Mateus 18
O Texto
Os discípulos querem saber quem é o maior, e Jesus responde colocando uma criança no meio deles: sem conversão, sem se tornarem pequenos, não entram no reino. A partir daí o discurso se abre em círculos concêntricos: cuidado com quem faz tropeçar os pequeninos, o pastor que abandona noventa e nove para buscar uma, o irmão que peca e deve ser procurado a sós, a promessa de que dois ou três reunidos em seu nome têm Cristo no meio, e a pergunta de Pedro sobre o limite do perdão, respondida com um rei, uma dívida impagável e um servo que sufoca o companheiro por cem dinheiros.
O Núcleo
Note o que ocupa o centro neste capítulo. Primeiro uma criança é posta "no meio d'elles". Depois, quando a comunidade se reúne em nome de Jesus, é ele quem está "no meio d'elles". O reino não tem no centro o mais capaz, o mais articulado, o mais útil. Tem no centro o que não tem posição, e tem no centro o próprio Cristo. Isso significa que a grandeza no reino não é uma escala em que se sobe, mas um espaço em que se desce até coincidir com o lugar onde Deus já está. Toda a ética deste capítulo, o não escandalizar, o buscar, o repreender a sós, o perdoar setenta vezes sete, nasce dessa geografia invertida. Não são regras de convivência. São o formato de um coração que reconheceu de onde foi resgatado.
O Fio Condutor
O verso 11 é uma dobradiça silenciosa: "o Filho do homem veiu salvar o que se tinha perdido." Antes dele, a advertência sobre os pequeninos; depois, a ovelha desgarrada. Deus como pastor que sai atrás da que se perdeu é linguagem antiga, de Ezequiel, de Salmos, promessa feita quando os pastores de Israel só cuidavam de si. Aqui a promessa aparece encarnada e caminhando pelos montes de Israel, e o Pastor será ele mesmo entregue. Há algo de vertiginoso nisso: o reino avança porque Deus procura, não porque os perdidos encontram o caminho de volta. E a parábola final revela que o perdão entre irmãos não é uma virtude a mais, é a única prova de que a busca de Deus chegou até nós.
O Espelho
Pergunte-se por que a pergunta de Pedro soa tão razoável. Sete vezes já é generoso; sete vezes é mais do que a maioria de nós aguenta com um cunhado, um colega que sabota reuniões, um pai que nunca pediu desculpa. Pedro não está sendo mesquinho; está tentando encontrar onde termina a obrigação e começa o direito de fechar a porta. Jesus não aumenta o número, ele destrói a contabilidade. E aqui o texto arde: o servo perdoado sufoca o companheiro. Não porque seja monstro, mas porque cem dinheiros era uma dívida real, cobrável, justa. É exatamente assim que fazemos. Nossas mágoas são legítimas, documentadas, defensáveis. E ainda assim, diante dos dez mil talentos, permanecem cem dinheiros.
O Detalhe
"Dez mil talentos." Não é um número, é uma piada amarga. Um talento equivalia a anos de salário; dez mil talentos superava o orçamento anual de uma província romana. Nenhum servo poderia dever isso, nem em cem vidas. Jesus escolhe deliberadamente uma quantia impossível, e depois deixa o servo dizer a coisa mais patética do capítulo: "tudo te pagarei." Ele ainda pensa em parcelas. Ainda calcula. E o senhor, "movido de intima compaixão", não renegocia: apaga. Talvez seja aí que muitos de nós ainda estejamos, agradecidos a Deus mas secretamente convencidos de que estamos pagando aos poucos. Quem pensa que está pagando não perdoa de graça. Só quem foi apagado sabe apagar.
O Perfil
Os primeiros leitores de Mateus eram uma comunidade judaico-cristã pequena, tensa, aprendendo a viver sem o templo e sem uma estrutura pronta. Conflitos internos eram uma ameaça real de dissolução. Quando ouviam "dize-o á egreja", não imaginavam um comitê disciplinar, mas um punhado de pessoas que se conheciam demais, reunidas numa casa. E quando ouviam "onde estiverem dois ou tres reunidos em meu nome", ouviam consolo para a própria pequenez: eram poucos, e isso bastava. Note também que "gentio e publicano" não era, nos lábios de Jesus, sinônimo de descartável. Ele comia com publicanos. A exclusão que ele descreve talvez seja menos um fim do que uma nova forma de busca.
O Protagonista
O rei da parábola é retratado com uma dupla que nos incomoda: compaixão íntima e indignação. A mesma pessoa que apaga uma dívida infinita entrega o servo aos atormentadores. Somos tentados a escolher uma das faces e chamar a outra de exagero oriental. Jesus não nos deixa esse conforto. O que ele mostra é um Deus cuja misericórdia não é indiferença: precisamente porque o perdão é real, recusá-lo aos outros é desmenti-lo, é declarar que nunca foi recebido. A pergunta do senhor fica no ar sem resposta, e talvez seja a pergunta mais séria do capítulo: "Não devias tu egualmente ter compaixão do teu companheiro, como eu tambem tive misericordia de ti?" O servo não responde. Nós também raramente respondemos.
Reflexão
Qual dívida específica, com nome e rosto, você ainda considera pequena o suficiente para cobrar, e o que isso revela sobre o tamanho que você atribui à sua própria dívida perdoada?
Se Cristo está "no meio" onde dois ou três se reúnem em seu nome, o que muda na próxima conversa difícil que você precisa ter com um irmão?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 18
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque a dívida que eu jamais poderia pagar foi quitada na cruz. Ao ler que aquele servo foi entregue aos verdugos "até que lhe pagasse toda a dívida", vejo de onde me tiraste. Guarda meu coração do rancor e ensina-me a perdoar como fui perdoado.
Porque o Filho do Homem veio salvar o que se havia perdido." Jesus fala isso logo depois de avisar para não desprezarmos nenhum dos pequeninos. Ou seja: aquele que você já descartou é justamente quem Ele veio buscar. Pense num nome agora. Se Ele foi atrás dessa pessoa, com que direito você desistiu dela?
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