João 18:22
O Texto
Jesus acabou de responder ao interrogatório com uma serenidade quase insolente: não falou em segredo, ensinou abertamente, e por isso remete o sumo sacerdote às testemunhas. "Pergunta aos que ouviram o que é que lhes tenho fallado." E então, no silêncio que se segue àquela resposta, alguém se move. Não Anás, não um dos sacerdotes, mas um subalterno, "um dos creados que ali estavam". A mão dele atinge o rosto de Jesus, e a frase que acompanha o golpe é uma pergunta indignada: "Assim respondes ao summo sacerdote?" A cena inteira cabe num versículo. Uma palavra de Jesus, um estalo, uma repreensão. E o leitor fica ali, parado diante daquele som que o Evangelho não explica nem suaviza.
O Cerne
Repare no que provoca a violência: não uma blasfêmia, não uma ameaça, mas o tom. O servo não julga o conteúdo, julga a postura. Jesus falou com uma liberdade que não se encaixava na hierarquia daquela sala, e a hierarquia respondeu com a mão. É assim que o poder religioso costuma reagir quando não consegue refutar: corrige o modo, para não ter de encarar a substância. E Deus, encarnado, recebe o golpe sem devolvê-lo. Aqui está algo que atravessa toda a teologia cristã e nenhuma explicação esgota: a glória de Deus não se defende com força. O rosto que Isaías viu ferido é o mesmo rosto que Anás tem diante de si e não reconhece. Quantas vezes já corrigimos o tom de alguém para não ouvir a verdade que ele dizia?
O Fio Condutor
Há uma linha que vem de longe até esta bofetada. O servo sofredor de Isaías, que oferece as costas aos que o feriam e o rosto aos que lhe arrancavam a barba, não é uma profecia que João cite aqui, mas é a memória em que a cena respira. Israel esperava um Messias que recebesse honra; recebe um Messias que recebe golpes. E o mais estranho é que este é exatamente o caminho pelo qual a salvação chega. Poucos versículos antes, Jesus já dissera a Pedro: "não beberei eu o calix que o Pae me deu?" A bofetada é o primeiro gole desse cálice. Não um acidente no percurso, mas o percurso. Se o Cristo tivesse revidado, teríamos um herói; tendo recebido, temos um Salvador.
O Espelho
Você já foi calado por causa do tom. Talvez numa reunião de trabalho, onde disse algo verdadeiro e ouviu que "não era a hora"; talvez em casa, onde a pergunta honesta de um filho foi tratada como falta de respeito. E você também já fez isso: já usou a autoridade que tinha, de pai, de líder, de professor, para encerrar uma conversa que estava ficando incômoda. O servo do sumo sacerdote não é um monstro; é alguém protegendo o sistema que lhe dá lugar. É aí que a cena arde. Não somos apenas os feridos, somos com frequência a mão. Hoje, antes que o dia acabe, lembre-se de uma pessoa cuja fala você cortou pelo tom e diga a ela, por mensagem ou pessoalmente, apenas isto: "Eu não te ouvi direito. Quer me contar de novo?"
O Detalhe
"Assim respondes ao summo sacerdote?" Repare que a pergunta é, na sua forma, idêntica a uma oração religiosa: defende a dignidade do ofício sagrado. O servo acredita estar do lado certo. Ele não está bêbado nem enfurecido; está zeloso. E o zelo é justamente o que torna a cena insuportável, porque é um zelo que fere Deus enquanto pensa honrá-lo. Há uma pergunta que fica aberta no texto e o Evangelho não fecha: quantas coisas fazemos em nome da reverência que são, na verdade, golpes no rosto do Senhor? João não moraliza, não comenta, não acrescenta um "coitado". Deixa o estalo ecoar e segue. Talvez porque, diante de certas cenas, o comentário seja uma forma de fuga.
O Personagem Principal
O que mais impressiona em Jesus aqui é a ausência de reação automática. Ele não devolve, não se cala em resignação muda, não faz do sofrimento um espetáculo. Responde com uma pergunta lúcida: "se bem, porque me feres?" É a serenidade de alguém que não precisa vencer a discussão para permanecer inteiro. Um homem amarrado, de rosto ardendo, no meio da noite, cercado por gente que já decidiu o desfecho, e ainda assim é o único naquela sala que está livre. Sua liberdade não vem das circunstâncias; vem de saber de onde veio e para onde vai. Não sabemos o que se passava nele naquele instante. O texto guarda esse silêncio, e talvez seja bom que guarde.
Contexto
É noite alta, provavelmente entre a meia-noite e a madrugada, na casa de Anás, sogro do sumo sacerdote em exercício e verdadeiro centro de poder da família sacerdotal. Não é um tribunal formal; é um interrogatório preliminar, informal, feito na residência de um homem influente, fora de qualquer procedimento legal reconhecido. No pátio, gente se aquece em brasas porque faz frio, e Pedro está entre eles. A honra pública valia mais que a vida naquele mundo: bater no rosto de alguém não era só dor, era declarar publicamente que aquela pessoa não tinha valor social algum. O golpe é, portanto, uma sentença antes da sentença. E Jesus a recebe em pé.
Reflexão
Onde, nesta semana, você defendeu uma autoridade, uma tradição ou uma posição sua com a firmeza do servo do sumo sacerdote, sem se perguntar se estava ferindo alguém que dizia a verdade?
O que muda na sua oração quando você imagina que o Deus a quem fala é aquele que ficou em pé, de rosto ardendo, sem revidar?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor Jesus, porque o teu reino não é deste mundo. Não chamaste os teus servos para lutar por ti, mas te entregaste por nós. Que alívio saber que a minha esperança não depende de tronos, exércitos ou poderes que um dia passam.
Obrigado, Senhor Jesus, porque falaste francamente ao mundo e nada disseste em oculto. Tua verdade não ficou guardada para poucos: ensinaste nas sinagogas e no templo, onde todos se reuniam. Hoje também eu posso ouvir e conhecer o teu ensino, de coração aberto.
Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes." No meio das tochas e das espadas, a preocupação de Jesus não era escapar, era abrir caminho para os seus saírem. Ele se entrega para que você seja solto. Repare: ninguém pediu isso por eles. Foi Ele quem falou primeiro, quando eles nem sabiam pedir.
Pai, mesmo quando tudo parecia fora de controle, o que teu Filho disse se cumpriu. Ajuda-me a confiar assim, quando não entendo o caminho nem enxergo o fim. Que a cruz me lembre que o teu propósito segue firme, mesmo no escuro.
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