João 8:54
O Texto
À pergunta cortante, "quem te fazes tu ser?", Jesus não responde com uma lista de credenciais. Responde deslocando a questão inteira: se for ele mesmo a atribuir-se glória, essa glória não vale nada, é vazia, não pesa. Quem o glorifica é o Pai. E então vem a farpa, dita quase de passagem: o Pai "o qual dizeis que é vosso Deus". Aquele de quem vos gabais, aquele cujo nome usais para me julgar, é precisamente quem está a dar testemunho de mim. A frase tem duas metades que se recusam a separar: uma renúncia radical à autopromoção e uma afirmação de intimidade tão alta que soa a blasfémia aos ouvidos de quem escuta. Jesus abdica de se defender e, no mesmo fôlego, reclama o Pai como sua única testemunha.
O Núcleo
Há aqui uma definição de glória que desmonta a nossa. Glória, para Jesus, não é algo que se produz, se acumula ou se protege; é algo que se recebe de outro. "A minha gloria é nada", diz ele, se for autogerada. Nada: não pouco, não discutível, nada. É uma palavra que devia fazer-nos parar mais tempo do que fazemos. O Filho vive inteiramente do reconhecimento do Pai, e essa dependência não o diminui, constitui-o. Aqui está o coração do evangelho em miniatura: a identidade verdadeira nunca é auto-declarada, é conferida. E se isto é verdade do Filho eterno, que poderia legitimamente reivindicar tudo, então a nossa ansiedade em provar quem somos não é apenas cansativa, é uma recusa do modo como Deus faz existir as pessoas: chamando-as pelo nome, de fora.
O Fio Condutor
A frase não fica suspensa no ar; aponta para a cruz. No mesmo discurso Jesus já tinha dito: "Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou". O lugar onde o Pai o glorifica não será um trono montado pelos homens, mas um madeiro erguido por eles. É aí que a glória recebida e a glória recusada se encontram: ele não toma nada para si, e o Pai dá-lhe tudo. Esse padrão atravessa a Escritura inteira. Abraão não se fez pai de nações, foi chamado; Israel não se escolheu, foi escolhido. O povo que agora se defende dizendo "somos descendencia de Abrahão" esqueceu que essa descendência também foi dom, nunca conquista. Jesus não introduz uma lógica nova. Encarna a antiga, levada até ao fim.
O Espelho
Repare em quanto da sua energia diária se gasta a gerir a sua própria reputação. A frase ensaiada para o momento em que o colega levar o crédito. A explicação que prepara para o jantar de família, para que fique claro quem fez o quê. O comentário que escreve e apaga três vezes. Nada disto é monstruoso; é apenas o trabalho exaustivo de quem acredita que a sua glória depende de si. E Jesus diz, sem suavizar: isso é nada. Não é pecaminoso e útil, nem compreensível e humano. É nada. A pergunta que o texto lhe devolve não é se tem orgulho, mas de que tribunal anda à espera de veredito. Hoje: escreva num papel a frase de autodefesa que tem andado a ensaiar na cabeça, leia-a em voz alta, e depois rasgue-a dizendo "a minha gloria é nada".
O Perfil
Quem ouvia isto estava no pátio do templo, perto do tesouro, rodeado do peso visível da religião que herdara. Numa cultura onde a honra era moeda pública e a vergonha uma morte social, afirmar-se a si mesmo era o pior dos gestos; por isso o ataque "quem te fazes tu ser?" era devastador. E a resposta de Jesus desarma-os exatamente onde eles pensavam estar seguros: não disputa a regra deles, aceita-a inteira. Não me glorifico. Mas depois acrescenta aquilo que nenhum ouvinte podia ignorar: o Deus de quem vocês se gabam, o Deus do pacto, do templo onde estamos, é a minha testemunha. Para eles isso não soava a humildade. Soava a alguém a roubar-lhes Deus de dentro de casa.
O Detalhe
A palavra grega para glória é doxa, e carrega duas coisas ao mesmo tempo: peso, honra real, e também opinião, aquilo que parece aos outros. Glorificar-se a si mesmo é, literalmente, ter opinião favorável de si próprio. Daí o veredito ser tão seco: uma opinião sobre mim mesmo não acrescenta grama nenhuma ao que eu sou. E logo a seguir vem o verbo que Jesus escolhe para eles: "o qual dizeis que é vosso Deus". Não "conheceis". Dizeis. Entre o dizer e o conhecer abre-se o abismo inteiro deste capítulo. É possível pronunciar o nome de Deus a vida toda, com sinceridade, com tradição, com fervor, e estar a falar de alguém que nunca se encontrou.
A Personagem Principal
Faltam cinco versículos para as pedras. Jesus sabe-o. Já foi chamado samaritano e endemoninhado, já lhe disseram que é louco, e a sua resposta não tem nem uma linha de ressentimento nem uma tentativa de se tornar simpático. Há nele uma serenidade que não vem de indiferença, porque ele continua a falar, continua a insistir, continua a tentar que eles vejam. Vem de outro sítio: de saber "d'onde vim, e para onde vou". Um homem que não precisa do veredito da sala está livre para dizer a verdade à sala. E esta é a imagem mais perturbadora do texto: a liberdade de Jesus não é distância, é intimidade. Ele está calmo porque está olhado.
Reflexão
De quem, concretamente, espero o veredito sobre o meu valor, e o que mudaria no meu dia se esse veredito já estivesse dado?
Em que áreas da minha fé estou mais perto de "dizer" que Deus é meu Deus do que de o conhecer?
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Perguntas frequentes sobre John 8:54
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O que a comunidade compartilha sobre John 8
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Muitas coisas tenho que dizer e julgar a vosso respeito", disse Jesus. Ele tinha munição de sobra contra aqueles homens, e escolheu não usar. Falou só o que ouviu do Pai. Pense nas coisas que você poderia dizer hoje, verdadeiras até, e que ninguém pediu. Silêncio também pode ser obediência.
Senhor, tu te inclinaste e ficaste em silêncio quando todos queriam acusar. Ensina-me essa calma. Quando eu tiver pedra na mão, faz com que eu abaixe primeiro os olhos e me lembre de quanto já fui poupado por ti.
Obrigado, Senhor Jesus, porque enquanto os teus ouvintes especulavam se tu te matarias, tu já caminhavas livremente para dar a tua vida por nós. Sou grato porque a tua morte não foi acidente nem desespero, mas amor entregue por mim.
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