João 21:25
O Texto
O evangelho termina com um gesto de quem larga a pena no meio da frase. João acaba de garantir que o testemunho do discípulo amado é verdadeiro, e então acrescenta um reconhecimento desconcertante: "Ha, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez, as quaes, se cada uma de per si fosse escripta, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem." Não é uma despedida educada nem um pedido de desculpas por um relato incompleto. É a confissão de que aquilo que acabámos de ler é uma amostra, escolhida a dedo, de uma vida que não cabe em rolos de papiro. O "Amen" final não fecha a porta; sela um testemunho que sabe ser parcial.
O Cerne
A hipérbole tem endereço. Quando Salomão consagra o templo, diz que "os céus e os céus dos céus" não podem conter a Deus, quanto mais uma casa construída por mãos humanas. João faz o mesmo movimento, mas com livros em vez de pedras: o mundo inteiro, transformado em biblioteca, continuaria pequeno demais para a vida de um carpinteiro galileu. Isto diz algo decisivo sobre quem é Jesus para João, e algo igualmente decisivo sobre a Escritura. O texto é suficiente, não exaustivo. Foi escrito "para que creiaes", como João já tinha explicado antes do capítulo 21, não para esgotar o assunto. Quem exige da Bíblia uma resposta para tudo pede-lhe algo que ela nunca prometeu dar, e perde aquilo que ela realmente oferece: um encontro bastante para a fé.
O Fio Condutor
Há uma tensão deliciosa entre este último versículo e o fim do Eclesiastes, onde o sábio avisa, cansado, que de fazer muitos livros não há fim e que muito estudo é fadiga da carne. João concorda com o diagnóstico e inverte o sentido: a inesgotabilidade já não é o peso de um mundo sem respostas, mas a abundância de uma vida que nenhuma biblioteca contém. E isto fecha um círculo dentro do próprio evangelho. No prólogo, o Verbo estava no princípio e por meio dele tudo foi feito; aqui, no fim, descobrimos que todas as coisas feitas não bastam para registar o que esse mesmo Verbo fez em trinta e poucos anos de carne galilaica. O Criador do mundo não cabe no mundo que criou. A encarnação não reduziu Cristo ao tamanho de um relato; foi o relato que teve de escolher.
O Espelho
Repare no que este versículo faz com a sua sede de controlo. Queremos a vida arrumada, documentada, explicada: o diagnóstico com prognóstico claro, o filho adolescente com motivos compreensíveis, o despedimento com uma razão que faça sentido. E queremos a Bíblia assim também, como manual onde cada página responde à pergunta exacta que trouxemos esta manhã. João diz, com uma serenidade quase irritante, que ficou muita coisa de fora. O que está escrito chega para crer, não para dominar. Mas há aqui também um consolo que poucos notam: se as obras de Jesus excedem os livros, então aquilo que ele fez na sua vida, sem testemunhas e sem registo, pertence à mesma lista infindável. Hoje, escreva numa folha uma coisa concreta que Cristo fez consigo e que não está em livro nenhum, e diga-a em voz alta a alguém antes de se deitar.
O Perfil
Os primeiros leitores já tinham ouvido falar de Jesus durante décadas, provavelmente antes de este rolo existir. Conheciam histórias contadas por gente que conhecera gente que estivera lá. E agora as testemunhas estavam a morrer, incluindo, muito provavelmente, o próprio discípulo amado, cuja morte tinha gerado o mal-entendido corrigido no versículo 23. Para uma comunidade assim, "sabemos que o seu testemunho é verdadeiro" não é retórica piedosa: é a assinatura dos que garantem a origem do documento. E o versículo 25 responde a uma pergunta que eles fariam naturalmente: e as histórias que o nosso avô contava, que aqui não aparecem? João não as nega. Diz apenas que não cabiam, e que o essencial ficou.
Contexto
Estamos à beira do lago de Tiberíades, depois de um pequeno-almoço de brasas, peixe e pão, depois de Pedro ter sido reconstruído com três perguntas que doíam, depois de uma conversa sobre o futuro de outro discípulo que Pedro não tinha o direito de conhecer. É nesse clima, não numa sala de estudo, que o evangelho termina. Vale a pena lembrar o que era um livro naquele mundo: papiro caro, copiado à mão, um rolo com limite físico de comprimento. Escrever era uma decisão económica. Os grandes arquivos pertenciam a impérios e a templos. Dizer que nem o mundo inteiro conteria os livros sobre um galileu executado por Roma é, nesse enquadramento, uma afirmação de poder. Não foi César quem encheu a biblioteca impossível.
A Pergunta
Se tanto ficou por escrever, como sabemos que o que temos é o essencial e não apenas o que sobrou? A pergunta é legítima e o texto não a resolve. João não explica o critério de selecção, apenas declara que escolheu. Podemos reconhecer o que ele guardou: sinais, discursos, a cruz, a ressurreição, aquilo que sustenta a fé. Mas não há garantia interna de que não nos falte algo precioso. Fica um silêncio, e esse silêncio tem custos reais: as perguntas que a Escritura não responde continuam sem resposta. O que o versículo oferece não é informação, é confiança numa pessoa cujo retrato é parcial e verdadeiro ao mesmo tempo. Quem quiser mais terá de esperar por ele, não por mais livros.
Reflexão
Que pergunta leva à Bíblia esperando uma resposta que ela nunca prometeu dar, e o que mudaria se deixasse essa pergunta em aberto diante de Cristo em vez de diante do texto?
Se as obras de Jesus não cabem nos livros, em que ponto da sua história dos últimos anos reconhece uma dessas obras não escritas, e a quem ainda não a contou?
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Perguntas frequentes sobre John 21:25
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O que a comunidade compartilha sobre John 21
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, chego com as mãos vazias e sem ter o que mostrar. Nem sempre é fácil admitir isso em voz alta. Mas tu perguntas com carinho, como quem já sabe e mesmo assim quer ouvir de mim. Então digo: não tenho nada. E espero por ti.
Senhor, eu me distraio comparando minha vida com a dos outros, querendo saber por que o caminho deles parece mais leve. Ajuda-me a soltar essas perguntas e a manter os olhos em ti. O chamado que me deste é este, e basta. Quero simplesmente seguir.
Senhor, ajuda-me a te reconhecer nas manhãs comuns, quando tudo parece só trabalho e cansaço. E quando eu perceber que és tu, dá-me coragem de correr na tua direção, sem esperar estar pronto ou digno. Tu me esperas na margem.
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