Explicação bíblica

Juízes 6

Bíblia
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O Texto

Israel volta a fazer o que é mau aos olhos do Senhor, e por sete anos os midianitas os saqueiam sistematicamente: destroem a colheita, levam o gado, empurram o povo para cavernas e fendas nos montes. Quando Israel finalmente clama, Deus envia primeiro um profeta que apenas acusa, e depois um anjo que se senta debaixo de um carvalho em Ofra e chama Gideão, escondido num lagar, de "varão valoroso". Segue-se uma longa negociação: sinal de fogo, altar derrubado à noite, Espírito descendo, e duas vezes um velo de lã sobre a eira.

O Cerne

Repare no descompasso entre o que Deus diz e o que se vê. Um homem debulhando trigo dentro de um lagar, agachado num tanque de pisar uvas para que ninguém o veja, é saudado como guerreiro valente. Isso não é elogio nem ironia: é a maneira de Deus falar. Ele chama as coisas que não são como se já fossem, porque a palavra dele cria aquilo que declara. Gideão responde com a única aritmética que conhece: "o meu milheiro é o mais pobre em Manasseh, e eu o menor na casa de meu pae". E Deus não corrige a aritmética. Simplesmente acrescenta uma variável: "eu hei de ser comtigo". Toda a salvação bíblica funciona nesse acréscimo.

O Fio Condutor

Duas coisas neste capítulo apontam para diante de si mesmas. Primeiro, o anjo do Senhor, que fala como se fosse o próprio Deus, senta-se debaixo de uma árvore e aceita comida das mãos de um homem assustado. O presente vira sacrifício quando o fogo sobe da rocha, e Gideão, esperando morrer por ter visto Deus de perto, ouve: "Paz seja comtigo; não temas: não morrerás." Ele constrói um altar e o chama "Senhor é paz". A paz vem antes da vitória, fundada num sacrifício consumido, não no desempenho de Gideão.

Segundo, a cena da manhã seguinte. A cidade exige de Joás: "Tira para fóra a teu filho, para que morra". Um filho deve morrer porque o altar foi profanado. Em vez dele, o novilho já ardeu no altar novo. Aqui o padrão é claro, e o contraste com o Calvário é ainda mais: ali o Pai não reteve o Filho.

O Espelho

Você provavelmente conhece o lagar. É o lugar onde faz o seu trabalho de forma encolhida, esperando que ninguém repare: o negócio que sobrevive mas não cresce, a fé que existe em casa mas não na mesa do almoço com colegas, a conversa sobre Deus que você adia com o filho adolescente por medo do desprezo. Gideão também "temendo elle a casa de seu pae, e os homens d'aquella cidade, não o fez de dia, mas fel-o de noite". Deus aceitou a obediência noturna. Não a rejeitou por ser medrosa. Mas note onde estava o altar de Baal que precisava cair: no quintal do pai dele. A idolatria que Deus manda derrubar primeiro raramente é a do país; costuma ser a da família, a herdada, a que paga as contas.

O Protagonista

Gideão é o homem que discute com Deus e não é repreendido por isso. Sua primeira fala não é adoração, é acusação: "se o Senhor é comnosco, porque tudo isto nos sobreveiu?" Ele repete a catequese que recebeu dos pais sobre o Egito e conclui que ela não bate com o que vê pela janela. É a queixa de alguém que ainda leva Deus a sério o bastante para se sentir traído. Depois pede sinal, pede que o visitante espere, pede o velo, pede de novo com um pedido de desculpas embutido. Deus concede tudo. Entre o versículo 13 e o 34 nada muda nas circunstâncias de Gideão; muda que "o espirito do Senhor revestiu a Gideon". O verbo hebraico é lavash, vestir: o Espírito veste-se de Gideão como quem calça uma roupa.

A Questão

Por que Deus tolera tanta hesitação em Gideão e, em outros lugares da Escritura, pune a dúvida com severidade? O velo é pedido depois do fogo na rocha, depois do altar derrubado, depois do Espírito. Não é honesto chamar isso de fé exemplar; é teimosia de quem já recebeu resposta e quer mais uma. E Deus cede duas vezes, sem trovão, sem repreensão. A única explicação que o texto oferece é o que ele já dissera: "porventura não te enviei eu?" O envio é de Deus, portanto a garantia também. Isso conforta e incomoda ao mesmo tempo, porque significa que não controlamos quando a paciência divina se manifesta assim. Fica um mistério que o capítulo não resolve.

Contexto

Estamos no período entre Josué e Saul, sem rei, sem exército permanente, com tribos ligadas por um pacto frouxo. Midiã não ocupa território: pratica pilhagem sazonal, chegando na época da colheita com camelos, "como gafanhotos", e levando tudo. Camelos domesticados eram então uma vantagem militar nova, mobilidade que Israel não tinha. Ofra é uma aldeia de Manassés, e Joás mantém um altar de Baal que serve a toda a cidade, sinal de que a religião ali já era mista havia tempo. Gideão é o caçula do clã mais fraco, sem autoridade nenhuma. Derrubar aquele altar não era gesto piedoso privado: era sabotar a infraestrutura religiosa da comunidade inteira, e por isso pediram sua morte.

Reflexão

Qual é o altar que está no seu próprio quintal, herdado e conveniente, que você sabe que Deus mandaria derrubar primeiro?

Onde você tem pedido mais um sinal a Deus, quando na verdade já recebeu a resposta e está negociando tempo?

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Perguntas frequentes sobre Judges 6

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Juízes 6?
Israel volta a fazer o que é mau aos olhos do Senhor, e por sete anos os midianitas os saqueiam sistematicamente: destroem a colheita, levam o gado, empurram o povo para cavernas e fendas nos montes. Quando Israel finalmente clama, Deus envia primeiro um profeta que apenas acusa, e depois um anjo que se senta debaixo de um carvalho em Ofra e chama Gideão, escondido num lagar, de "varão valoroso".
Sobre o que fala Juízes 6?
Duas coisas neste capítulo apontam para diante de si mesmas. Primeiro, o anjo do Senhor, que fala como se fosse o próprio Deus, senta-se debaixo de uma árvore e aceita comida das mãos de um homem assustado. O presente vira sacrifício quando o fogo sobe da rocha, e Gideão, esperando morrer por ter visto Deus de perto, ouve: "Paz seja comtigo; não temas: não morrerás.
Qual é o contexto histórico de Juízes 6?
Você provavelmente conhece o lagar. É o lugar onde faz o seu trabalho de forma encolhida, esperando que ninguém repare: o negócio que sobrevive mas não cresce, a fé que existe em casa mas não na mesa do almoço com colegas, a conversa sobre Deus que você adia com o filho adolescente por medo do desprezo.
O que Juízes 6 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Por que Deus tolera tanta hesitação em Gideão e, em outros lugares da Escritura, pune a dúvida com severidade? O velo é pedido depois do fogo na rocha, depois do altar derrubado, depois do Espírito. Não é honesto chamar isso de fé exemplar; é teimosia de quem já recebeu resposta e quer mais uma.
Como Juízes 6 continua relevante hoje?
Qual é o altar que está no seu próprio quintal, herdado e conveniente, que você sabe que Deus mandaria derrubar primeiro?

O que lhe toca em Judges 6?

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