Marcos 3
O Texto
Jesus cura um homem de mão mirrada num sábado, e os fariseus, em vez de se alegrarem, saem para conspirar sua morte com os herodianos. Depois retira-se para o mar, escolhe os doze no monte, e é acusado pelos seus próprios familiares de estar fora de si, e pelos escribas de estar possuído por Belzebu. O capítulo termina com Jesus redefinindo o que é família: quem faz a vontade de Deus.
O Cerne
Marcos 3 é um capítulo sobre linhas divisórias. De um lado, os que se aproximam de Jesus para tocá-lo, curar-se, segui-lo. Do outro, os que endurecem o coração diante do bem que ele faz. E no meio, uma pergunta que Jesus lança na sinagoga e que fica pairando sobre todo o capítulo: "É lícito no sabbado fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar?" Eles se calam. E o silêncio deles já é uma resposta. Curar num sábado é ilegal para os fariseus, mas conspirar assassinato num sábado, aparentemente não. O capítulo expõe como a religiosidade pode servir à morte enquanto Jesus serve à vida.
O Fio Condutor
Jesus subindo ao monte para chamar os doze não é acaso narrativo. Moisés subiu ao Sinai e desceu com doze tribos organizadas ao seu redor. Jesus sobe ao monte e desce com doze homens ao seu redor. É a fundação de um novo Israel, não por descendência de sangue mas por chamado. E quando ele diz, no fim do capítulo, que sua verdadeira família são os que fazem a vontade de Deus, ele está anunciando o que Paulo depois desdobrará em Romanos e Gálatas: a pertença ao povo de Deus não passa mais pelo útero mas pela obediência à vontade do Pai. O corpo de Cristo começa a se formar aqui, no chão de uma casa apertada onde nem dá para comer.
O Espelho
Há um detalhe desconfortável no versículo 21: "os seus" saíram para prendê-lo porque diziam que estava fora de si. A própria família achou que Jesus tinha enlouquecido. Se você já tentou seguir Cristo a sério em decisões concretas, sobre dinheiro, carreira, com quem se casar, quanto tempo dar à igreja, provavelmente conhece esse olhar: parentes preocupados, amigos que balançam a cabeça, aquele silêncio na mesa de jantar. Marcos 3 não promete que isso vai passar. Promete outra coisa: que existe uma família mais profunda, formada em volta de Jesus, onde você não precisa se explicar. A pergunta é se você tem coragem de sentar naquele círculo do versículo 34, mesmo quando os do lado de fora estão chamando.
O Intertexto
A cura da mão mirrada ecoa 1 Reis 13, onde Jeroboão estende a mão contra o profeta e ela seca; aqui, um homem estende a mão diante do profeta maior e ela é restaurada. O gesto de Jesus desfaz o juízo antigo. A acusação de que ele expulsa demônios por Belzebu conversa diretamente com Isaías 49:24: "acaso tirar-se-ia a preza ao valente?" Jesus responde com a parábola do valente amarrado no versículo 27. Ele está dizendo que já entrou na casa do inimigo, já o amarrou, e agora está saqueando. E a redefinição de família no fim do capítulo prepara o que João dirá no prólogo: aos que o receberam deu o poder de serem feitos filhos de Deus, nascidos não do sangue nem da vontade da carne, mas de Deus.
O Protagonista
Marcos nos mostra um Jesus com emoções nítidas. No versículo 5 ele olha "em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração". Raiva e compaixão no mesmo olhar, ao mesmo tempo. Não é o Jesus adocicado de certos quadros. Ele fica furioso com quem prefere manter regras a ver um homem curado, e ao mesmo tempo se compadece porque sabe o que a dureza faz com uma alma. Depois, no monte, ele age com autoridade calma: chama quem quer, dá nomes novos, delega poder. E no fim, cercado por uma multidão pressionando, acusado por escribas e por sua própria família, ele não se defende. Ele redefine. Quem senta ao redor dele é dele.
Contexto
A sinagoga do início do capítulo era o coração da vida comunitária judaica. Curar ali, num sábado, publicamente, era declaração política e teológica. Os herodianos, aliados de Herodes Antipas, e os fariseus normalmente se detestavam; que estejam conspirando juntos mostra o tamanho da ameaça que Jesus representa. As multidões vêm da Galileia, Judeia, Jerusalém, Idumeia, além do Jordão, Tiro e Sidom, ou seja, de território judeu e gentílico. O reino já está transbordando as fronteiras étnicas antes mesmo da ressurreição. E a casa do versículo 20 provavelmente é a de Pedro em Cafarnaum, onde Jesus se hospedava. Uma casa comum, com uma multidão do lado de fora e uma família preocupada tentando entrar.
Reflexão
Onde, na minha vida, tenho me calado como os fariseus na sinagoga, quando uma resposta honesta me custaria alguma coisa?
Se Jesus olhasse hoje "em redor" para os que estão assentados junto dele, eu estaria naquele círculo, ou do lado de fora chamando?
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Perguntas frequentes sobre Mark 3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque a notícia do que Jesus fazia atravessou fronteiras e chegou até Tiro, Sidom e além do Jordão. Gente de longe ouviu falar do teu poder e veio ter contigo. Também eu ouvi, e por isso hoje me achego a ti.
Pai, tu chamaste homens de temperamento forte e ainda assim os quiseste perto. Obrigado por não descartar o que há de intenso em mim, mas por dar novo nome e novo rumo a isso. Ensina-me a usar esse fogo para amar, e não para ferir.
Porque diziam: Está possesso de espírito imundo." Olhavam para o bem que Jesus fazia e chamavam aquilo de coisa do inferno. Não era falta de informação, era o coração já decidido. Cuidado com o que você chama de errado só porque veio de alguém que você não aprova. Deus pode estar agindo bem ali.
Pai, tu sabes como a divisão desgasta tudo por dentro. Cura o que está partido na minha casa e no meu próprio coração, para que eu não viva puxando para lados opostos. Que haja paz onde tem havido disputa.
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