Explicação bíblica

Mateus 1:23

Leia

O Texto

Mateus interrompe a narrativa de José e do anjo para citar o profeta: "Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e chamal-o-hão pelo nome Emmanuel, que traduzido é: Deus comnosco." É uma frase curta, quase uma legenda colada debaixo de um acontecimento escandaloso: uma jovem grávida antes do casamento, um noivo pensando em desfazer o compromisso em silêncio. Mateus olha para essa confusão doméstica e diz que ali está se cumprindo uma palavra antiga. E ele faz questão de traduzir o nome. Não deixa o leitor adivinhar o hebraico. Escreve por extenso o que Emanuel significa, como quem aponta o dedo para a única coisa que não pode passar despercebida: Deus, conosco.

O Núcleo

Repare no que a tradução de Mateus não diz. Não diz "Deus acima de nós", nem "Deus por nós", nem sequer "Deus para nós". Diz conosco, a preposição mais desarmada de todas, a que exige proximidade física, partilha de espaço, respiração no mesmo ar. É a diferença entre alguém que envia ajuda e alguém que entra no quarto. O evangelho começa afirmando que o Deus infinito escolheu o modo mais vulnerável de estar presente: dentro de um útero, dentro de uma família sob suspeita, dentro de uma aldeia sem importância. E note a ligação com o versículo anterior: ele "salvará o seu povo dos seus peccados". Salvação e presença não são duas coisas. Ser salvo é ter Deus perto sem que a proximidade nos destrua.

O Fio Condutor

A frase não nasce em Belém. Nasce numa crise política, na boca de Isaías, dirigida a um rei apavorado que já tinha decidido confiar na Assíria em vez de confiar em Deus. O sinal dado a Acaz foi um bebê: antes que a criança soubesse escolher entre o bem e o mal, as ameaças teriam desaparecido. Deus conosco, ali, significava que a história não estava nas mãos dos impérios. Mateus pega essa palavra e a estica até o seu limite. O que em Isaías era um sinal dentro da história torna-se, em Jesus, a coisa em si. E não é por acaso que o evangelho termina com a mesma promessa na boca do Ressuscitado, quando ele garante estar com os seus até a consumação dos séculos. Emanuel abre o livro e fecha o livro. Tudo o que está entre os dois é o desdobramento dessa preposição.

O Espelho

Aqui é onde a coisa aperta. Você provavelmente não duvida de que Deus exista; duvida de que ele esteja perto do lugar exato onde dói. Da conta bancária no dia vinte e cinco. Do quarto do adolescente que parou de falar com você. Do resultado do exame que está na gaveta. Você acredita num Deus geral e sofre de um abandono específico. E há também o avesso disso, que é mais incômodo: existem cômodos da sua vida em que você prefere que Deus não entre. O modo como você fala da sua esposa quando ela não está. O que você faz no telefone às onze da noite. A satisfação secreta quando aquele colega tropeça. "Deus conosco" soa lindo até percebermos que conosco significa aqui, agora, sem porta fechada. José descobriu isso do jeito difícil: a presença de Deus chegou à casa dele na forma de um constrangimento público que ele não escolheu. Hoje, faça isto: escolha o assunto da sua vida sobre o qual você menos quer conversar com Deus, e diga em voz alta, sozinho, uma única frase: "Emanuel, Deus comigo, também aqui."

O Intertexto

O eco mais evidente é Isaías 7, mas vale ouvir também o fim do Êxodo, quando a glória desce sobre o tabernáculo e Moisés não consegue entrar. Deus estava com o povo, sim, mas atrás de cortinas, com sacerdotes, sangue e distância medida em côvados. A presença era real e perigosa ao mesmo tempo. Em Mateus, a mesma presença chega sem cortina, embrulhada em carne, dependente do leite de uma mãe. O escândalo do Natal não é que Deus se aproxime; é o quanto ele se aproxima. E o contraste ilumina o versículo anterior: essa presença só é suportável porque vem junto com o perdão. Sem "salvará o seu povo dos seus peccados", "Deus conosco" seria uma sentença, não um evangelho.

Contexto

Mateus escreve para leitores judeus que conhecem as Escrituras e que precisam decidir se esse carpinteiro executado é mesmo o Messias. Por isso a genealogia, por isso as citações proféticas. O cenário humano é uma aldeia pequena onde todos sabem de tudo. O noivado judaico já era juridicamente vinculante; romper exigia carta de divórcio, e uma gravidez fora dele expunha a mulher à humilhação pública, no mínimo. José tem poder nessa história, poder de destruir a reputação de Maria com uma palavra, e o texto diz que ele decidiu usá-lo com contenção. É nesse ambiente de fofoca, honra ferida e cálculo de danos que o anjo aparece. Deus não espera as condições melhorarem para chegar. Ele entra exatamente no meio da desordem.

O Detalhe

Compare dois verbos. No versículo 21 o anjo diz a José: "chamarás o seu nome Jesus", segunda pessoa, singular, uma ordem doméstica dada a um pai. No versículo seguinte, a profecia diz "chamal-o-hão", eles o chamarão, plural, sem sujeito identificado. Emanuel não é o nome que consta na certidão. É o nome que a multidão dará depois, quando entender o que aconteceu. José dá o nome da missão; a história descobre o nome da identidade. Isso significa que "Deus conosco" não é uma informação que se recebe pronta, é uma conclusão a que se chega. Ninguém chama Jesus de Emanuel por reflexo religioso. Chama-se quando, num momento qualquer, se percebe que ele já estava ali.

Reflexão

Em que área concreta da sua vida você age como se Deus estivesse informado, mas ausente, e o que mudaria hoje se você o tratasse como presente na sala?

Você já chegou, por experiência própria e não por catequese, a chamar Jesus de "Deus conosco"? Em que circunstância isso aconteceu, e o que aquela lembrança tem a dizer à sua situação atual?

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Perguntas frequentes sobre Matthew 1:23

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Mateus 1:23?
Mateus interrompe a narrativa de José e do anjo para citar o profeta: "Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e chamal-o-hão pelo nome Emmanuel, que traduzido é: Deus comnosco." É uma frase curta, quase uma legenda colada debaixo de um acontecimento escandaloso: uma jovem grávida antes do casamento, um noivo pensando em desfazer o compromisso em silêncio.
Sobre o que fala Mateus 1:23?
A frase não nasce em Belém. Nasce numa crise política, na boca de Isaías, dirigida a um rei apavorado que já tinha decidido confiar na Assíria em vez de confiar em Deus. O sinal dado a Acaz foi um bebê: antes que a criança soubesse escolher entre o bem e o mal, as ameaças teriam desaparecido.
Qual é o contexto histórico de Mateus 1:23?
O eco mais evidente é Isaías 7, mas vale ouvir também o fim do Êxodo, quando a glória desce sobre o tabernáculo e Moisés não consegue entrar. Deus estava com o povo, sim, mas atrás de cortinas, com sacerdotes, sangue e distância medida em côvados. A presença era real e perigosa ao mesmo tempo.
O que Mateus 1:23 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Compare dois verbos. No versículo 21 o anjo diz a José: "chamarás o seu nome Jesus", segunda pessoa, singular, uma ordem doméstica dada a um pai. No versículo seguinte, a profecia diz "chamal-o-hão", eles o chamarão, plural, sem sujeito identificado. Emanuel não é o nome que consta na certidão.
Como Mateus 1:23 continua relevante hoje?
Você já chegou, por experiência própria e não por catequese, a chamar Jesus de "Deus conosco"? Em que circunstância isso aconteceu, e o que aquela lembrança tem a dizer à sua situação atual?

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