amando mesmo assim?
De quem você se afastou usando como justificativa aquilo que você sabe sobre essa pessoa?
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Perguntas frequentes sobre John 13:1
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, como Pedro, eu também recuo quando te vejo ajoelhado diante de mim. É mais fácil servir do que ser servido. Ensina-me a deixar que me toques onde estou sujo, sem me esconder, sem discutir. Quero receber o teu amor assim, de mãos abertas.
Só aqui, na última noite, Jesus os chama de "filhinhos". Homens adultos, pescadores calejados, e ele usa a palavra que uma mãe usa. É assim que ele fala quando vai dizer algo que dói: "para onde eu vou, vós não podeis ir." Há despedidas que você terá de viver sozinho. Mas repare no tom em que ele avisa.
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