João 8:44
O Texto
A frase cai no meio de uma discussão sobre ascendência e explode: "Vós tendes por pae ao diabo, e quereis fazer os desejos de vosso pae." Jesus fala a homens religiosos, que acabaram de invocar Abraão e depois o próprio Deus como pai, e lhes diz que a árvore genealógica deles corre por outro lado. Ele dá duas marcas desse parentesco, duas e não mais: homicídio desde o princípio e mentira. "Não permaneceu na verdade, porque não ha verdade n'elle." A acusação não é sobre sangue, nem sobre circuncisão, nem sobre frequência ao templo. É sobre semelhança. Filhos parecem-se com o pai, e aquilo que estes ouvintes estão a planejar, matar quem lhes disse a verdade, denuncia de quem aprenderam o ofício.
O Cerne
O texto desmonta a ideia de que o ser humano é uma página neutra que escolhe livremente entre o bem e o mal. Ninguém fala sozinho. Há sempre uma voz anterior que nos ensinou a nomear as coisas, e Jesus diz que existem apenas duas linhagens de fala: a verdade que vem do Pai e a mentira que é a língua materna do outro. A expressão é precisa: quando o mentiroso mente, "falla do que lhe é proprio". Não é um desvio ocasional; é o idioma natal. Daqui nasce uma pergunta que o texto não responde depressa e que talvez devamos deixar respirar: se a mentira pode tornar-se tão familiar que já não soa a mentira, como saberei eu, esta manhã, de quem são as palavras que repito sem pensar?
O Fio Condutor
"Homicida desde o princípio" aponta para trás, para o jardim e para o campo onde Caim ergueu a mão contra o irmão. A serpente não matou com as mãos; matou com uma pergunta torta sobre o que Deus teria dito, e a morte entrou pela palavra. Desde então a história bíblica é a história de duas vozes que disputam o ouvido humano. O que torna esta cena em João tão densa é que a Voz verdadeira está ali, encarnada, no pátio do templo, e será morta precisamente por dizer a verdade. A mentira cumpre o seu ofício até ao fim. E é ao ser levantado, diz Jesus poucos versículos antes, que se saberá quem ele é. O Filho deixa que a mentira o mate e, ao morrer, esvazia-a.
O Espelho
Repare onde isto o toca. Não nas grandes falsidades, que são raras, mas nas pequenas narrativas que você sustenta para se manter de pé: a versão da discussão com o seu cônjuge em que você sai razoável, o número que arredonda no relatório, a doença do familiar que você descreve sempre mais leve do que é porque a verdade custa demasiado. Nenhuma delas parece homicida. Mas Jesus junta as duas coisas num só fôlego, mentira e morte, como se soubesse que toda falsidade acaba por custar vida a alguém, ainda que apenas um pouco da sua. E a pergunta incómoda é esta: de que tenho medo, para precisar da versão retocada? Hoje, escreva numa folha a frase não verdadeira que disse esta semana, a mais pequena que lhe vier, diga-a em voz alta diante de Deus e acrescente a versão verdadeira. Depois rasgue o papel.
A Personagem Principal
Quem fala assim? O mesmo homem que, no início deste capítulo, se recusou a atirar a primeira pedra e disse a uma mulher culpada: "Nem eu tambem te condemno." A mesma boca. Isso deveria desarmar qualquer leitura deste versículo como simples fúria. Jesus é duro aqui não porque perdeu a paciência, mas porque sabe para onde vai e de onde veio, e nada do que lhe digam o pode desfazer. Há nele uma solidão serena: "o Pae não me tem deixado só." Ele não defende a sua honra, defende a verdade, e quando o chamam samaritano e endemoninhado responde sem elevar a aposta. É um homem inteiramente livre, e por isso perigoso para quem vive de aparências.
O Detalhe
"Não permaneceu na verdade." O verbo guarda um eco estranho: permanecer pressupõe ter estado. Houve, então, um tempo em que esteve? O texto não explica, e a tentação de preencher esse silêncio com especulação é grande. Deixe o silêncio estar. Mas note o contraste, porque é deliberado: aos que creem, Jesus acabara de dizer "se vós permanecerdes na minha palavra". O mesmo verbo. A diferença entre as duas filiações não é um acto heroico, é uma permanência, um ficar. E o servo, diz o versículo 35, não fica para sempre em casa; o Filho fica. Permanecer não é mérito nosso. É dom de quem nos faz filhos.
O Perfil
Para ouvidos judeus do primeiro século, a identidade era ascendência. Dizer "somos descendência de Abraão" não era arrogância, era a verdade do pacto, o chão sob os pés. Jesus não nega o sangue: "Bem sei que sois descendencia de Abrahão." Nega que o sangue baste. Pior ainda, o insulto que lhe atiraram, "não somos nascidos da fornicação", soa a alusão suja ao nascimento dele; ele devolve algo infinitamente mais grave. Para quem ouvia, aquilo foi um golpe no centro da existência. E para nós, que trocámos a genealogia por outras garantias, batismo, anos de igreja, ortodoxia correta, a pergunta chega igualmente afiada: em que estou a confiar que não é semelhança com o Pai?
Reflexão
Qual é a mentira que me tornei tão hábil a contar que já nem a ouço como mentira?
Se filhos se parecem com o pai, o que é que as minhas palavras desta semana revelam sobre a casa onde aprendi a falar?
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Perguntas frequentes sobre John 8:44
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O que a comunidade compartilha sobre John 8
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Muitas coisas tenho que dizer e julgar a vosso respeito", disse Jesus. Ele tinha munição de sobra contra aqueles homens, e escolheu não usar. Falou só o que ouviu do Pai. Pense nas coisas que você poderia dizer hoje, verdadeiras até, e que ninguém pediu. Silêncio também pode ser obediência.
Senhor, tu te inclinaste e ficaste em silêncio quando todos queriam acusar. Ensina-me essa calma. Quando eu tiver pedra na mão, faz com que eu abaixe primeiro os olhos e me lembre de quanto já fui poupado por ti.
Obrigado, Senhor Jesus, porque enquanto os teus ouvintes especulavam se tu te matarias, tu já caminhavas livremente para dar a tua vida por nós. Sou grato porque a tua morte não foi acidente nem desespero, mas amor entregue por mim.
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